Olhar de Cinema: Cristiano Burlan fala de Mataram Meu Irmão

Longa trata da violência em São Paulo sob perspectiva de tragédia pessoal do diretor

10/06/2013 12h30

Por Roberto Guerra

Vencedor da edição 2013 do festival É Tudo Verdade, Mataram Meu Irmão, do cineasta Cristiano Burlan, foi exibido na noite deste domingo (9/6) no Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba. Sem previsão de estreia, a produção reconstitui os detalhes da morte do irmão do diretor em 2001, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo. Envolvido com a criminalidade e viciado em crack, Rafael Burlan foi assassinado com sete tiros e jogado numa vala. Tinha 22 anos e deixou dois filhos. Marcado pela tragédia, o diretor ficou angustiado com a ideia de que poderia ter salvo o irmão se o tivesse convidado para jantar e ir ao cinema naquela noite. O filme, no entanto, vai além do drama pessoal e exibe um panorama da violência em bairros da periferia paulistana, na qual Burlan foi criado. O diretor conversou com a reportagem do Cineclick na manhã desta segunda-feira em Curitiba e revelou motivações e temores envolvidos na realização do documentário.


Além de reviver a morte de seu irmão para poder, de certa forma, lidar melhor com a perda, o que mais o motivou a realizar o filme?
Essa espetacularização da violência que, de uns anos para cá, aumentou muito. Como se a violência surgisse agora, como se não existisse isso antes. Nos anos 90 aquela região do Capão Redondo já era muito violenta. Só que a violência agora está respingando nas áreas burguesas da cidade. Realizar um filme sobre o assassinato de meu irmão era discutir também esse momento de extrema violência que São Paulo vive. Eu achei que seria importante nesse momento. Só não tinha ideia que as pessoas fossem se interessar tanto e que o filme fosse sair do gueto.

Teve medo do que as pessoas fossem pensar por estar expondo a morte de uma familiar?
Sim, fiquei com medo das reações. Temi que o filme fosse colocado no nicho de exposição. Achei até que poderia ser crucificado, principalmente pela crítica, por estar expondo o assassinato de meu irmão para querer fazer filme, pra querer estar em festival. Ainda bem que as pessoas enxergaram a verdadeira proposta, que seria a mesma fosse tratando da morte de meu irmão ou de outra pessoa. Tem a ver com minha visão pessoal da violência, meu discurso sobre o assunto.

Em Mataram Meu Irmão você abre o registro para que os depoentes falem abertamente e interfere muito pouco. Por que optou por dar essa liberdade aos entrevistados?
Essa decisão foi primordial pra mim em termo de forma. Quis conduzir o mínimo essas entrevistas. É um risco que se corre porque você pode criar muitas barrigas, mas ao mesmo tempo podem surgir boas situações e tinha fé de que elas iriam aparecer. Muitos consideram isso 'sujeiras', mas aquele cotidiano da vida me interessa.

Ter realizado o filme ajudou a lidar melhor com a morte de seu irmão?
Talvez tenha me apaziguado um pouco... Não sei. Na verdade ainda não consigo definir o que é o filme pra mim. Vai ter de passar um tempo ainda para eu olhar para trás e ver o que foi essa experiência. A única coisa que sabia e que sei é que precisava voltar a essa história.