Paulo Nascimento e Beto Rodrigues

25/05/2009 17h40

Por Felippe Toloi

Diário de um Novo Mundo é o primeiro longa-metragem do diretor gaúcho Paulo Nascimento. Diretor da Accorde Filmes, ele deu seus primeiros passos comandando e escrevendo os curtas Dedos de Pianista, Chá das Cinco e O Chapéu. Em Portugal, foi responsável pela direção das algumas minisséries exibidas pela emissora de RTP, como A Hora do Louva-Deus, Escola Mágica e Segredo, esta última em parceria com Beto Rodrigues, diretor da Panda Filmes e um dos produtores de Diário de um Novo Mundo. Beto Rodrigues também esteve na execução de Lua de Outubro, Netto Perde Sua Alma - este premiado com quatro Kikitos no Festival de Cinema de Gramado de 2001 -, Concerto Campestre, entre outros. O Cineclick aproveitou a coletiva de lançamento da produção, protagonizada por Edson Celulari e Daniela Escobar, para bater um papo exclusivo com o diretor e o produtor. Confira:

Qual a expectativa de vocês para o Festival de Gramado? Já têm algum conhecimento dos filmes que estarão concorrendo com Diário de um Novo Mundo?
Beto - Na realidade, eu não vi ainda nenhum filme que está concorrendo. Pela trajetória dos diretores que estarão competindo lá, espero uma competição bem difícil. Afinal, tem o novo da Tizuka Yamazaki (Gaijin - Ama-Me Como Sou), o do Paulo Betti (Cafundó), o do Carlos Gerbase (Sal de Prata) e o do Beto Souza (O Cerro de Jarau). Não estou esperando nenhuma facilidade. Não é aquele tipo de festival que você entra já sabendo que vai ganhar um caminhão de prêmios só por que todo mundo exalta, pois é uma exceção. Segundo a comissão julgadora, a média qualitativa dos filmes está bem alta.

Você disse que Diário de Um Novo Mundo tem um orçamento modesto (R$ 4 milhões) comparado às produções internacionais, mas razoável visto em relação às produções nacionais. A intenção é atingir todas as camadas, lançar um filme o mais comercial possível?
Beto - Sim, porque acho que o filme tem vários ingredientes, tem uma história redonda, um roteiro bem fechado, ingredientes de aventura, de romance, uma trama de suspense, que prende o espectador. Ele não tem esse nicho tão rigorosamente predominado por tal faixa etária. Acredito que ele possa pegar desde adolescentes até a Terceira Idade, porque ele tem ingredientes de uma história universal.

Paulo, o Edson (Celulari) e a Daniela (Escobar) disseram durante a coletiva que foi tranqüilo atuar, porque bastou obedecer bem as suas ordens. No seu ponto de vista, qual foi a grande dificuldade de trabalhar numa produção como essa, de lidar com a situação de comandar cerca de 300 figurantes, etc?
Paulo - (risos) Realmente, o grupo que dá mais trabalho num filmes como esses são essas cenas que têm 200 figurantes. Isso é uma coisa mais que logística, de ter de operacionalizar isso. Quanto aos atores principais, foi muito tranqüilo, mesmo. Eu tive a sorte de pegar atores muito disciplinados, sem exceções, foi impressionante. Do Marcos Paulo aos protagonistas, eles têm essa coisa de se dedicar muito ao filme. Tiveram momentos que foram bem difíceis, claro, porque o Edson estava com a família no Rio e a gente precisando filmar no Uruguai, era preciso ir e voltar a toda hora. Mas foi excelente trabalhar com ele, justamente por esse profissionalismo.

O roteiro de Diário de um Novo Mundo entrou em um concurso para ver qual seria produzido e vocês ficaram contentes com o resultado. Qual o motivo?
Paulo - Esse projeto surgiu da seguinte maneira. O Beto me procurou com dois roteiros para entrar nesse concurso. Um contemporâneo, com uma história muito fácil de fazer, e este, que é bem mais complicado, por ser um filme de época. Quando este ganhou, pensamos como iríamos viabilizar isso. E logo começamos a planejar, porque uma coisa é você ler no papel, outra é você transformar um navio com açorianos vindo da Europa, fazendo isso parecer de verdade. Por um lado foi trabalhoso, mas por outro você exige um grau de planejamento e de profissionalismo que ajudou o projeto a acontecer dentro do que tinha de dinheiro para ser realizado.

Qual a relação de vocês com o Duca Leindecker? Por que a escolha dele para compor a trilha sonora?
Paulo - Porque a proposta que eu fiz ao Beto era de que, como o filme é assumidamente de época - se passa em 1750 -, tivesse também uma visão atual, sem ter um compromisso estético de época, tradicional. A idéia era essa, um filme que pudesse ter alguns elementos mais contemporâneos, e a trilha é um deles. O Duca é guitarrista, mas tem capacidade de fazer partituras para violoncelo. Um cara que tocou com Bob Dylan e é um dos melhores guitarristas do Brasil. Eu queria ter essa sonoridade de um guitarrista dentro de um filme de época como esse.

Paulo, você já está envolvido em um novo projeto, A Casa Verde, que é completamente diferente de Diário de Um Novo Mundo. Fale um pouco sobre ele.
Paulo - É um filme infantil, mas a idéia é que seja um filme infantil que fale para as crianças de hoje, porque acho que uma das grandes carências do Brasil é um filme dessa maneira. Hoje, temos Tainá, que é o mais próximo disso, apesar de ter um lado mais lúdico. O meu também terá um tema, que é sustentabilidade, reciclagem, meio ambiente. Mas a linguagem será mais cartoon, porque, tanto eu quanto o Beto, temos filhos de seis anos e convivemos muito com criança, conhecemos bem esse meio. Eu não o considero como educativo. É um filme de entretenimento, mas tem um tema legal pra ser abordado, é uma linguagem parecida com a de videoclipe, que é o que agrada às crianças de hoje.

Quais os filmes que mais lhe agradaram recentemente e os diretores que vocês admiram?
Beto - Gostei muito de O Cachorro, filme argentino que é um feito com não-atores, mas prova ter um bom roteiro, uma boa história, feito com pouca grana e boas idéias.
Paulo - Vi Mar Adentro, gostei muito da interpretação do Javier Bardem, é fantástica. Não concordo com algumas críticas e polêmicas feitas ao filme.
Beto - Tenho acompanhado basicamente o cinema brasileiro. A gente está chegando num estágio interessante, de ter uma produção que aposta na diversidade, uma diversidade temática. O Brasil ficou muito tempo concentrado em gêneros. Nos anos 80, as comédias de costumes cariocas, filme de violência policial e a pornochanchada, evidentemente, dominavam o cenário. Era difícil você fazer uma avaliação além desse cenário. E hoje a gente tem de tudo: a comédia de costumes, aquele pequeno filme de arte de investigação, tem o drama puro, o filme histórico, o filme de favela. O Rio Grande do Sul colocou esse ano dois excelentes documentários, Extremo Sul e O Cárcere e a Rua. E, recentemente, vi um filme, uma comédia, quase uma sitcom, mas com uma sensibilidade muito grande, que é o Bendito Fruto. Mostra que esse pequeno filme brasileiro, ancorado sobre situações da classe média brasileira, pode lucrar com bons resultados artísticos. E a questão de ganhar o publico é uma questão de tempo. A gente não vive só dos blockbusters, ancorados na mídia da Globo Filmes. A gente precisa produzir diferentes tipos de filmes. O Casa de Areia é o típico filme médio brasileiro, que não está lá na ponta do processo, mas também não é aquele pequeno filme de arte, que teve qualidade, uma platéia razoável, mais de 200 mil espectadores. Eu vejo com otimismo esse novo momento do cinema brasileiro e, dentro dele, o cinema feito no Rio Grande do Sul.

Por que você acredita que o Rio Grande do Sul tem sido o principal celeiro de revelações no País? Qual é essa diferença?
Beto - Porque o Rio Grande do Sul teve uma trajetória peculiar, um Estado que sempre esteve à margem do eixo Rio-São Paulo, teve de desenvolver relações e identidades com o Prata (antiga província cercada pelo Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai) e tem uma cultura que, de certa forma, faz um sincretismo com as referências portuguesas e espanholas. Então, ele já nasce dessa diversidade cultural e, historicamente, consegue fazer um núcleo de produção cultural fora da matriz. E não poderia ser diferente no cinema. Essa inquietação que existe na literatura, no teatro, também existe no cinema, que consegue manter uma forte identidade com o regional. Acho isso o diferencial do resto do Brasil e também uma relação forte com seu público, da maneira que é prestigiado. Lá, há uma base para que as pessoas, a partir do momento em que elas se iniciam num curta-metragem, possam chegar ao longa e ter uma carreira cinematográfica. Isso é mais diluído no centro do País. Lá não, tu se identifica. E, fora isso, há também uma movimentação política muito forte. Há um diálogo com o poder público, há coisa muito peculiar, é criada uma aliança de proteção em torno do cinema do Rio Grande do Sul. São fatores artísticos, culturais, logísticos e econômicos. Esse é um tema bom que valeria a pena se debruçar, fazer uma reportagem nacional para tentar entender por que é tão forte essa produção num Estado com 11 milhões de habitantes, isolado lá na ponta do Brasil.