Paulo Halm (Exclusivo)

02/03/2010 12h12

Por Heitor Augusto


















Paulo Halm tem 18 anos de carreira como roteirista. Após muito longas-metragens de diversos gêneros, da comédia ao drama, o carioca estreia na direção com Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos.

O filme conta a história de Zeca (Caio Blat), um garoto na faixa dos 30 que não amadurece. Ele é casado há cinco anos com Julia (Maria Ribeiro), seu oposto, determinada e decidida. Surge na vida do casal uma terceira pessoa, Carol (a argentina Luz Ciprota).

Nesta entrevista exclusiva sobre o filme, que acaba de ser exibido no Festival do Rio, Halm explica o clima do filme e suas pretensões. Sem nunca deixar de chamar Zeca de “nosso herói”. Confira:

Por que as histórias de amor duram apenas 90 minutos? Elas só são possíveis no cinema e no tempo do cinema??
O título é uma brincadeira obviamente com a perenidade ou não do amor, da sua possibilidade restrita à fantasia e com o tamanho de um filme ideal, do ponto de vista comercial. Todo distribuidor e exibidor sonham com filmes com esta duração, que lhes permite cinco sessões diárias, e tempo suficiente pra exibir trailers, comerciais, etc e limpar a sala entre uma sessão e outra. As comédias românticas ou não, via de regra sempre duram uma hora e meia ou menos (basta ver os filmes do Woody Allen, por exemplo).

É próprio da comédia ser rápida, leve. Por outro lado, tem o lado metalinguístico: meu filme trata de um jovem escritor que está escrevendo um livro, e o filme dialoga com esse processo de criação. E o conflito básico do nosso protagonista é se ater mais às questiúnculas sentimentais e afetivas de sua vida, preso a uma alienação amorosa, que o impede de resolver seus problemas mais básicos e urgentes. Nosso herói, o Zeca (interpretado por Caio Blat), é um romântico incurável, quase um poeta do séc. 19 deslocado de seu tempo. Incapaz de tomar as rédeas de seu próprio destino, ele se deixa envolver por fantasias e devaneios, em suma: vive no mundo da lua, num mundo ideal como os das comédias românticas, onde sempre, invariavelmente, o final é feliz.

Mas apesar de ser um bom título, é traiçoeiro pois condiciona o tempo do filme à duração que apregoa - e isso não foi uma tarefa fácil. Ainda que o roteiro em tese sugerisse que essa história pudesse ser contada em 90 minutos, ao término da filmagem, feito o primeiro corte na edição, tínhamos um belíssimo filme de 2 horas e meia! Claro que boa parte dessa hora extra eram firulas estilísticas, na verdade cortei poucas cenas que tinham sido filmadas, mas como era meu primeiro filme, procurei exercitar ao máximo o virtuosismo dos planos, o que obviamente gerou este excesso.

Você já havia definido o filme como uma história sobre uma geração que nunca decola. É tão grande assim o número de pessoas que podem, mas não fazem, a ponto de dizer que é uma geração?
Penso que essa seja uma característica geracional e mais, bastante presente principalmente neste momento da nossa história. O filme na verdade fala sobre o difícil processo de amadurecimento, da transição do mundo juvenil, para a vida adulta. Zeca vive esse processo de forma tardia, na verdade ele está enfrentando a crise dos 30 - que é quando os homens realmente viram homens. Mas com um agravante: durante a juventude nos é permitido sermos amadores. Quando nos tornamos adultos, recebemos uma carga de cobrança que na maioria das vezes age de forma paralisante, frustrante, traumática. Boa parte das pessoas que buscam se enveredar no mundo das artes passa por esse momento, e muitos acabam se acovardando ou ficando bloqueados entre o choque da realidade.

As concessões que fazemos, o sal que comemos, os leões que temos que vencer e devorar a cada instante, o medo do fracasso, em suma, todos os percalços pelos quais passamos nesta transição do ideal para o possível, para o real, gera um desgaste enorme, é um processo muito tenso e doloroso. Crescer é doloroso, seja você um artista ou não, mas isso se acentua quando há uma grande sensibilidade envolvida. E o artista é sensível por natureza. E também muito vaidoso.

Muitas vezes é melhor se esconder no conforto do "poderia ter sido" do que enfrentar o alto preço cobrado para realmente tornar-se algo em si. Penso também que, principalmente neste momento de crise econômica em que vivemos, os jovens parecem mais intimidados em tocar suas próprias vidas, têm dificuldade de saírem das casas dos pais, vão recusando o que podem a sua maturidade. Isso não é um fenômeno restrito ao Brasil, se percebe em toda parte do mundo (na Europa, essa geração é até chamada de geração mil euros, pois na falta de mercado de trabalho que absorva a juventude altamente qualificada por escolas, universidades, e acabam se acomodando a empregos com salários mínimos e vivendo sob os cuidados dos pais, sob a segurança familiar, porque não tem condições de sobreviverem sozinhos, com o que ganham). Penso que no Brasil, este fenômeno atinge grande parte da classe média - que é basicamente de onde saem os artistas. No mais, é um problema tipicamente pequeno-burguês, da alienação à qual a classe média, no Brasil e no mundo, está aprisionada: diante dos riscos das mudanças, a resignação e o conformismo.

Me parece que, como é centrado no casal, o texto deve ter vindo também das contribuições tanto do Caio Blat como da Maria Ribeiro? Foi assim mesmo ou tudo esteve estritamente previsto no teu roteiro?
Não. O roteiro foi escrito por mim em 2003 e nunca sofreu nenhuma grande mudança (a não ser a que será explicada numa próxima questão, mais adiante). Na verdade, a contribuição do Caio e da Maria se deu, e de forma bastante enriquecedora, generosa, gratificante, no processo de filmagem, na construção dos personagens, nas roupas até (boa parte dos figurinos da Julia foi composto usando as roupas da própria Maria Ribeiro que, diga-se de passagem, dona de um dos maiores guarda-roupas do mundo!). Mas todo o elenco do filme como também a equipe contribuíram, cada um dentro de sua área e de seu talento, para que o que foi pensado e colocado no roteiro virasse o filme que fizemos.

No mais, nunca foi uma necessidade dramatúrgica que o casal do filme fosse necessariamente interpretado por um casal de atores, isso surgiu muito por sugestão do Caio, que propôs que a Maria fizesse a Julia, e com isso trazer para o filme a vivência deles como marido e mulher na vida real. Sinceramente, isto interfere mais no imaginário voyeurístico do espectador do que na trama e na filmagem em si. É o espectador (que eu espero massivo) que verá nas cenas entre Zeca e Julia alguma mimese do casamento de Caio e Maria, fica por conta da contribuição criativa de quem vê - da mesma forma que poderá rolar o mesmo em relação ao envolvimento de Zeca com Carol, haverá que especule se rolou coisa entre os atores, esse tipo de fantasia é inerente ao fascínio que os atores exercem sobre o público e de certa forma, ajuda a carreira do filme.
Quando chamei o Caio para fazer o filme, nem sabia que ele estava casado com a Maria, não sou muito ligado nessa coisa de fofocas, colunas sociais, jornalismo de tablóides. Por outro lado, tanto a Maria poderia ter feito muito bem o papel da Carol, como a Luz Ciprota, que faz a Carol, poderia ter interpretado por sua vez a Julia (não fosse o fato dela ser argentina).

Mas a sua postura no filme com essa geração que não amadurece é de crítica, retrato, análise?
Eu busco entender o que leva gente talentosa a se sabotar e se destruir, por conta de seus medos, de sua vaidade, da incompatibilidade entre o desejo e o real, em suma, por conta de seus pequenos e grandes erros. Acho que isso nos coloca dentro do campo da "análise", correto? Ao mesmo tempo, o filme não deixa de ser "um retrato do artista enquanto jovem" - pois não há nenhuma conclusão se nosso herói irá ou não se reconciliar com sua arte, a partir daquele momento em que podemos chamar como "depois que o filme acaba, mas a vida dos personagens segue adiante".

O fato de considerar Zeca - já citei o termo aqui duas vezes - "nosso herói", traduz um carinho e uma simpatia pelo personagem que certamente revela minha simpatia com jovens como ele. Mas o filme não é condescendente com o personagem, pelo contrário, ele come o pão que o diabo amassou. O personagem transita entre o garoto talentoso e o mimado, entre o cara sensível e o babaca ególatra e vaidoso, entre a revolta e a auto-indulgência. O Zeca feito com brilhantismo pelo Caio é ora doce, ora ríspido, é profundamente humano nos seus muitos defeitos e nas poucas porém essenciais qualidades. E penso que o espectador irá se identificar muitas vezes com o Zeca e rir disso. A vantagem do humor é que podemos dizer as piores crueldades e as mais duras verdades com um sorriso nos lábios - e provavelmente isso cause mais efeito do que a crítica mais severa.

Por que uma argentina é o elemento que abala a harmonia do casal? Para explicitar, com a língua, o elemento externo no casal?
Na verdade, essa foi a única mudança que o roteiro sofreu. Desde que foi escrito em 2003, a Carol não era uma estrangeira. Quando começamos, eu e a Helô Rezende, minha sócia e produtora do filme, a pensar na realização do filme, na forma de alavancar os recursos financeiros necessários para a filmagem, surgiu a possibilidade de apresentarmos o roteiro ao fundo Ibermedia, que é formado por aportes dos países ibero-latino-americanos, e que tem como uma das exigências a de que os filmes sejam apresentados por produtores de dois dos países que façam parte deste consórcio.

A Helô tinha produzido um filme, Olhos Azuis, do José Joffily, que eu escrevi, que tinha atores argentinos no elenco e antes disso, também havia produzido um filme do Paul Leduc, baseado no romance O Cobrador, do Rubem Fonseca, que era uma co-produção México-Brasil e Argentina, de forma que ela tinha feito uma série de preciosos contatos com produtoras argentinas. Por causa disso, pensei que podia ser interessante que a Carol pudesse ser uma jovem argentina passando uma temporada no Brasil e que aqui, longe de seu país, de seus parentes e amigos se sentisse mais à vontade de transgredir normas que em geral, não conseguiria fazer em seu habitat natural.
O fato de estar transitoriamente num outro país de certa forma aplacaria seu "superego" e deixá-la fazer coisas sem muito pudores nem receios, ou remorsos. Eu vivi anos num bairro aqui do Rio chamado Santa Teresa que é muito frequentado por jovens estrangeiros, muitos argentinos, mas também franceses, italianos, alemães etc. Eles vem pro Brasil passar férias e acabam morando aqui, ficando de vez. Tornam-se meio pedaços da paisagem de Santa Teresa. Eu cruzava diariamente com meninas tipo a nossa Carol, é uma personagem que eu conheço bem. Meio hippie, meio artista, cheia de energia, meio irresponsável, deliciosamente aventureira, um pouco licenciosa, que conhece as boas do Rio melhor até do que muito carioca da gema.

Se no roteiro original, Carol era brasileira, o fato de tornar-se estrangeira tornou seu personagem mais crível, mais rico, mais simbólico até (como você mesmo disse, por personificar o elemento externo ao casal, que o abala).

Você disse que Caio foi a primeira opção para o Zeca. E por que a Maria Ribeiro para Julia?
Como disse, o Caio sugeriu fazer o filme com Maria, que é sua esposa, para trazerem para o filme essa vivência que eles partilham na vida real. Na verdade, eu nem sabia que eles eram casados. Eu conheço a Maria antes mesmo de conhecer o Caio, é uma atriz cuja carreira eu acompanho e admiro desde que ela era uma menina, e atuava em curtas de jovens cineastas. Aliás, ela mesma é uma cineasta, pois, além do documentário sobre o Domingos de Oliveira que ela fez, recentemente, Maria dirigiu um curta que eu adoro, chamado 25, muito bom, muito sensível. E ela é tão bonita, com aquela cor morena, brejeira, bem brasileira, portanto, a idéia do Caio acabou caindo como uma luva - mas independente deles serem marido e mulher, e do que isso possa agregar ao filme (ou ao imaginário do espectador, como disse antes), a Maria poderia, como o fez, interpretar muito bem a Julia, mesmo que não fosse esposa dele, na vida real.

É difícil definir o gênero do teu filme, ele tem um tempo de comédia, talvez encaminhe para a comédia romântica...
Eu tenho minhas duvidas se Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos é realmente uma comédia, e mais duvidas ainda se é comédia romântica. Ele é um filme muitas vezes engraçado, mas também tem seus fortes momentos dramáticos. Ele fala de relacionamentos, mas fala também de outras coisas. Talvez ele possa ser definido como "comédia dramática", que é uma forma como os americanos se referem a seus filmes que tem a capacidade de provocar risos e criar emoção, sensibilizar.

O fato de ter escrito tanto Pequeno dicionário amoroso e Amores possíveis, ambos da Sandra Werneck, e ter colaborado no filme da Rosane Svartman, Mais uma vez amor, os três classificados dentro dos cânones da comédia romântica, deve me dar uma aura de especialista no gênero que não tem nada a ver.

Até porque, como roteirista, escrevi também dramas históricos, como A Guerra de Canudos, do Sergio Rezende, dramas sociais como Quem matou pixote e Dois perdidos numa noite suja, ambos do Joffily, thrillers policiais noir como Achados e perdidos, também do Joffily, biografias (como Cazuza – O Tempo Não Pára e Mauá – O Imperador e o Rei) e comédia rasgada, como Casa da mãe joana, do Carvana. Se for levar em conta os trabalhos de roteirista que fiz recentemente, talvez devessem me chamar de "especialista em filmes infanto-juvenis", por que trabalhei nos roteiros de dois filmes teens: o Antes que o mundo acabe, da Ana Azevedo e o novo filme da Rosane Svartman. Desenrola.

De modo que eu não poderia indicar nenhum caminho para a comédia romântica que eu também não indicasse ou recomendasse para os demais filmes - não subestimarem a inteligência e a sensibilidade do espectador. Fala-se muito do caráter do público brasileiro, especula-se demais e tem até que ache ter uma fórmula para atingir esse espectador massivamente. Eu acho que a única fórmula aceitável é também a única regra permitida e possível nas artes: manter o interesse desse espectador sempre ligado.

Em que parte do processo o Caio virou também produtor?
A participação do Caio no projeto sempre foi entusiástica desde o momento em que ele leu o roteiro e ele nos ajudou muito para que conseguíssemos as condições para materializar o filme. E acredito que ele ajudará muito também, nas próximas fases do filme, no lançamento, na exibição. Ele não é só o protagonista do filme, ele é nosso primeiro e mais dedicado parceiro.

Quando seu filme estreia?
Já temos distribuidora e data pra lançamento. O Bruno Wayner da Downtown adorou o filme, que pra ele tem tudo pra se tornar o filme cult da nova geração, e vai distribuí-lo. O filme será lançado em março de 2010. Até lá a idéia é passar o filme em alguns festivais, no Brasil e fora.

Qual o custo total do filme? Você pegou edital?
O filme foi produzido com recursos do Programa Cultural da Petrobras e do fundo Ibermedia. Para a Ancine, que regulamenta a captação de recursos pelo cinema brasileiro, tanto eu como a empresa produtora da Helô somos "estreantes em longas" (apesar de eu ter dirigido um monte de curtas-metragens, todos premiados, escrito uma dezenas de roteiros de filmes importantes, e da Helô ter produzido mais de uma dúzia de longas-metragens nos últimos dez anos). Portanto, estivemos limitados a um teto de um milhão de reais, e é isso que o filme irá custar.

Somos aquilo que se denomina hoje no cinema brasileiro de filme BO, de baixo orçamento, filmes que custam até um milhão de reais, que é o valor do prêmio oferecido pelos editais do MinC. Só que os filmes premiados pelo MinC podem captar 400 mil reais a mais do que nós, mesmo sendo realizados por cineastas e produtores "estreantes" - o que é uma coisa que não dá pra entender direito, não parece muito isonômico. Mas seja como for, nosso filme não se ressente desse modesto orçamento, e haverá quem ache que o filme custou muito mais do que realmente custou. Modéstia à parte, acredito que tenhamos alcançado um primor técnico e artístico, independente de quanto isso tenha custado - graças a competência e dedicação da Helô e a entrega e parceria que contamos tanto do elenco (além dos já citados, estão no filme o Daniel Dantas, a Lucia Bronstein e contamos também com uma breve porém divertida participação do Hugo Carvana) quanto da nossa super equipe, formada por profissionais como o fotografo Nonato Estrela, a diretora de arte Renata Pinheiro, o musico André Morais, que está fazendo a trilha, em suma, um "dream team" do cinema brasileiro atual.