Rodrigo Santoro (300)

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

A carreira de Rodrigo Santoro é uma das que mais evoluíram entre os atores de sua geração. De rostinho bonito da novela nos anos 90, hoje ele é um dos representantes brasileiros mais "quentes" internacionalmente no momento. Como a maioria dos atores brasileiros, Santoro começou na TV, mas passou a mais ganhar destaque ao interpretar Neto no drama Bicho de Sete Cabeças, trabalho que lhe rendeu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Brasília de 2000. Desde então, trabalhou com alguns dos principais diretores que atuam no cinema brasileiro, como Hector Babenco (Carandiru), Walter Salles (Abril Despedaçado) e Daniel Filho (A Dona da História).

Depois de firmar sua carreira em solos brasileiros, Santoro partiu para os trabalhos internacionais. Em 2003, esteve ao lado da ganhadora do Oscar Helen Mirren e Anne Bancroft no filme feito para a TV The Roman Spring of Mrs. Stone. Mais tarde, participou de As Panteras - Detonando e foi o objeto de desejo de Laura Linney na comédia romântica Simplesmente Amor. Santoro venceu o Troféu Chopard como Revelação Masculina no Festival de Cinema de Cannes em 2004. O ator também está no elenco de Lost, um dos maiores fenômenos da TV mundial dos últimos tempos.

Tanto sucesso culmina em sua importante participação na superprodução 300, na qual interpreta o imperador persa que ameaça invadir as terras gregas em 480 a.C.. Ele esteve em sua terra natal para promover o filme junto à imprensa latino-americana e o Cineclick bateu um papo, ao lado de alguns jornalistas, com o ator que não é mais uma promessa, mas sim um sucesso legitimado. Confira:

Como você se envolveu com o projeto do filme?
Foi graças a um produtor italiano, o Gianni Nunnari, que vem muito para o Brasil. Então já o conhecia anteriormente e foi ele que levantou a possibilidade de fazer um teste. Estava fazendo a segunda fase de Hoje é Dia de Maria (série da TV brasileira) quando recebi um telefonema dele procurando um ator para interpretar Xerxes. Vi a foto do personagem na graphic novel e fiquei até com medo (risos). Achei interessantíssimo também o fato de ser baseado numa história em quadrinhos tão sofisticada. Ele disse que eu deveria encontrá-lo na próxima semana, mas era impossível, pois estava no meio do processo da minissérie. Quando vi a descrição de Xerxes, "um gigante de três metros com voz de trovão", percebi que aquele não era o momento. Tinha acabado de perder 11 quilos, estava um "graveto" e daquele jeito não dava para fazer um gigante. Desanimei na hora. Mais tarde, ele me ligou novamente e propôs que eu fizesse um vídeo interpretando uma das cenas da graphic novel e já vi dificuldade para me caracterizar como Xerxes e convencer 20 executivos da Warner Bros. que poderia interpretá-lo. Nunnari enfatizou que não tinha nada a perder, o que ficou na minha cabeça. O Vavá Torres, maquiador da Globo, percebeu que eu tava com um "besouro na minha orelha" o dia todo e perguntou qual era o problema. Acabei comentando que era um personagem careca. Na hora ele tirou uma touca de látex e a aplicou na minha cabeça, deu uma maquiada e tal. Saí do Projac (onde acontecem as gravações da Rede Globo) todo escondido, entrei no meu carro e fiz o vídeo.

Sozinho mesmo?
Não, tive ajuda do Andrucha (Waddington, cineasta), na casa dele mesmo. Eles curtiram o tape, mas disseram que eu tinha de melhorar a figura de "graveto". Como as cenas do personagem só seriam filmadas no final, tinha quatro meses pra me preparar e resolvi correr atrás do prejuízo. Saí de uma fase de emagrecimento para construir um gigante e para isso tive ajuda do Robertinho Rodrigues, que teve uma influência muito importante. Os espartanos são viris e fortes, mas meu personagem tem uma forma mais longilinea, um gigante andrógeno, e todo o meu treino foi focado na construção das formas longilineas mais do que musculosas. Foi um treino intenso não somente de preparação física, mas também vocal. O Zach (Snyder, diretor) pediu que minha voz atingisse o máximo do grave para ele poder trabalhar digitalmente, mesmo porque ela deveria soas sobrenatural, até porque é uma figura mitológica. Não precisava ser extremamente realista, estamos falando de uma história em quadrinhos e de um personagem realmente bizarro, exótico.

Enxerguei este personagem como um arquétipo, uma representação do ego e como ele tem essa qualidade de deus, funcionava mais ainda como uma espécie de entidade. Ao mesmo tempo, tinha de levar humanidade ao personagem; há uma grande parcela de qualidades não-humanas, mas também tinha de construir aspectos humanos por meio de sua insegurança e fragilidade. O que eu tinha de fazer como ator era tentar incorporá-lo e dar uma dimensão cinematográfica a ele.

Você já conhecia a graphic novel?
Já tinha dado uma olhada na época do Sin City, um amigo meu que mostrou, e sempre ouvi falar sobre Frank Miller, sempre soube que ele era um artista único. Mas foi todo um processo, passava por cinco horas de maquiagem, tirei todos os pêlos do corpo inteiro e as jóias eram aplicadas uma de cada vez, era um processo muito longo e usava aquele tempo para construir a realidade paralela na qual ele vivia. Ele também deveria ter essa energia onipresente, uma presença forte, então a construção requer também uma produção de energia.

Foi bem trabalhoso e aprendi muito durante o processo. O fundo azul dá uma liberdade. É uma forma virtual de trabalhar, não existe nada à sua volta, mas é uma liberdade que você só encontra na infância. Uma coisa é a gente racionalizar as coisas; outra é imaginar com uma fé tão grande que é capaz de construir todos os detalhes. O que você precisa é de uma energia bem maior; Xerxes comandava um exército de milhares de homens e o que eu via era uma parede azul!

Nós tínhamos a história em quadrinhos, que funcionava como nossa base, mas não havia mais nada além disso como referência e é um desconforto trabalhar dessa forma. A própria coisa de eu ter de fazer meu texto imaginando; eu ensaiava com um ator, mas fazia sozinho como naquela cena na qual ele encontra Leônidas pela primeira vez. Foi um trabalho solitário no qual tive de encontrar uma unidade.

Como é ser reconhecido internacionalmente dessa forma?
Muito bom. Na pré-estréia de Londres o que tinha de brasileiro era impressionante, fiquei comovido.

Não seria o momento de fazer mais alguns filmes blockbusters?
Não conseguiria fazer uma opção por gênero, não posso ir contra o que acredito senão não darei 100% do que poderia, estaria comprometido com outras coisas. Não é porque quero ser cult, mas tem a ver com o potencial que quero colocar pra fora, preciso estar conectado com ele. Não serei feliz se resolver seguir alguma estratégia. Não quero não ter o que falar sobre minhas experiências após um filme, mesmo que ele seja um sucesso de bilheteria.

Quando você pretende voltar a fazer filmes brasileiros?
Não sei. Há projetos, mas nada certo.

O que você acha dessas comparações políticas relacionadas ao filme?
É adaptação de uma história em quadrinhos. Não são coisas que passaram pela minha cabeça mesmo porque o filme é tão focado na HQ, ficamos sempre imergidos nela, então jamais houve qualquer intenção de ofender alguém ou de colocar essas metáforas. Posso dizer isso até pelo Zach pela forma como ele conduziu o filme, somente dentro da HQ. É uma experiência muito diferente assistir ao filme sem conhecer Os 300 de Esparta; o retorno que tivemos dos fãs era emocionante. Realmente, 300 está nas telas e muita gente não conhece a história original. Então, analisar politicamente é outra história.

Com qual diretor internacional você gostaria de atuar?
Ah, não sei... O tal do Guillermo Del Toro tem me apetecido muito. Vi o último filme dele, O Labirinto do Fauno, e fiquei encantado. Desde Hellboy gosto dele. Mas por acaso foi o último filme que vi no cinema, então o nome dele é o primeiro que me vem à frente. Mas mesmo aqui dentro há várias pessoas com as quais gostaria de trabalhar, muitas delas desconhecidas do público, mas tem muita gente jovem talentosa. Hoje em dia as pessoas se sentem mais estimuladas a fazer cinema.