Rodrigo Aragão: conversamos com o novo mestre do terror brasileiro

Feitos com poucos recursos financeiros, seus filmes chamam a atenção pela qualidade técnica dos efeitos visuais e bom humor

30/10/2013 00h08

Por Roberto Guerra, enviado especial a Vitória

Rodrigo Aragão

Rodrigo Aragão: Com pouca grana ser criativo é uma necessidade

Foto: Cláudio Postay

Ele é o único cineasta brasileiro que faz filmes de terror e está prestes a ver o primeiro deles entrar em circuito comercial no país. Rodrigo Aragão pode ainda ser desconhecido do grande público brasileiro, mas sua trilogia de horror feita sem incentivos fiscais, com pouca verba e atores desconhecidos já percorreu festivais em várias partes do mundo e foi vendida para países como EUA, Holanda, Bélgica, Alemanha e Japão. Seu último filme, Mar Negro, abriu o 20º Festival de Vitória nesta segunda (28) e tem estreia confirmada para dezembro no Brasil. Fã do gênero desde moleque e perito em efeitos visuais, Aragão conversou com a reportagem do Cineclick sobre o jogo de cintura e criatividade que dá vida a suas sanguinolentas e divertidas produções.

Você conseguiu a proeza de fazer três filmes de terror sem contar com as leis de incentivo. De onde surgiu essa paixão pelo gênero que o motiva a seguir em frente?
Meu pai era dono de cinema e mágico, então minha casa sempre foi muito estranha (risos). Eu sou daquela geração que nasceu junto com Guerra nas Estrelas, que foi um filme que marcou muito minha vida. Eu era empolgado com aquilo tudo e comecei a fazer maquiagem ainda criança, para assustar os outros. Com o tempo descobri que o terror é ainda mais divertido que a ficção porque você pode ter mais sangue, gosma pra caramba, pode extrapolar. Em meu próximo filme vou seguir o caminho dos editais para tentar conseguir mais dinheiro, fazer uma produção maior e também poder pagar melhor minha equipe; eles merecem.

Mar Negro foi rodado ao custo de R$ 200 mil e Mangue Negro com apenas R$ 50 mil. Como conseguir qualidade em efeitos visuais e maquiagem com tão pouca grana?
Você tem se adaptar à sua realidade. Mangue Negro eu comecei a fazer em 2004 sem grana nenhuma, estava falido. Fazia os efeitos sozinhos no fundo do quintal de casa. Levava quarenta dias para fazer um boneco para filmar 10 segundos. Eu tinha esse carinho até porque não tinha nada mais o que fazer. Minha sorte é que tinha uma equipe que não entendia direito o que estava fazendo ali, mas confiava em mim. Foram três anos de trabalho artesanal. Foi essencial trabalhar com amigos, porque efeito especial é um negócio desagradável. O cara passa cinco horas para ser maquiado, dez horas filmando e duas tirando a maquiagem. Uma pessoa só se submete a isso se houver muito dinheiro envolvido ou se estiver apaixonado pelo projeto. E não havia dinheiro, então trabalhar com amigos foi essencial.

Mar Negro

Mar Negro: terror com tempero brasileiro

Foto: Divulgação

Produtos para maquiagem de cinema e efeitos são todos importados e caros. Imagino que gambiarras sejam inevitáveis.
Quase tudo que faço é desse modo. Meus animatrônicos são feitos com mecanismo de freio de bicicleta. Em Mar Negro, por exemplo, nós temos a baleia zumbi. A base dela é uma estrutura de resina, mas a parte externa é toda feita com sacolas de supermercado, para criar maciez. Por cima vai uma gosma feita com água e polvilho doce, que dá o tom viscoso. Todo mundo elogia a textura da baleia, que parece silicone, mas é sacola de supermercado mesmo. Com pouca grana ser criativo é uma necessidade.

Mar Negro é carregado de referências. Quem são seus ídolos no gênero?
Eu sou muito saudoso dos anos 80. Acho que a época foi o ápice dos efeitos visuais manuais, que são os que me interessam. Meus heróis são Peter Jackson, Sam Raimi, George Lucas, Spielberg - que também começou fazendo terror -, John Landis. Um Lobisomem Americano em Londres foi um dos filmes que me fizeram ter interesse pela maquiagem de cinema. Esses caras são meus grandes heróis. São referências que uso para fazer meu terror com tempero brasileiro. É legal entrar no cinema é ver o povo brasileiro tendo problemas diferentes, como lutar contra monstros por exemplo.