Roberto Carlos Ramos

06/08/2009 15h47

Por Angélica Bito

Nascido em 1965 na Pedreira do Padre Lopes, favela no centro de Belo Horizonte (MG), Roberto Carlos Ramos tinha seis anos foi levado pela mãe para a Febem. Aos 13 anos, depois de 132 fugas e vivências de rua que incluíam furtos e drogas, ainda era analfabeto e considerado um “caso irrecuperável”. O encontro com a pedagoga francesa Margherit Duvas mudou para sempre a história do menino que adorava contar histórias.

Hoje, Ramos é educador na capital mineira, autor de livros e reconhecido como um dos melhores contadores de histórias do mundo. Em O Contador de Histórias, ele narra (literalmente) tudo que o levou a superar a questão social para se tornar o que é hoje em dia. Misturando fantasia e a dura realidade de um menino de rua, o longa dirigido por Luiz Villaça (Cristina Quer Casar), ao mesmo tempo em que toca nessa questão tão recorrente no cinema nacional, é capaz de tomar um fôlego nesse sentido pela abordagem, bem semelhante à de Ramos quando conta sua história.

Conversar com o educador é como ouvir uma de suas histórias. Ele gesticula, relembra trechos de sua trajetória e, principalmente, mostra que não tem problema nenhum ao falar sobre seu passado como menino de rua.

Você se viu na tela assistindo a O Contador de Histórias?
O [Luiz] Villaça teve um cuidado muito grande de, iniciado o processo do filme, colher muitos depoimentos da minha história. Foi um processo longo me gravar varias vezes. Aliás, a história que mais conto é a da minha vida. As pessoas sempre perguntam. Quando o Villaça entrou em contato comigo a primeira vez, tinha medo. Há duas maneiras de contar uma história: chorando ou vendendo lenços e eu já havia percebido que não tinha de ficar contando minha história de menino de rua que sofreu senão as pessoas acham que vou pedir esmola (risos)! Via que elas ficavam inibidas, envergonhadas. Com o passar dos anos, fui aprimorando a forma de contar minha história e as partes mais trágicas contava com humor, rindo. O Villaça conseguiu captar essa coisa. Quando o filme parece entrar numa parte mais triste, ele dá uma guinada e, graças a Deus, o Villaça teve a sensibilidade de perceber isso. Não conheço a linguagem do cinema, não é minha praia, então estava curioso em saber como ele transformaria minhas palavras em filme. E ele conseguiu manter a essência, as passagens mais importantes. Me vi inteiramente na tela. Ainda me emociono com as coisas. Sempre contei histórias querendo que as pessoas vissem como numa fotografia o que eu estava falando. Quando, calado, via as coisas acontecendo na tela me dava um arrepio!

Quais são as partes do filme que mais te emocionam?
Olha, não tem uma vez que eu assista e não chore naquela parte da passagem do menino de sete ao de 13 anos, a primeira fuga. Com a música e a narração, vem aquela coisa que conto em doses homeopáticas, afogamento, torturas, espancamentos, sacanagem dos colegas, comida precária... Quando vi a primeira vez, fiquei impressionado. Ao mesmo tempo, é a parte mais bonita. Nunca soube responder por que fugia tanto, mas buscava minha vida, minha liberdade. Com o filme, entendi que fugia porque viver lá era uma porcaria mesmo.

Como foi ver a Margherit na tela, uma personagem da qual você tem poucas lembranças e dados mais factuais?
Estava numa fase de transição quando convivi com a Margherit: estava abrindo mão da ideia de ter uma família, ao mesmo tempo em que não era aceito pela Febem e as pessoas fugiam de mim nas ruas. De repente, descobri que tinha de ser agressivo. A coisa mais terrível é você parar na janela de um carro, pedir algo e a pessoa fingir que não te vê. Comecei a tocar nas pessoas e elas tinham asco de mim. Percebendo que não me davam mais nada, tinha de tomar as coisas delas e isso provocava uma raiva cada vez maior, mas achava que era uma rotina normal. Acordava com vontade de comer pão com salame, por exemplo, e pensava que precisava roubar uma correntinha de ouro pra isso. A Margherit me ensinou que para sobreviver tinha de ser frágil, o que colocava em xeque meu tipo de vida. Era um caos danado. Ao mesmo tempo, o Villaça conseguiu dar a dimensão de quem foi a Margherit: ela era uma fortaleza doce, um rochedo de açúcar. Sabia que podia confiar naquela mulher. Se ela me mandasse pular do décimo andar e dissesse que eu voaria, era capaz de eu acreditar. A Maria de Medeiros conseguiu isso. Outra coisa que percebi no filme é o caos que deveria estar se passando na cabeça da Margherit. O pessoal (roteiristas) mostrou que ela foi intuitiva e ela realmente era. Tudo era dúvida para ela e, por mais que ela tentava aplicar comigo o que ela tinha aprendido nas universidades da vida, nada dava certo! Então, ela era intuitiva o tempo todo e foi a intuição que nos salvou.

Você ainda tem contato com a sua “turma” da época?
Tenho contato com dois deles, um é o Samuel. O livro A Arte de Construir Cidadão – A Verdadeira História do Contador de Histórias é dedicado a ele porque é o único colega remanescente daquela época com o qual ainda tenho contato quase diário. Outros sumiram ou foram mortos. Uma coisa interessante é que éramos alegres, não era essa marginalidade que você vê hoje, de meter medo na rua, a gente roubava rindo. As pessoas interpretam essa coisa de hoje, da sobrevivência, de uma forma pesada, mas na nossa época não era assim. Não prejudicávamos ninguém ao ponto de matar, agredir, era mais saudável. Só conhecíamos a maconha e a cola de sapateiro.

Uma vez, eu e o Samuel à porta do colégio Pitágoras, em Belo Horizonte, e roubamos a mochila de um menino. Comemos só o lanche que tinha lá dentro e jogamos fora o resto. No dia seguinte, o menino apareceu de novo com uma mochila igualzinha e o Samuel roubou de novo. Ele disse: “O pai desse menino deve ser dono de uma fábrica de mochilas, todos os dias podemos roubar e ele vai ganhar novas!” Olha a teoria dele! Era isso que a gente pensava, aquele era nosso mundo.

Você acha que contará menos vezes sua história agora que existe um filme?
Tem coisas que não foram citadas no filme, geralmente demoro duas horas pra conseguir sintetizar tudo. As empresas ainda me chamam como palestrante para contá-la e consigo trabalhá-la de uma maneira a motivar as pessoas. Acredito que o filme fará com que eu trabalhe um pouco mais ainda, ele desperta a curiosidade das pessoas.

Uma das melhores cenas é quando você descreve o assalto que teria te levado à Febem. Você tem algo adicional em relação a isso?
Na verdade, a cena foi criada pelo Villaça. Para impressionar as tias, as orientadoras, a gente inventava coisas. Elas perguntavam se já havia estuprado alguém, por exemplo, e eu sabia que elas queriam ouvir um “sim”. Daí eu falava: “sim, estuprei uma velha de 89 anos e matei ela”. Daí, ela anotava tudo! Era uma bravata que elas queriam. Não sabia ler, mas sabia que os meninos gostavam de histórias com sangue, atropelamento... Então, eu pegava um livro, dizia que tinha aprendido a ler com dois meses e inventava histórias tendo como base as fotografias das capas. A turma adorava! E as tias idiotas acreditavam!

Você tem contato com familiares da Margherit?
Não, ela já estava em fim de carreira... Mas sei que ela está sempre do meu lado!

Também conversamos com o diretor Luiz Villaça.