Roberto Moreira (Exclusivo)

01/10/2009 14h22

Por Angélica Bito

O primeiro longa-metragem dirigido por Roberto Moreira foi Contra Todos, de 2004. O diretor estreou no cinema num filme intenso, violento, pesado, calcado nas misérias humanas e ambientado na periferia de São Paulo. Cinco anos depois e alguns trabalhos na TV depois – como as séries Cidade dos Homens e Antônia -, Moreira volta à direção de longas em Quanto Dura o Amor?, um filme mais delicado, mas de emoções também intensas. Confira a conversa que tivemos com o diretor em São Paulo, onde também ambienta seu mais recente trabalho em cinema:

Como você encara essa mudança brutal de estilos de Contra Todos até Quando Dura o Amor??
Foram cinco anos de diferença entre um filme e outro. Nesse período, fiz seriados de televisão, passou muito tempo e isso acabou acarretando a diferença. Queria fazer um filme que falasse de uma jovem de classe média que passa por uma desilusão. É um filme de formação, uma pessoa que cresce. Brinco que é um filme de classe média para a classe média. Contra Todos falava da desigualdade social e tinha uma relação tensa com o público.

Contra Todos conseguiu se aproximar do público que vem da periferia, como seus personagens?
Onde ele foi exibido, as pessoas entenderam. Fiz questão que ele fosse exibido no cinema do shopping Aricanduva [na Zona Leste de São Paulo] e ninguém foi! Esse negócio do cinema popular brasileiro é difícil. Mesmo que eles gostem, nem sabem que podem gostar. Por um lado, foi legal, adoro Contra Todos, mas tinha uma certa especificidade. Neste filme, queria o contrário, que o espectador de classe média entrasse no filme, tive vontade de filmar personagens mais cativantes. Como não abro mão da improvisação, conversei com o Marcelo Trotta [diretor de fotografia] e ele me disse que não dava para ter as duas coisas, ele precisaria de um tempo para iluminar as cenas, o que ia contra a coisa da improvisação. Então, passei a trabalhar mais com planos-sequência: ele iluminava o plano, eu improvisava a cena entre os takes não podíamos ter paradas. Isso me levou a um estilo com menos cortes, o que foi legal porque me obrigou a não trabalhar tanto com aquele estilo de montagem com cortes rápidos, com o qual já estava acostumado. Fui obrigado a incorporar o plano-sequência como recurso de linguagem e é uma coisa difícil. Na ilha de montagem, não há muito como mexer.

Trabalhando muito na improvisação, você precisava então de um elenco afinado, bem escolhido e ensaiado. Como foi esse processo?
Foram sete meses de casting [processo de testes para escolha dos atores] com 450 atores, o teatro paulista todo passou por nós e, depois, a preparação foi feita pelo Sergio Penna. As cenas de boate foram todas ensaiadas em A Loca, durante as festas. Durante as filmagens, me libertei completamente dos diálogos do roteiro, o que deu espontaneidade, o que acho importante.

A ideia surgiu como uma possível continuação de Contra Todos. Como o projeto se encaminhou a este filme que temos agora?
No final de Contra Todos, a Soninha não tem uma conclusão definida. O que você faz depois que tem seu pai morto nos braços? Não faz nada. Tentamos várias histórias, teve um roteiro muito bom no qual o Nuno [vivido por Paulo Vilhena] era traficante e a Soninha acabava presa. Mas tivemos também a experiência de Antônia nesse meio-tempo e percebemos que o personagem acabar na prisão é muito barra pesada. Não queria um filme baixo astral. Pensamos: porque usar sempre esse recurso cinematográfico do policial? A trama policial tem reviravolta, todos os truques do cinema, mas quantas pessoas você conhece que já foram presas? Eu não conheço ninguém! Se estou falando do meu universo, tenho de falar de menos elementos espetaculares. Chamei a Ana [Muylaert, corroteirista], expliquei esse problema para ela e começamos a construir essas várias histórias.

No final acabou virando um multiplot [roteiro com várias tramas paralelas] e é muito complicado trabalhar com esse tipo de texto porque você tem de prender o espectador. Como vocês trabalharam isso?
Na ilha de edição. A Mirella [Martinelli, montadora do longa] leu o roteiro e durante as filmagens me ligou para dizer que o roteiro era incrível. Realmente, o roteiro da Ana é muito bom, mas na hora da montagem a gente descobre um monte de problemas porque, no fundo, a arquitetura do multiplot é muito complicada. Tinha cenas muito engraçadas e não dava para colocar cenas assim ao lado das dramáticas porque o espectador não consegue entrar no drama e não ri. Na comédia, é uma gag atrás da outra e em dado momento você nem sabe do que ou por que está rindo. A mesma coisa ocorre com o drama: você entra naquilo e quando vê está chorando. Meu sonho era conseguir misturar os gêneros. Na ilha a gente percebeu que era um projeto que não estava lá de verdade. Cortamos cenas maravilhosas, do Ailton [Graça], da Maria Alice Vergueiro... Tivemos de cortar. No final, o Jay ficava com a caixa da livraria, mas daí eu criei todo um clima com o Tchecov, a solidão da Suzana e da Marina... Acho que conseguimos chegar lá no resultado final, o filme mistura a comédia e o drama, mas não é algo como Contra Todos, nem uma comédia exagerada. Daí, você consegue rir um pouco, depois se emocionar... Até a gente engatar esses climas, sem um prejudicar o outro e o espectador fluir, demorou sete meses.

Existe uma visão muito carinhosa de São Paulo no filme. Como ocorreu a escolha das locações?
Sempre quis um prédio desses gigantescos de São Paulo. Feitos nos anos 50, eles são a utopia que não deu certo no Brasil.

Mais ou menos como Brasília...
É! E os personagens vivem dessas utopias que passaram. Temos o Copan, mas é uma marca registrada demais; ia virar um filme do Copan. No começo, queria que fosse bem no centro de São Paulo, mas, chegando no edifício Anchieta, percebi que tem tudo a ver a história se passar num prédio na esquina da Consolação com a Paulista.

Mesmo porque lá é muito mais classe média do que um prédio no centrão de São Paulo...
Sim, embora o Copan já tenha virado classe média de novo, mas no começo pensávamos em ambientar num cortiço vertical.

Como o prédio da rua Paim...
Isso, mas vimos que não era por aí. Os personagens não cabem. E no final foi perfeito. Os personagens transitam por aquela região, o Mini Club [onde foram filmadas as cenas da casa noturna] é no começo da Consolação, as pessoas vão ver filmes no Belas Artes. Vivi muito a noite de São Paulo nos anos 80 e 90, a classe artística vive a noite e queria representar esse mundo, um mundo brilhante, mas que também tem seus perigos. Essa é a ideia.

Foi complicado filmar lá naquele edifício completamente habitado?
Os moradores foram maravilhosos. A equipe também soube se comportar, não fez barulho... Só tinha o problema do morador poder abrir a porta de casa pela manhã e dar de cara com 40 pessoas no hall! Mas foram muito legais com a gente.

A Maria Clara Spinelli contribuiu muito para o roteiro em sua personagem, um dos grandes destaques do filme. Como foi isso?
A gente tinha uma ideia muito ingênua, desinformada sobre a personagem dela. A Maria Clara trouxe realidade e a personagem cresceu. Acredito muito que o ator tem de ser o criador do personagem com o diretor, o roteirista, mas tem de ter responsabilidade pelo personagem dele. A Danni Carlos também arrasou, ela é uma cantora, mas ela seguia todas as minhas marcações. Eu não estava trabalhando como uma cantora que estava quebrando o galho como atriz, sabe? Foi muito legal.

Leia também entrevista com as atrizes Maria Clara Spinelli e Sílvia Lourenço.