Raul Cortez (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Roberto Guerra

Raul Cortez é um dos mais consagrados nomes do cinema, televisão e teatro brasileiro. Com 29 filmes no currículo, o ator paulistano estreou no cinema em 1957 no filme O Pão que o Diabo Amassou. Em 1968, ganhou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante no Festival de Brasília por sua atuação em Capitu, de Paulo César Saraceni. Agora, Cortez volta às telas no filme O Outro Lado da Rua, em que divide a cena pela primeira vez com sua amiga Fernanda Montenegro. O ator bateu um papo com nossa reportagem e falou da carreira e do trabalho no filme de Marcos Bernstein.

Depois de tanto tempo na estrada, como avalia sua carreira hoje?
Fisicamente o tempo é cruel... (risos) É um pouco estranho porque você vê tudo um pouco misturado, toda a sua história de vida. E tem também uma coisa estranha, um sentimento esquisito por ter vivido tanto. É incrível isso. Mas, ao mesmo tempo, bate uma ansiedade de pensar que há tanta coisa ainda para fazer. Então, tudo isso vem à minha cabeça quando olho para trás. Vejo também uma coisa muito interessante: como ator, sempre existiu uma constante na maneira de eu trabalhar apesar de, ao mesmo tempo, reconhecer uma melhoria da matéria bruta, que é o talento.

Você é muito autocrítico?
Muito. Eu sou virginiano, faz parte. Mas, independente disso, acho que o artista sempre procura fazer o melhor. Eu, durante toda minha carreira, quis sempre ser mais que um ator. Eu queria ser um artista. E depois desse tempo todo eu continuo achando isso e perseguindo isso. Ser artista é também ter uma postura de vida, uma certa falta de omissão perante as coisas. Você é um cidadão que tem de reconhecer o talento que te foi dado e saber que isso não te coloca melhor que ninguém.

Você é um ator reconhecido, reverenciado, que não precisa provar mais nada a ninguém. Já pensou em se aposentar?
Eu acho que isso depende um pouco do país em que você vive. Nós vivemos num país que não tem memória, então, tenho que continuar a provar o tempo todo que sou bem-sucedido em minha carreira. Financeiramente também é um desastre, então, você não tem condições de se acomodar. É impossível isso acontecer. Eu tenho que continuar trabalhando também por isso. E é inerente, no momento que você encontra sua vocação, que você continue a querer melhorar, como pessoa também e não só como ator.

Com toda sua experiência, fazer um papel como o Camargo de O Outro Lado da Rua ainda te deixa inseguro?
Sempre existe a insegurança, aquela dúvida se você vai acertar ou não. Existe um limite de erros e acertos, faz parte. Esse nervosismo quando você sobe num palco, ou pouco antes de você rodar uma cena, ou quando você está na televisão gravando, não é só a adrenalina que corre, mas por que ela corre. E o motivo é que você vai entrar num universo que não é seu. Isso dá uma sensação absolutamente fantástica, quase infantil de recomeçar a brincar.

A química entre você e a Fernanda Montenegro no filme é perfeita. Parece até que vocês já fizeram outros muito filmes juntos.
Isso não foi procurado ou deliberado, aconteceu naturalmente. Eu acho que esta química decorre do prazer de estar atuando, pelo menos da minha parte. É legal saborear a companhia de uma parceira como Fernanda, com o talento dela. Isto acrescenta muito ao prazer de estar atuando, de entrar no universo que não é o seu. E é legal ter uma companheira que te favorece isso, te dá um passaporte para chegar lá. Este equilíbrio aconteceu e acontecerá sempre que eu estiver trabalhando com ela, porque existe respeito, admiração, um carinho muito grande um pelo o outro. É engraçado, mas a Fernanda me desperta um desejo de tomar conta dela... Como se ela precisasse disso! (risos).