Renê Belmonte e Julio Uchôa (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

O roteirista Renê Belmonte é mais conhecido por seus trabalhos em longas-metragens de comédia. Ele estreou nesta função no cinema em Sexo, Amor e Traição (2004), que fez sucesso de público, assim como Se Eu Fosse Você. Ele foi convidado pelo produtor Julio Uchôa para trabalhar no roteiro de Show de Bola, originalmente escrito por Nikolai Müllerschön, um alemão que mora nos EUA. Os dois conversaram com o Cineclick sobre como foi tornar brasileira uma história nascida na mente de alemães. Confira:

Que tipo de trabalho você teve ao receber este roteiro em inglês?
Renê Belmonte
: Quando o Julio me chamou me enganou, disse que ia ser "bico", que só precisaria adaptar os diálogos, que chegariam meio duros. Ou seja, eu precisaria tornar os diálogos mais orgânicos. Quando vi o roteiro, notei que era um pouco mais complicado do que isso. Vimos que a história estava irreal, foi escrita por um alemão que mora em Los Angeles, então ele tinha uma outra visão.
Julio Uchôa: Provavelmente, ele nunca havia nem vindo ao Brasil, provavelmente ele nem pesquisou sobre o Rio de Janeiro.
Renê Belmonte: Parecia mais uma história sobre gangues de Los Angeles do que sobre o morro. Os personagens não estavam funcionando direito, faltava um entendimento sobre como funcionam as estruturas sociais no Rio de Janeiro e no morro em si. Comecei a fazer uma série de sugestões, sempre conversando com os produtores e o diretor, dando soluções para mexer rápido no roteiro, já que tínhamos duas semanas até o começo das filmagens. Ou seja, tinha de fazer o trabalho rápido, mexendo o mínimo possível em termos de estrutura, de situações porque já havia começado a produção.
Julio Uchôa: Isso tudo bilíngüe. Ele escrevia em português, as tradutoras traduziam e mandávamos pro gringo, ele lia; voltava pras tradutoras e depois pro Rene.
Renê Belmonte: Eu conversava com os caras em inglês e escrevia em português. Teve uma hora que comecei a conversar com os caras em português e escrever em inglês! Mas eles foram bastante abertos, deu pra trabalhar bem.
Julio Uchôa: O Alexander acreditou muito no texto que vinha e na diretora assistente, a Erika, ela rebatia os textos com os atores até parecer natural. O roteiro foi sendo escrito enquanto ainda estávamos filmando, então tinha esse trabalho de parecer natural na boca dos atores. Tentamos deixar a visão internacional do cara, fizemos o filme para ele. O Alexander é um cara orgulhoso que queria frisar esse ponto de vista.

Julio, como você chegou neste filme?
Julio Uchôa
: O alemão veio me visitar no Rio de Janeiro numa quarta-feira e o Maracanã ia fechar para reformas no domingo seguinte. Fizemos uma reunião, filmamos a cena no estádio e a partir daí desenvolvemos todo o leque do longa. Depois de Show de Bola, já fechamos dois filmes co-produzidos entre Brasil e Alemanha, filmados aqui e lá. Agora também quero filmar lá, então é boa essa brincadeira. É um filme de mercado, foi feito com recursos diretos para funcionar pro mercado alemão. Tivemos somente o apoio na logística da Ancine. O desempenho na Alemanha foi de médio para bom, o que é positivo por ser tão restrito para aquele mercado. Foi dublado em alemão nos cinemas lá.
Renê Belmonte: Vi um pedacinho dublado na internet e é muito engraçado.

Como foi produzir um filme de um diretor alemão?
Julio Uchôa
: Diretor é uma pessoa muito desejosa com quem você resolveu dividir seu desejo. Mas foi ótimo, ele é calmo, escuta, apostou num formato de equipe que fizesse o filme acontecer. Trouxemos pessoas recém-formadas e trabalhadores do morro mesmo para fazer assistência de arte, por exemplo. Ele topou ingressar no formato para poder filmar. O Alexander escutou muito o Renê, deixou a gente mexer. Ele foi honesto e teve o desejo de ouvir, o que não tira sua visão.
Renê Belmonte: Só uma coisa que o Alex me pediu, a seqüência do sonho, precisei encontrar um lugar no roteiro onde ele entraria direitinho.
Julio Uchôa: Ele queria filmar no Sambódromo, aquele lugar enorme que custa. O filme foi construído com apoio para várias locações, como o próprio Sambódromo, a Mangueira... Foi tudo barato na estrutura de construção da produção. Foi um prazer enorme. Teve um envolvimento engraçada de toda a equipe.

O Alexander me parece ser uma pessoa fascinada pelo candomblé, presente no filme no personagem do cego e no próprio sonho que ele fez questão de ter...
Julio Uchôa
: Sim. Tinha até uma cena na qual ele queria um macumbeiro matando uma cabra. Fui contra, não filmo cabras sendo mortas. Meu diretor de arte até provou que poderia fazer a cena usando um animal de mentira, só que o pai de santo que o diretor alemão arrumou era um ex-presidiário de Bangu... Não ia dar certo. Proibi que as filmagens acontecessem. Foi o único embate. A gente tenta caminhar do jeito que pode praquela falsidade parecer verdadeira.

Renê, seu currículo é mais marcado por filmes de comédia. Como foi essa guinada pro trabalho de drama?
Renê Belmonte: Eu achava que era uma comédia.

Sério?
Renê Belmonte
: Não, não, estou brincando! Achei uma delícia a idéia de fazer algo diferente. De uns anos para cá, estou com menos vontade de fazer comédia porque, mesmo em drama, há muito espaço pro humor fluir, estou gostando mais de fazer uma coisa dessas. Além do fato de não ser um filme de comédia, que estou acostumado a fazer, também me atraiu a trama focar em violência, futebol, o morro... Várias realidades diferentes da minha. Então, foi um desafio bem bacana. Essa chance de fazer algo diferente, explorar ferramentas com as quais não estou habituado, me deu um gás extra que veio do mesmo lugar de onde tiro a energia para fazer comédias. Tinha uma vontade de descobrir coisas novas.

E foram somente duas semanas para desenvolver o roteiro. Você fez alguma espécie de pesquisa para ambientar a história?
Renê Belmonte
: Moro no Rio, então estou exposto a tudo isso diariamente. Convivo com pessoas que vêm de comunidade. Tem uma parte que é imaginação, sempre tem esse espaço, mas não sei dizer exatamente de onde veio, mas a gente sempre tem um tipo de referencial cultural e estético de onde se tira um pouco das informações. Foi uma mistura disso tudo.
Julio Uchôa: É normal que a sociedade discuta essa relação que a gente vive e que se faça muitos filmes sobre isso, com muitas visões. Estamos digerindo essa brincadeira.

O que vocês acham do tom pessimista da história?
Renê Belmonte
: O Julio comentou comigo sobre essa visão.
Julio Uchôa: A morte no Maracanã ocorre de tamanha maneira que você não tem mais vontade de ir lá!
Renê Belmonte: Suavizamos bastante essa visão.
Julio Uchôa: Tivemos esse cuidado sim. Mas, por exemplo, se você for ver os últimos filmes feitos em Nova York, você também nunca mais vai querer ir lá. Chicago ficou famoso no mundo todo por causa do Al Capone e ninguém deixou de ir pra lá por causa disso. É mentira negar que existem as realidades; enquanto for um produto comercial, é bom debater o assunto. É melhor do que negar. Cheguei à conclusão que deveria sim deixar o gringo fazer o filme dele, mas teve um dia que fiquei em crise. Aliás, ele até amenizou a leitura, ele era mais duro.

Seria melhor suavizar a imagem pensando na visão estrangeira em relação ao filme?
Julio Uchôa
: Não, era mais para funcionar mesmo, o filme tinha de ter gancho, ele tinha de estar bem plantado. Mostramos a realidade, como se comportaria um chefe de traficantes no morro hoje em dia, como é um moleque de rua.

Quais foram as situações do roteiro original que vocês acabaram tirando para que se tornasse verossímil?
Renê Belmonte: Uma delas foi relacionada à composição dos bandidos, eles usavam Armani, dirigiam Ferrari e escutavam U2 ou Madonna no IPod. Tinha umas coisas assim. Não me lembro mais como estava o roteiro original...
Julio Uchôa: Tinha umas coisas tipo: "O Cristo Redentor olhando para o Pacífico".
Renê Belmonte: Muitas coisas da relação entre o Tiago e o Sabiá, era bem diferente. Uma das coisas que mudamos foi que o Tubarão mandaria o Tiago matar um cara como rito de iniciação, para que ele fosse ajudado no futebol e isso não fazia o menor sentido na minha cabeça. Essas foram as bases das mudanças e, mudando isso, muita coisa mais para frente também foi ficando diferente.

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