Ralph Fiennes

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

Ralph Fiennes dispensa muitas apresentações. Indicado ao Oscar em 1994 por A Lista de Schindler e em 1997 por O Paciente Inglês, é um dos cotados para ser indicado novamente ao mais importante prêmio de Hollywood por sua atuação em O Jardineiro Fiel. Dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, o ator inglês acompanhou o diretor em uma maratona para divulgar o drama. De fala pausada, bastante pensada, Fiennes é calmo. Com o perdão do clichê, um lorde inglês. Preparando-se para dirigir um filme - do qual, elegantemente, recusou-se a falar -, o ator participou de bate-papo com jornalistas de alguns veículos, incluindo o Cineclick, durante o Festival do Rio 2005. Confira:

O que você conhece de filmes brasileiros?
Não muito, na verdade. Já assisti a Central do Brasil e Cidade de Deus, que são ótimos filmes, mas sei que preciso de uma educação nesse sentido.

Você e Fernando já conversaram sobre cinema brasileiro?
Não. Conversamos, basicamente, sobre o trabalho que estávamos fazendo juntos.

Como foi ser dirigido por Fernando Meirelles?
Um grande prazer porque Fernando é muito relaxado no set, tem um humor gentil e, principalmente, é capaz de deixar o ator totalmente à vontade para errar e experimentar. Nunca me senti reprimido por ele.

Quando Justin recebe a notícia que Tessa foi assassinada, você pensou em alguma memória sua?
Nessa cena, as relações de Justin são instintivas. Acredito que o espectador seja capaz de ver algumas emoções que ele sempre escondeu. Sandy também compartilha dessa notícia de forma estranha, não há tanta emoção porque ela vem depois, ao longo do filme, quando Justin investiga os fatos. Inclusive, gosto disso no roteiro de O Jardineiro Fiel, das possibilidades que o filme dá ao espectador. Por exemplo, para algumas pessoas, pode parecer, em alguns momentos, que Justin matou Terra. Essa cena foi muito difícil de ser feita, pois a tentação era interpretar de forma exagerada, mas foi como estar nu emocionalmente. Tentei atingir uma neutralidade emocional. Mas isso depende. Às vezes, as emoções dos personagens não caminham do jeito que suas próprias emoções são conduzidas durante as filmagens. Nesse caso, é preciso apelar para lembranças emocionais. Outras vezes, pode ser uma música... No fim das contas, tudo está relacionado à imaginação.

O Jardineiro Fiel mais do que um thriller político, é uma história de amor. O que você pensa sobre isso?
Esse foi um dos motivos que me fizeram aceitar o trabalho, esse romance me emociona. O filme é sobre um homem descobrindo sua mulher, o que me emociona. Justin é louco por ela e reafirma seu amor ao longo do filme. Na trama política, as questões levantadas, como o acesso que as indústrias farmacêuticas têm ás drogas, ou os testes que fazem em humanos, dão energia à história.

Como você pensou em retratar a intimidade do casal?
Acho que uma das coisas mais difíceis que um ator pode fazer é reproduzir um relacionamento entre um casal. É fácil fazer cenas nas quais os dois personagens estão nus, por exemplo, mas as cenas do dia-a-dia são mais difíceis, não por serem dramáticas, mas porque precisamos fazer com que o espectador acredite que há um relacionamento comum ali, que há tensão, desentendimentos. Os diálogos eram plausíveis, mas não eram mágicos. Por isso, todos tivemos um instinto para encontrar um equilíbrio nos pequenos momentos. Por exemplo, na cena na qual os dois conversam sobre o nome do bebê, sinto que aconteceu uma intimidade comum a casais entre nós dois. De qualquer forma, ambos nos apaixonamos por nossos personagens. Nós tivemos uma conexão.

Como você se envolveu com O Jardineiro Fiel?
Fiquei sabendo do filme na época em que Mike Newell estava comprometido a dirigir. Uma de minhas irmãs (Martha Fiennes, que dirigiu Fiennes no ainda inédito Chromophobia) comentou comigo sobre esse roteiro, que era uma adaptação do livro de Le Carré, e pensou que eu seria perfeito para o papel principal. Enquanto eu pensei que ela estivesse interessada em dirigir. O mais interessante é que minha agente também me ligou dizendo que eu era perfeito para o papel. No entanto, nessa altura, o roteiro ainda não estava pronto, nem havia o dinheiro necessário para a produção. Mesmo assim, tratei de ler o livro. Foi quando me apaixonei por Justin e em sua relação com Tessa. Quando o roteiro ficou pronto, ele chegou às minhas mãos, mas Mike Newell saiu do projeto para dirigir Harry Potter e o Cálice de Fogo. Foi quando aconteceu um momento de incertezas, durante dois ou três meses. O produtor do filme me perguntou sobre o que eu achava de Fernando Meirelles. Eu já havia visto Cidade de Deus, e adorado. Sempre pensamos que queríamos um diretor imprevisível, inglês ou não. A prioridade na escolha era essa. Cidade de Deus tem tanta energia que, apesar de Fernando não saber o que é ser inglês - ou qualquer coisa que isso signifique -, ele tem essa energia cinemática necessária, especialmente pensando que as adaptações cinematográficas de romances escritos por Le Carré anteriormente não foram muito boas. Fiquei muito empolgado com a idéia. Na verdade, não conseguia acreditar que era realmente verdadeira a possibilidade de trabalhar com ele. Quando nos encontramos, tivemos uma tarde muito divertida. Le Carré e Meirelles foram a Londres, foi quando os conhecemos. O encontro entre mim e Fernando foi tímido no começo, em ambos os lados, mas foi esse o primeiro sinal de que havia algo excitante a caminho. O que só foi aumentando.