Paulo Sacramento (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

Paulo Sacramento é um admirador do cinema de José Mojica Marins, o que fica evidente em todo o trabalho despendido para tornar real Encarnação do Demônio, projeto idealizado pelo cineasta há mais de 40 anos. Foi de Sacramento e do roteirista Dennison Ramalho a idéia de retomar o projeto, que chega agora aos cinemas. Amante do gênero - Sacramento usava uma camiseta de Psicose, clássico do terror, quando conversou com a imprensa sobre o filme -, ele assina a montagem e a produção do novo filme de Mojica. Ele conversou com o Cineclick sobre como foi tornar esse sonho do cineasta real.

Quando você e o Dennison (Ramalho, roteirista) procuraram o Mojica para fazer um filme, o que tinham em mente?
A gente sonhava em fazer Encarnação do Demônio, era um projeto mítico. Quando estava na faculdade, tinha a idéia de fazer um trabalho sobre os filmes brasileiros que nunca tinham sido realizados, alguns casos de projetos que ficaram mitológicos porque o diretor tentou fazer várias vezes e não conseguiu. Encarnação do Demônio era um deles. Sonhávamos com isso, mas como o Mojica assinaria um contrato conosco? A gente não era nada! Quando soubemos que poderíamos fazer o filme, em 2000, resolvemos que tínhamos de trabalhar direito. Começamos a trabalhar no filme logo em seguida, eu estava começando a fazer Amarelo Manga (produzido e montado por Sacramento). Isso sem contar o tempo de levantar o dinheiro. Foi cruel, ficamos acho que três anos sem conseguir nenhum recurso financeiro.

É evidente a admiração que vocês nutrem pelo Mojica. Como foi realizar o sonho de trabalhar com ele?
Foi muito tranqüilo. Acho que basta trabalhar com alguém para brigar com a pessoa. Inclusive, eu e o Dennison já quebramos o pau várias vezes, mas é incrível como o Mojica é doce. Ele é uma figura na tela, mas completamente diferente no dia-a-dia. Nunca o vi recusar uma entrevista, bater uma foto ou algo assim. Para trabalhar também, ele ouvia muito o que a gente tinha pra dizer e também ouvíamos o que ele tinha, é claro. Foi um trabalho de muita colaboração, uma troca mesmo. Não me lembro de alguma coisa na qual discordamos radicalmente, conversando nos entendíamos, o que foi fundamental, senão o filme nunca sairia.

O que você destacaria entre as coisas que você aprendeu de cinema trabalhando com o Mojica?
Puxa vida, foram tantas coisas... A gente pode aprender com o Mojica em vários níveis: o que ele pode transmitir para as pessoas é impossível, o carisma, é dele e qualquer coisa que ele for falar ou fazer desperta o interesse das pessoas automaticamente. O Mojica fala que a religião dele é o cinema e é verdade, ele vive pra aquilo. Volta e meia fico desanimado e encontrar com o Mojica dá vontade de batalhar pela coisa.

Quais foram as dificuldades de fazer um filme de terror no Brasil?
Primeiro é que não tem know-how, a gente provou que tem talento pra inventar tudo do nada. Por exemplo, quando fomos procurar alguém para compor a trilha, não havia ninguém que havia trabalhado com o gênero do terror. Também não havia ninguém que tinha feito longa-metragem de horror no Brasil, no máximo curta, mas é muito diferente o trabalho, principalmente na questão financeira e o tempo que a filmagem leva. Além de ficar bonito na tela, o efeito tem de ser eficaz e no prazo senão tudo vai pro ralo. Tivemos de começar do zero. A partir de agora, já existe um histórico de filme de terror, o que facilitará não somente na mão-de-obra, mas também na hora de levantar recursos.

Chegou a ser cogitada a contratação de mão-de-obra estrangeira?
Logo no começo, desconsideramos essa idéia. Sempre pensamos que queríamos mostrar o que podíamos fazer. Queríamos procurar as pessoas certas e acreditar nelas, o Mojica falava muito isso. Queríamos apostar nos valores brasileiros.

Como foi aliar essa técnica de fazer cinema tão peculiar, quase artesanal, do Mojica aos recursos disponíveis 40 anos depois?
Não éramos puristas, do tipo que rejeita qualquer tipo de recurso digital, não e um Dogma (movimento cinematográfico nascido na Dinamarca em 1995), mas a gente queria poder utilizar recursos artesanais sempre que possível, como a escolha do uso de animais e insetos de verdade ao invés de digitais, essas coisas a gente queria que fossem desta maneira. Outra coisas, sabíamos que poderiam ser feitas na pós-produção. Não tínhamos certeza que finalizaríamos da forma como fizemos, em digital 2K, e isso acabou dando uma tranqüilidade e um acabamento muito bom para o filme. Toda a cena do purgatório só saiu daquela maneira porque tivemos a possibilidade de mexer digitalmente nas cores; os recortes dos espectros em preto-e-branco só puderam ser feitos desta maneira. Foram coisas muito pontuais que não aparecem na tela como efeitos digitais, não queríamos isso. Jamais desenharíamos um monstro digital, por exemplo. Outras coisas trabalhamos na montagem mesmo, como acelerar planos.

Ou mesmo colocar cenas dos filmes anteriores...
O que não foi difícil, desde o começo estava previsto no roteiro. Claro que a gente nunca sabia exatamente como funcionaria. Como montador, achava que não deveria montar as cenas antigas, achava que deveria colocá-las inteiras. Só que isso faria com que o ritmo de Encarnação do Demônio estacionasse. Era muito estranho. Me despi do meu pudor, meti as mãos nos filmes do Mojica com o aval dele e montei esses trechos como pequenos trailers, dando a impressão de serem como trechos da própria memória do Zé do Caixão. Era esse o conceito, fazer como se fosse um fluxo de memória.

Qual é o principal desafio de fazer com que o cinema de terror feito no Brasil seja aceito pelo público?
Já estou tão satisfeito com o que já fizemos... O mercado é muito difícil e sou bem realista quanto a isso, mas acho que Encarnação do Demônio tem de ser uma das três melhores bilheterias do cinema brasileiro este ano e estamos trabalhando muito forte com a Fox pra entrar num circuito bom, mas sem ficar com a angustia da bolsa de valores, pensando em números. Só o fato dele existir desta maneira já é quase um milagre. Agora é hora de batalhar para conquistar o mercado, mas, de minha parte, já estou satisfeito, missão cumprida. Agora podemos partir para outros vôos.

O Mojica sempre fala que não tem influências de outros filmes em seu trabalho. Você diria o mesmo?
Puxa vida, sou completamente influenciável por tudo que vejo, meu perfil não é o de gênio, diferentemente do Mojica. É difícil definir qual é a influência. Quando eu tinha uma banda de rock-and-roll, queria dizer que era influenciado por Velvet Underground e Joy Division, mas acho que ninguém acreditava porque saia diferente! Tenho a impressão que é a mesma coisa no cinema. Sou influenciado por todos, pelas coisas que gosto e detesto também. Sou uma esponja.

Por que vocês escolheram o I Festival de Cinema de Paulínia como palco para exibir pela primeira vez o filme?
Paulínia me convenceu desde o principio pela proposta de fazer um festival voltado para o público, o que achamos interessante. Por isso, apostamos em Paulínia. Apesar da programação ter sido muito interessante, com nomes fortes, o perfil pode ser melhor definido para as próximas edições. Claro que era um festival que prometia muito, os olhos do cinema estavam voltados para a cidade e o Mojica pode fazer filmes no pólo de cinema construído lá, isso poderia abrir portas. Independente disso, não sabíamos que íamos ganhar o festival, queríamos fazer uma prova de público antes do lançamento e casava certinho a época. No começo, pensamos em passar como hors-concours; o Mojica tem 50 anos de cinema, por que concorrer com Selton Mello, que apresentou seu primeiro longa? Fomos amadurecer a idéia, o Mojica disse que não se sentia melhor do que ninguém e sinalizou que queria competir. Eu disse que poderíamos perder, o que seria ruim pra carreira do filme, mas topamos. No final, ficamos superfelizes com os sete prêmios, incluindo da crítica; prêmio de Melhor Filme, inédito pra uma produção do gênero de terror; e a quantidade de prêmios técnicos. Não fiz o filme pensando em festival, diferentemente dos outros; fizemos para o público.

Quais são os planos pro próximo filme?
O Dennison está trabalhando no roteiro de Devorador de Olhos, que deve ser o próximo filme do Mojica. Talvez seja este meu próximo trabalho ou outro... Também quero voltar a dirigir. Este ano minha missão é lançar Encarnação do Demônio, reposicionar o Mojica no lugar de onde ele nunca deveria ter saído.

Como será a carreira internacional do longa?
Estamos esperando a resposta de um festival grande (no dia seguinte à entrevista, a exibição de Encarnação do Demônio fora de competição foi confirmada pela organização do Festival de Veneza). A única coisa que falta pro Mojica é esse reconhecimento num grande festival internacional que não seja específico de terror.

Você disse que quer voltar a dirigir. Quais são os projetos?
São dois projetos. Um deles chama O Olho e a Faca e o outro chama Rio Corrente. Os dois são de ficção e não sei ainda qual sai antes. Os dois têm uma vertente experimental, mas cada vez mais quero me comunicar com o grande público, é possível entrar no mercado fazendo filmes mais provocadores e instigantes. Quem sabe em 2010?

Leia também entrevistas com José Mojica Marins e o ator Milhen Cortaz.