Ridley Scott

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

O consagrado cineasta britânico Ridley Scott é conhecido por filmes como Alien, O Oitavo Passageiro, Hannibal e Cruzada. Scott já foi indicado três vezes ao Oscar de Melhor Diretor por Thelma e Louise, em 1992, Falcão Negro em Perigo, em 2002, e Gladiador, filme vencedor de cinco Oscars, incluindo Melhor Filme, em 2001. Ridley Scott divulgou seu novo filme, O Gângster, em coletiva de imprensa realizada na cidade norte-americana de Nova York e o Cineclick estava lá.

Você diria que o estilo deste filme era inédito em sua carreira?
Eu tento fazer de cada um o primeiro para mim. Se você pensar desta maneira, sempre vale a pena. Fui muito influenciado por fotógrafos, especialmente quando eu vinha para Nova York nos anos 60. Existia na época um fotografo chamado William Klein, que tirava belas fotos em preto-e-branco. Ele também fez um documentário muito bom chamado Ali the Greatest, sobre o lutador de boxe Mohamed Ali. Na época, ele devia estar muito próximo do lutador, pois tirava fotos e filmava o boxeador no vestiário. O William Klein era um homem branco e tinha um ótimo relacionamento com Mohamed Ali, coisa que deve ter sido muito difícil na época. Costumava ver muito este documentário e foi um grande guia para eu fazer este filme.

Quanto este filme se aproxima da história real? Você mudou algum detalhe na hora de adaptá-la ao cinema?
A única coisa que mudei no filme, e isso era muito necessário, foi o tempo dos eventos. Caso contrário, teria um filme linear e extremamente longo. O importante como diretor de cinema é não perder o tempo do filme e a linha de raciocínio. Mais ou menos como na hora da luta do Mohamed Ali. O pessoal do estúdio me perguntava detalhes sobre os lutadores que iriam representar o papel de Ali e eu dizia que não precisavam se preocupar com isso, pois não haveria luta, além de não ter nada a ver com o filme. A cena acaba quando o Richie Roberts vê o Frank Lucas no melhor assento do local, apertando a mão do Mohamed Ali, no momento em que uma foto é tirada. A próxima cena já é realizada na câmara escura, revelando a foto. Ou seja, a luta é irrelevante para o filme.

Por isso você escolheu os vietnamitas sendo apresentados pelos telejornais, ao final, quando eles interagem com os caixões?
Exatamente. Isso dá credibilidade ao trabalho, além de estabelecer uma linha do tempo da história. Cria uma espécie de paralelo entre a Guerra do Vietnã e o império que Frank Lucas construía na época. Portanto, quando o conflito bélico começa a demonstrar sinais de que estava acabando, Frank Lucas se apavora, pois toda a sua maior fonte de renda vai desaparecer. Desta forma, ele tem de arranjar uma nova maneira de transportar a mercadoria. Nesse momento, o fazendeiro plantador de papoula diz pra ele: "Desistir enquanto você esta ganhando não é a mesma coisa que desistir". E Frank Lucas responde: "Eu voltarei".

Você conheceu o Frank Lucas pessoalmente?
Todos os malditos dias e o durante o dia inteiro ele participou do set de filmagens.

Richie Roberts também estava no set de filmagens?
O Richie não, pois ele estava muito ocupado trabalhando.

Richie Roberts é advogado agora? Quantos anos ele tem?
Sim, ele é advogado e está com 69 anos.

Frank Lucas somente observava ou participava das filmagens?
Ele não só participava como também amava. Estava lá todo dia com a família e esposa. Pra falar a verdade, sua esposa acabou voltando pra ele, assim como no filme. Ela havia partido enquanto Lucas estava na prisão e, recentemente, eles voltaram a ficar juntos.

Por que ele participava tanto?
Pois ele adorava o processo de filmagens, ver tudo acontecendo e, de certa maneira, voltando a ver o mundo que conhecia. Para você ter uma idéia, quando eu tinha cinco câmeras rodando e, obviamente cinco monitores, ele tinha seu próprio conjunto de headphones e acompanhava tudo nos mínimos detalhes.

Como Frank Lucas sobrevive hoje em dia? Ele trabalha?
Ele vive de assistência pública, em uma cadeira de rodas. Seu sobrinho e filho o ajudam para tudo.

Você já trabalhou com o Russell Crowe em outros filmes. Esse é o terceiro trabalho que vocês fazem juntos. Como ele mudou em cada trabalho?
Eu acho que em cada filme você aprende a entender melhor o ator. Por exemplo, em Gladiador eu não o conhecia, então ele era um pouco inesperado. Você acaba tendo preconceitos, especialmente quando Crowe estava frustrado, ou seja, fazer aquele filme foi muito difícil.

Como foi difícil?
O resultado aparenta que existe total sinergia, mas na verdade foi bem caótico. Pra ser sincero, no fim não fiquei muito contente e surpreso com a forma como tudo se juntou. É um processo lento e trabalhoso e você nunca sabe exatamente como vai ficar no final. Fiquei um pouco chocado ao ver o Gladiador sendo o sucesso que foi, pois não esperava.

Russell Crowe evoluiu como ator?
Todo mundo evolui, assim como eu evoluí como diretor.

Você tem ainda dois projetos para serem lançados?
Exatamente. Recentemente, acabei o primeiro com o Leonardo DiCaprio (Body of Lies), as filmagens foram feitas no Marrocos.

Você aparenta alternar entre grandes projetos históricos e alguns projetos menores.
É verdade, eu adoro fazer coisas diferentes. O meu próximo grande projeto é Robin Hood.

Esse será com Russell Crowe também?
Exatamente. Este será um grande desafio

Mas por que fazer Robin Hood novamente?
Na verdade, foram filmadas 85 versões diferentes de Robin Hood. Contudo nenhuma muito boa. As versões clássicas são boazinhas, mas nunca foi feita corretamente. E eu a farei bem feita.

Vai ser um estilo de Gladiador, mas em Nottingham (nome do projeto e local onde a história de Robin Hood se passa)?
Na verdade não. Esse é um conceito equivocado e será bem diferente.

Você acredita ser possível para você ver e analisar o seu filme como um espectador normal e não como o diretor que realizou o filme?
Sim, sem a menor sombra de dúvida.

Qual é o seu filme preferido?
Difícil escolher. Eu não tenho um favorito. É como ter de escolher entre um dos seus filhos.

Você se arrepende de algum?
Não me arrependo de nada do que fiz e estou falando inclusive dos meus primeiros filmes, que foram bastante exóticos. Produções como Alien, o Oitavo Passageiro, Blade Runner - O Caçador de Andróides e A Lenda são bastante exóticos. De todos esses, somente Alien foi um líder de bilheteria, mas achei todos muito bons.

Você ficou feliz por exibir, no último Festival de Veneza, uma nova serão de Blade Runner - O Caçador de Andróides?
Fiquei muito feliz, pois pude mostrar exatamente o filme que quis lançar há 25 anos. O interessante foi descobrir que o formato digital não dura tanto como photocam. Ou seja, os discos estão se apagando. O digital não segura por mais de 15 anos. Mas não sei muito a respeito, pois não sou um técnico.

Você não é técnico? Você é a essência de técnico em termos de filmes.
Para você ver, eu nem consigo ligar um computador! Sou uma pessoa que usa lápis e bloco de papel.

Você mencionou que não tem fimes favoritos. Quando uma produção dirigda por você não é líder de bilheteria, ofende?
De certa maneira sim. É como se aqueles idiotas não tivessem entendido nada do que eu quis dizer. Mas eu não levo muito a sério os altos e baixos que os filmes sofrem entre o publico e críticos.

Você acha que a sua maneira de dirigir foi alterada com o advento da revolução tecnológica?
Sem dúvida a velocidade da edição é espetacular.

Mas isso prejudica o teu senso de montagem?
Pelo contrário, me dá muito mais liberdade. Quanto mais sofisticado o sistema, mais liberdade tenho para brincar com o filme.

Você decidiu alterar o nome de O Gângster?
Na verdade, era para ser chamado True Blue (Verdadeiro Azul) ou Magic Blue (Azul Mágico), mas achei bastante suave, lembrando o título de um musical. O nome O Gângster me pareceu mais apropriado e definitivo. Definitivo é a palavra para descrever essas duas figuras deste período. Olho para os dois personagens no pôster e me pergunto: "Quem é o gângster?".