Paulo Caldas (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Heitor Augusto

Deserto Feliz teve sua primeira exibição em fevereiro de 2007 no Festival de Berlim. No fim daquele ano, dominou a premiação em Gramado, sendo escolhido como melhor filme de júri e público. Quase dois anos depois de ter tomado seus primeiros contatos com o público, o terceiro longa do pernambucano Paulo Caldas (Baile Perfumado) estréia nesta sexta-feira (28/11), com seis cópias e em apenas três capitais (SP, RJ e PE).

Na linha do cinema de contemplação, a câmera de Deserto Feliz observa a história de Jéssica, uma adolescente do interior de Pernambuco com uma situação familiar instável. Foge de casa, vai para capital e torna-se prostituta. Num conto de fadas, conhece um alemão. Mas, como a vida está longe da perfeição, o mundo cor de rosa da garota se desnuda mais cinzento.

"Usei minha experiência como documentarista para filmar uma ficção", define Caldas. Nesta entrevista exclusiva ao Cineclick, o diretor fala seu trabalho como diretor de um programa de Reginaldo Rossi, da mistura entre realidade e criação e o que significa produzir em Pernambuco, estado que revelou, nos últimos anos, Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus), Cláudio Assis (Baixio das Bestas), Lírio Ferreira (Árido Movie), Hilton Lacerda (Cartola - Música Para os Olhos), entre outros.

O fato de você ter nascido na Paraíba, crescido no Amazonas, filmado em Recife e morado no Rio de Janeiro influencia seus filmes?
Meu pai era militar, mudamos muito de casa. Mas, sobretudo depois da premiação do Baile Perfumado no Festival de Brasília em 1996, passei a viajar muito. Isso é uma das coisas que passa muita importância paro cinema que eu faço. Em todos os meus filmes, há a característica dos encontros improvável de pessoas. O Baile é o libanês que filma o Lampião. Já o O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas é o encontro entre um rapper e um justiceiro, ambos utilizando a violência de maneira diferente. Ambos são encontros improváveis. No Deserto Feliz é a mesma coisa, pois se Jéssica [personagem principal do filme] não fosse violentada, não estaria no bar onde encontra o alemão, não iria para a Europa. Enfim, a história não teria acontecido. É o encontro improvável que gera o núcleo central da trama.

A violência é um tema que existe...
Sim, mas não é exterior. Na França, em um debate após a exibição do filme, se falou muito que o cinema brasileiro estava ficando estigmatizado, que a violência estava virando um gênero brasileiro. Uma francesa fez um comentário interessante. Os outros filmes são violência externa, no Deserto Feliz isso é interno. Se não for abordado com cuidado, isso é uma linha perigosa.

Se em seus filmes anteriores, a câmera tem uma movimentação grande, em Deserto Feliz ela é mais discreta, mais contemplativa. Por quê?
Pois é, essa movimentação é mais visível no Baile Perfumado, uma coisa de vigor juvenil de alto risco interessantíssimo. Discutíamos exaustivamente antes das filmagens. Para o novo filme, eu utilizei minha experiência como documentarista. Aliás, o documentário no Brasil é um dos melhores do mundo, sempre brinco que somos o país do futebol, do samba e do documentário. Enfim, procurei juntar ao máximo a influência das linguagens. Em diversas cenas, filmei como se os personagens fossem pessoas, de fato. Tem várias inovações. A câmera, apesar de estar na mão o tempo todo, não é agoniada. Ela tem o objetivo de ser um olhar vivo, com respiração.

E há poucas cores quentes...
Sim! Por exemplo, não tem vermelho no filme. É uma criação ter uma prostituta que não usa batom vermelho. Também não utilizei uma coisa do cinema clássico, o plano e o contra plano [num diálogo, enquadrar um personagem e em seguida outro]. Muitas vezes, o radicalismo dificultou as filmagens, mas, ao mesmo tempo, dá uma unidade ao filme. É uma série de coisas que não do universo da realidade, é um tratamento absolutamente cinematográfico.

Esse é seu primeiro filme em que você assina a direção sozinho. Como é dirigir em dupla?
No meu primeiro filme, co-dirigido por Lírio Ferreira [que viria a realizar Árido Movie e Cartola], resolvemos fazer em dupla porque seria mais fácil a viabilização financeira. Poxa, fazia 19 anos que não se filmava um longa-metragem em Pernambuco! Decidimos filmar a história de Benjamim Abraão, libanês responsável pelas únicas imagens de Lampião. E foi um esforço coletivo, todos que estiveram envolvidos com o filme tiveram seu trabalho reconhecido posteriormente. Mas nós nunca filmamos a mesma cena duas vezes, uma com meu olhar, outra com o de Lírio. Discutíamos e alguém vencia. O vencedor tinha o plano filmado à sua maneira.

Hoje, depois de participação em Cannes, Berlim e festivais nacionais, "cinema pernambucano" acabou virando uma grife, né?
Quando se joga Amarelo Manga, Árido Movie, Cinema, Aspirinas e Urubus no mesmo caldeirão, vejo que não há mais nada em comum. Talvez a coincidência seja a diversidade e o desejo em fazer filmes. Claro que temos culturas similares, crescemos freqüentando os mesmos lugares, indo às mesmas festas, bebendo nos mesmos bares. Todos nós trabalhávamos nos filmes do grupo, trocávamos técnicos e atores entre si, escrevíamos roteiro. Hoje, tomamos rumos um pouco diferentes. Cinema pernambucano não é gênero cinematográfico.

Mas há pontos de diálogo...
Ah, são filmados na mesma região, têm o mesmo sotaque, o mesmo formador cultural. É um fenômeno de difícil compreensão. Na Europa, por exemplo, o conjunto se destacou. Em Berlim, na Itália ou até mesmo na França, há uma identificação como "vindo do Nordeste". Ou, se não sabem de onde somos, sabem pelo menos que não pertencemos ao eixo Rio-São Paulo.

E o que você fez fora do cinema?
Como muitos, fiz publicidade, principalmente na época pós-Collor, quando os mecanismos de produção acabaram. Fiz muita publicidade, já escrevi longas que não foram filmados, dirigi programa do Reginaldo Rossi na televisão em Pernambuco, por um ano. Experiências assim muito boas, acho até que muita gente tem preconceito com publicidade, inclusive meus conterrâneos

Qual seu próximo projeto?
Devo começar a filmar, no início do ano que vem, o Amor Sujo, no qual eu exploro ainda mais essa característica do meu cinema: o encontro improvável de personagens.