Philippe Barcinski (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

O nome de Philippe Barcinski não é incomum a quem acompanha a movimentação cinematográfica brasileira dos últimos anos. Apesar de estrear na direção de um longa-metragem em Não Por Acaso, tornou-se conhecido principalmente após o curta-metragem Palíndromo (2001), premiado no San Francisco International Film Festival, entre outros eventos. A Janela Aberta, de 2002, concorreu à Palma de Ouro de Melhor Curta-Metragem no prestigiado Festival de Cannes. No total, seus trabalhos em curta venceram mais de 40 prêmios. Como tantos outros cineastas de sua geração, Barcinski também trabalhou em filmes publicitários e produções para a TV. Ele conversou por e-mail com o Cineclick sobre sua estréia na direção de um longa, no qual trabalhou durante cinco anos. Confira o resultado:

Como surgiu a idéia do projeto?
A parte mais difícil e demorada foi o roteiro. Levou cinco anos. O roteiro começou com uma bolsa da extinta Fundação Vitae, a qual recebi para desenvolver um roteiro que equilibrasse o pensamento científico, lógico, cartesiano e as emoções. Essa dicotomia tem a ver com a minha formação. Cursei dois anos de física na PUC do Rio antes de me mudar para São Paulo e estudar cinema na USP.

A questão de tramas paralelas se cruzarem numa grande cidade por meio de um acidente automobilismo lembra muito filmes como 21 Gramas e Amores Brutos, do mexicano Alejandro González Iñárritu. O cinema dele é uma influência para você ou é só coincidência? Quais são os cineastas que te inspiram?
Curiosamente, o Guillermo Arriaga, roteirista destes filmes, acabou sendo um de meus consultores no laboratório de roteiro de Sundance. Mas a idéia inicial, em que as histórias se interligavam por um acidente de carro, já estava no papel em 2001 antes de eu assistir a Amores Brutos. É uma idéia natural quando se pensa em interligar duas histórias sobre perda em uma grande metrópoles, sendo que um dos personagens é um controlador de trânsito. Gosto muitíssimo destes filmes, marcos do cinema mundial, mas acho que as semelhanças param no acidente. Esses filmes são mais raivosos, nervosos e mais sujos visualmente. O tema de Amores Brutos é o ódio; o de Não Por Acaso é o amor.

O trânsito de São Paulo é um dos elementos-chave em Não Por Acaso. Você acredita que, por isso, o filme deve dialogar melhor com espectadores que convivem diariamente com o trânsito numa grande cidade? Isso não seria uma restrição ao público que a produção pode atingir?
Não acho que o tema atraia ou afaste o público das salas do cinema. Um filme sobre astronautas, por exemplo, não é visto apenas por cientistas e profissionais da Nasa. A escolha de uma profissão tão peculiar como controlador de trânsito e a tentativa de achar uma poética no trânsito são elementos que fazem do filme algo único, diferente, e, por isso, capaz de despertar amplo interesse, independente da realidade que o espectador vive no seu dia-a-dia.

Existe a pretensão de trabalhar o filme num mercado internacional, aproveitando a popularidade de Rodrigo Santoro?
A O2 Filmes investe bastante energia no mercado internacional, mas ainda não temos o termômetro de como ele funciona nesse mercado. Acredito que a presença do Rodrigo possa ajudar um pouco.

Você se destacou com premiados curtas-metragens. O que de mais significativo mudou em seu trabalho agora que você dirigiu um longa-metragem, além da metragem do resultado final?
Por muito tempo no processo de roteirização, tive a impressão que estava trabalhando em um curta de 90 minutos. A grande diferenciação se deu quando os personagens atingiram o grau de elaboração necessário. O interesse em um curta pode se dar pelo jogo de linguagem. Mas em um longa, o acesso ao filme necessariamente - a meu ver - se dá pelos personagens, pela identificação e projeção. O personagem é o "veículo" da "jornada" da história; ele que nos faz topar ficar 90 minutos em uma sala escura.

Já existem planos para um próximo longa?
Estou trabalhando em dois projetos. Sob Pressão é um roteiro que estou escrevendo com minha mulher, Fabiana Werneck Barcinski (co-roteirista de Não Por Acaso), que tem Rodrigo Santoro no elenco. O projeto recebeu um prêmio de desenvolvimento da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. O outro é Valsa Negra, adaptação do ótimo romance de Patrícia Mello que está sendo feita por Marcos Bernstein (de Central do Brasil).