Roberto Gervitz (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

Desde 1988, Roberto Gervitz não assinava a direção de um longa-metragem. Nesse ano, seu filme Adeus Ano Velho - adaptação do romance homônimo escrito por Marcelo Rubens Paiva - foi sucesso de público e crítica, mas, por conta da crise que tomou conta da produção cinematográfica brasileira nos anos 90, Gervitz seguiu trabalhando em vídeos publicitários. Mas é para a área cinematográfica que ele volta, mais de uma década depois, com Jogo Subterrâneo. Baseado no conto Manuscrito Achado Num Bolso, do escritor argentino Julio Cortázar, o filme é mais do que sua volta ao cinema: é, também, a abordagem de uma série de questões que acompanham não somente o diretor, mas qualquer ser humano, ao longo da vida, como a busca do ser amado. Sobre esse trabalho, Gervitz conversou com o Cineclick.

Como foi o desenvolvimento do filme desde o momento que você teve a idéia até agora?
A primeira vez que pensei na possibilidade de fazer este filme foi em 1988. Quando eu estava lançando Feliz Ano Velho, que teve grande sucesso de público e crítica, fui procurado por um empresário interessado em saber se eu tinha mais idéias de longas. No momento eu estava tão esgotado - mais ou menos como estou agora - que não me veio nenhuma outra, somente essa. Eu disse que tinha a idéia de filmar uma história de amor de um homem que cria um jogo para encontrar a mulher da vida dele no metrô. Oito anos antes eu tinha lido toda a obra do Cortázar e esse conto ficou guardado no fundo do meu subconsciente e, quando me perguntaram, ele veio à tona. No fundo, fui escolhido pela história.
Essa pessoa gostou da minha idéia, mas, em 1989, veio toda aquela crise no cinema brasileiro. Em 1990 nasceu minha filha e fui trabalhar em publicidade, quando desenvolvi o projeto Gente Que Faz, que eu adorava fazer. Passei esse longo período em que o cinema brasileiro estava muito frágil ainda trabalhando para manter minha vida, mas sempre com a vontade muito grande de voltar a fazer cinema. Mais ou menos em 1998, resolvi voltar a fazer cinema. Nessa mesma época, aquele empresário me ligou novamente para falar sobre o projeto, que já havia mudado muito desde então porque eu mesmo mudei muito nesse tempo. Mas o conto, o que me motivou a fazer o filme, continuava lá: a solidão do personagem, aquela busca meio desenganada. Ele se arma uma armadilha e tem a incapacidade de lidar com o real. No fundo é uma história de amor, mas o que está em discussão é a idealização do real. Essa incapacidade de lidar com a realidade é um fenômeno muito contemporâneo. Tudo é muito virtual. O jogo é enganoso: ao mesmo tempo em que parece ser romântico por ser pela busca da mulher da vida do personagem, é mórbido, nega a vida. No filme esse personagem é atropelado pela vida, encarnada nas diferentes mulheres que ele encontra.

Toda forma de viver de forma metódica, como faz o personagem do filme, é uma forma de fugir da realidade?
Acho que não. Não é a coisa de viver de forma metódica, mas sim de armar um método para buscar algo que não tem fórmula. Para você operar o corpo de uma pessoa é preciso ter método, mas para amar, escolher a mulher da sua vida, não. Para o encontro não existe método, o encontro é imponderável, assim como muitas outras coisas em nossa vida. A gente tem a ilusão de controlar nossa vida, mas isso não existe. O filme trabalha esse conflito entre a tentativa de levar sua vida para algum lugar e o caos que ela é. Esse embate sempre me interessou, me fascinou e amedrontou.

Você acha, então, que o que nos conduz é o destino?
Não acredito no determinismo do destino, acredito no contrário, que não existe um destino, ele é a resultante do embate do nosso desejo com as circunstâncias. Então, o Martín quis controlar algo e foi atropelado. Essa é a felicidade dele, ele aprendeu que não é possível viver desse jeito. Viver se protegendo do que possa acontecer é a própria negação da vida, é mórbido. De alguma maneira eu acho que meu filme tem essa coragem de se colocar numa situação e ver o que pode sair dali. A coragem do filme é vital, não de super-herói, é uma coragem de viver. O Martin pode ser um cara estranho, mas, no fundo, ele tem algo que está dentro de todo mundo.

Em Jogo Subterrâneo, a música parece sempre pontuar os momentos mais passionais de Martín que, em outros momentos, parece ser frio. Qual é sua relação com a música?
O Martín não é uma pessoa fria, muito pelo contrário, ele é muito passional, mas tem dificuldade de viver essa emoção, que transparece especialmente na relação dele com a menina e também com a música, o piano. Ele tem tantas emoções que fica com dificuldade de aceitar. Ele é intenso, mas é calado, contido. Com relação à música, é um dos canais de expressão dele, tanto que é a ponte que ele faz com a menina e com a Ana também. Para mim a música tem uma dimensão muito importante, eu ia ser músico, estudei violão por 15 anos. Além disso, acho que o discurso cinematográfico é musical por excelência, o ritmo de um filme é musical.

Como aconteceu a escolha do elenco?
Cheguei no Felipe por meio de testes. Quando eu ainda estava escrevendo o roteiro, uma amiga minha me sugeriu o nome dele. Ele é um grande ator e estava esquecido. Quando vi o teste do Felipe descobri que ele era perfeito para o papel. Ele não é um galãzinho de carinha lisa, é um homem de rosto forte. Só de olhar você já sente que ele já viveu, tem vida no rosto dele. Como meu personagem não tem história, queria que o rosto do meu ator evocasse um passado. Tem de ter marcas, o rosto de uma pessoa que tem um passado. Fora isso, ele é um ator de grande disciplina, entrega, e esse trabalho é muito difícil. É um personagem que fala pouco e as emoções, apesar de serem intensas, são contidas, e esse é o desafio.

E a Maria Luisa Mendonça, você também escolheu depois de testes?
Sim. Eu tinha indicado a Maria Luisa para outro papel, mas ela leu o roteiro e pediu o papel da Ana de qualquer jeito. Eu não havia pensado nela para esse papel, mas ela fez o teste e foi tiro e queda. Mas ela é uma ótima atriz, a maior da geração dela.

A Thávyne Ferrari também é ótima, não é?
Ela é maravilhosa, foi escolhida entre 100 crianças. Dessas sobraram quatro. Já tinha escolhido a Thávyne entre elas, mas as levei para uma pessoa que confio muito, que trabalha com crianças autistas - ela tem uma filha autista, inclusive. Minha amiga, entre as quatro, foi direto na Thávyne. Isso sem contar que ela é de uma concentração ótima para trabalhar. Sou fã dela, adoro as cenas dela com o Felipe, são muito lindas.

Seus dois longas de ficção são adaptações literárias. A literatura é sua maior fonte de inspiração?
Acaba sendo, mas não necessariamente. Em Jogo Subterrâneo peguei do conto somente a idéia do jogo e criei personagens em cima disso. Se eu tivesse visto uma notícia no jornal falando sobre um homem que anda no metrô fazendo um jogo a fim de achar a mulher de sua vida também chamaria minha atenção. Na verdade não sei se iria me inspirar porque o conto do Cortázar me pegou emocionalmente quando li.
A literatura é uma fonte muito importante para o cinema no mundo inteiro, mas é uma faca de dois gumes. Você sempre corre o risco de fazer um cinema literário e fugi disso como o diabo foge da cruz. Por exemplo, nos primeiros 20 minutos do meu filme há pouquíssimos diálogos. Não tive nenhuma reverência ao Cortázar na adaptação do filme porque não queria sucumbir a isso. Queria uma obra cinematográfica. Quero ter idéias originais, mas não tenho nada contra também. O livro é o ponto de partida e você trabalha aquilo cinematograficamente. Isso sem contar que se trata de um desafio a mais para o cineasta. Quando ele reproduz o universo do livro no cinema, ele precisa objetivar todo aquilo universo, podendo decepcionar o leitor, já que cada um imagina o livro de forma diferente quando vê. Satisfazê-las é uma faca de dois gumes. Deve-se partir do princípio de que o filme é outra coisa.

Filmar no metrô deve ter sido difícil, especialmente por conta dos ruídos dos vagões. Conte mais sobre essas dificuldades técnicas que vocês tiveram.
Mais ou menos 35% do filme se passa no metrô. Para trabalhar lá a gente se preparou como se estivesse indo para uma guerra. Fiz storyboards, plano a plano, de todas as cenas - inclusive, acontecerá uma exposição com os desenhos e as fotos dos bastidores na Estação República. Eles são tão organizados e eficientes, assim como nossa equipe, que não foi muito difícil. Para mim foi muito mais difícil dar vida e alma aos personagens, o principal desafio para mim era esse. A parte do metrô é cinematograficamente chamativa - tem uma montagem caprichada, ruídos e ritmos -, mas a alma do filme estava nos personagens e esse era o principal desafio. O metrô chega a ser mais um personagem, na verdade, mas o discurso de Jogo Subterrâneo é emocional.