Rachid Bouchareb (Foras-da-Lei)

28/12/2010 10h00

Por Heitor Augusto























Falar em Rachid Bouchareb é pensar num cinema que coloca dilemas familiares num contexto político macro, em personagens que refletem o cenário contemporâneo e na câmera que reconstrói momentos históricos para um país. Foras-da-Lei, sétimo longa-metragem de Bouchareb, que estreia neste sábado (1º de janeiro), não foge à regra e acompanha, por quatro décadas, a história de três irmãos argelinos que, expulsos de suas terras, emigram para a França. Com o passar do tempo, lutam pela libertação da Argélia.

“Minha motivação nesse filme foi trabalhar com o sentimento de injustiça, algo inteiramente universal”, afirmou o cineasta franco-argelino, por telefone, ao Cineclick.

Bouchareb, que já dirigiu London River – Destinos Cruzados e Dias de Glória, confessa também que não esperava a reação da direita francesa quando Foras-da-Lei foi à competição em Cannes. “Uma grande surpresa, para mim, certamente. Já se passaram 53 anos da Batalha de Argel e ainda acontecem reações assim”.

Nesta entrevista, Rachid Bouchareb explica a opção de contar quase sempre com os mesmos atores, sua visão sobre a independência da Argélia, a ascensão da direita e revela qual será seu novo projeto. A seguir:

Por que a terra sempre dá uma sensação de pertencimento aos personagens de seus filmes?
É parte da minha história pessoal. Nasci na França, mas sou de família de argelinos, conheço muitas histórias de pessoas que tiveram de emigrar. Não é algo que eu escreva deliberadamente, não fico pensando em falar disso, apenas surge, naturalmente. É minha história.

Isso, sim, se reflete nos filmes. Em Dias de Glória, os três personagens passam por uma jornada para a guerra. Com London River – Destinos Cruzados, Elizabeth deixa sua cidade para ir a Londres em busca da filha, assim como Ousmane. Em Foras-da-Lei os três argelinos são expulsos de suas terras... isso faz parte da história da minha família. Também gosto muito que aconteça um grande evento na vida dos meus personagens que provoca o deslocamento, mudança.

Qual sua motivação para fazer Foras-da-Lei?
Trabalhar com o sentimento de injustiça, algo inteiramente universal.

Quando você chegou a Cannes para mostrar Foras-da-Lei você imaginava as reações que o filme provocaria?
Uma grande surpresa, para mim, sem dúvida. Já se passaram 53 anos da Batalha de Argel [conflito envolvendo a metrópole francesa e os colonos argelinos] e 47 anos do filme do Godard, O Pequeno Soldado. A Guerra Civil Argelina acabou em 2002, mesmo ano que morreu o Massu [general que comandou as tropas francesas no massacre aos protestos argelinos]. Acho um absurdo os conservadores terem protestado e exigido que o filme não fosse exibido.

Se Foras-da-Lei fosse lançado há dez anos, você acha que seria recebido de forma diferente?
Sim, a atmosfera na França de hoje é hostil. Se fosse exibido há três, quatro anos [Nicolas Sarkozy assumiu em maio de 2007], talvez no mesmo momento de Dias de Glória, seria melhor.


Como foi o processo de pesquisa para o roteiro que abarca um largo período da história da Argélia e da França?
Há dez anos, eu e Oliviere Lorelle começamos a fazer uma pesquisa que desembocaria em Dias de Glória, que fala sobre os soldados africanos que lutaram pela França na Segunda Guerra Mundial, mas não obtiveram os mesmos direitos que os cidadãos franceses. No caminho, encontramos muitos veteranos que nos contaram a segunda parte da história, que é o que acontece no pós-guerra. É um momento muito importante, quando os argelinos vão para a Guerra da Indochina [1946-1954] e inicia-se um movimento de mudança no norte da África. Para a Argélia, ali é o início da revolução.

Tem algum período dos quase quarenta anos que seu filme abarca que você gostaria de ter incluído em Foras-da-Lei?
Questão complicada... acho o filme redondo, mas talvez gostaria de ter investido mais no período da Indochina. É um trecho fundamental, o momento em que a França foi derrotada, o que serviu de exemplos para outras colônias francesas.

Você que gosta tanto dos dramas históricos faria um filme apenas sobre a liberação da Indochina?
[pensa um pouco para responder] Agora, não sei... em 1945, muitos africanos voaram de Marselha para a Indochina, fato que atravessa meus personagens em Foras-da-Lei e Dias de Glória.

Os protagonistas de Foras-da-Leis são os mesmos atores de Dias de Glória e dois deles estão também em London River. Qual sua identificação com o trabalho de Jamel Debbouze, Roschdy Zem e Sami Bouajila?
Nós temos a mesma história, o mesmo background. Nossas famílias vêm da África, emigraram, dividimos nossa visão de mundo e histórica. Na verdade, não precisamos conversar muito sobre isso, a relação já está estabelecida. Quando os chamo para um projeto como Foras-da-Lei, não preciso explicar muito as justificativas históricas, acreditamos que o nosso cinema tem a missão de abrir as portas. Nosso papo é mais sobre cinema, a mise-en-scène, posições de câmera, etc.

Pretende fazer outros filmes com eles?
Claro! Na verdade, já estou começando a escrever. Acredito que seja a terceira parte de uma mesma história, contada tanto em Dias de Glória e Foras-da-Lei. Vou tratar da imigração entre 1965 até os anos 2000 e começo a filmar e mais ou menos três anos. Com isso, encerra-se um ciclo.