Rodrigo Santoro (Cinturão Vermelho)

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

A carreira de Rodrigo Santoro - que começou em 1993, há 15 anos - é uma das que mais evoluíram entre os atores de sua geração. De rostinho bonito da novela nos anos 90, hoje ele é um dos representantes brasileiros mais "quentes" internacionalmente no momento. Como a maioria dos atores brasileiros, Santoro começou na TV, mas passou a mais ganhar destaque ao interpretar Neto no drama Bicho de Sete Cabeças, trabalho que lhe rendeu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Brasília de 2000. Desde então, trabalhou com alguns dos principais diretores que atuam no cinema brasileiro, como Hector Babenco (Carandiru), Walter Salles (Abril Despedaçado) e Daniel Filho (A Dona da História).

Depois de firmar sua carreira em solos brasileiros, Santoro partiu para os trabalhos internacionais. Em 2003, esteve ao lado da ganhadora do Oscar Helen Mirren e Anne Bancroft no filme feito para a TV The Roman Spring of Mrs. Stone. Mais tarde, participou de As Panteras - Detonando e foi o objeto de desejo de Laura Linney na comédia romântica Simplesmente Amor. Santoro venceu o Troféu Chopard como Revelação Masculina no Festival de Cinema de Cannes em 2004. O ator também está no elenco de Lost, um dos maiores fenômenos da TV mundial dos últimos tempos. Ano passado, teve importante participação na superprodução 300, na qual interpreta o imperador persa que ameaça invadir as terras gregas em 480 a.C.. Em 2007, realizou o desejo antigo de trabalha com David Mamet em Cinturão Vermelho. Conversamos com Santoro sobre este filme e, claro, sua carreira internacional. Confira:

As pessoas sempre querem saber sobre sua carreira internacional. Não cansa falar sempre sobre isso?
Vejo tudo isso como curiosidade, faz parte da vida de qualquer pessoa pública, independente de ser um ator, músico... As pessoas têm curiosidade e este é o momento de tentar esclarecer.

Você está morando aqui?
O que mais tenho feito é viajar, tenho feito mala o tempo todo (risos). Minha mala é minha companheira, vai comigo para cima e para baixo, mas às vezes dou uma renovada; lavar as roupas também é importante. Mas a minha casa é no Rio de Janeiro. No momento, estou em stand by nos EUA, falta somente uma cena para rodar de I Love You Philip Morris e estou aguardando. É uma história real, Philip Morris é um camarada que ainda está vivo.

Além do fato de Cinturão Vermelho ser dirigido por David Mamet, o que no roteiro do filme o levou a aceitar o convite de atuar neste filme?
Claro que li o roteiro, mas o que mais me motivou a trabalhar neste projeto foi a oportunidade de trabalhar com David Mamet, não vou mentir para você.

Você disse que já conhecia o trabalho dele, tanto no cinema quanto o teatro e na literatura. Depois de trabalhar com Mamet, mudou algo na sua visão em relação a ele?
Não, só consolidou o que eu sabia dele. O que me surpreendeu é que, quando li seus livros, pensei que ele fosse pragmático, mas ele é muito prático, objetivo, mas um cara muito doce, humilde, quase até demais. Ele senta, conversa com todo mundo e realmente não assume nenhuma postura hierárquica no set. Foi uma experiência muito gostosa.

O núcleo brasileiro chegou a contribuir de alguma forma no roteiro de Cinturão Vermelho?
Uma coisa ou outra sim. Sugerimos baseados no que ele queria que fosse dito. Não era para ser um filme com brasileiros, tanto que meu personagem chamava Hector, eles não foram escritos desta forma nem era fator determinante na história. Foi um detalhe interessante; se fosse um mexicano, provavelmente teriam diálogos em espanhol ao invés de português. Ele achou legal colocar um sabor, uma textura diferente, mas tudo veio muito do Mamet. Sabia que ele tem um método de trabalho muito específico e eu queria vivenciar aquilo ao máximo. Ele também trabalha muito com sonoridade, apoiado no texto, então essa história do português veio dele.

Você acha que o sucesso que atores brasileiros como você e a Alice Braga estão fazendo no exterior podem abrir espaço lá fora para outros talentos brasileiros?
Existe a possibilidade sim, o mercado está cada vez mais aberto e se isso acontecer será maravilhoso. Cada vez que viajo sinto isso cada vez mais forte, em Cannes também... A presença brasileira lá foi bem forte, também com diretores - como o Walter (Salles), o Fernando (Meirelles) -, editores... Não se fala muito sobre isso, mas tem muitos diretores de fotografia trabalhando fora.

Como o Alfonso Beato...
Sim, como também o César Charlone (que, na verdade é uruguaio, mas trabalha muito no Brasil), o Gustavo Adba, que é um ótimo câmera... Mas não se fala muito deles. Tem muita gente trabalhando lá fora.

Você tem trabalhado com os mais diversos tipos de filmes e cinematografias. Tem diferença entre trabalhar em blockbusters e filmes menores, em outros países?
A diferença fica na língua e na cultura, mas filmar é contar história e personagens que crio, independente da língua, são humanos. Na essência, é a mesma coisa.

A esta altura de sua carreira, você já se sente na posição de ser exigente na hora de aceitar ou recusar trabalhos?
Saber dizer não é muito importante não só a trabalho, na vida, e você sempre pode fazer isso, independente do estágio que você esteja não somente na carreira, mas na vida. A vida é feita de escolhas desde o momento em que você acorda. Contanto que você esteja sendo sincero com você mesmo... E é como costumo fazer minhas escolhas. Sempre sigo minha intuição, meus instintos. Ouço a mente, mas ela é muito truculenta, então ela te prega umas peças. Ou seja, escuto a mente, mas também sigo meus instintos. Já tive oportunidades as quais achava que poderiam ajudar a me levar a algum lugar, mas, por algum motivo, achava que não era para mim e segui isso. Agentes pode até me aconselhar, mas a decisão é sempre minha.

Ou seja, você nunca se encontrou num momento de sua carreira na qual você gostaria de fazer somente trabalhos internacionais, por exemplo?
Imagina, nunca foi. Tenho equilibrado os projetos, por exemplo, tem esse trabalho, Heleno, o qual protagonizarei. Será meu próximo projeto. É uma história muito interessante cujo roteiro já está em fase final. Na verdade, meu foco não é construir uma carreira, mas sim personagens; trabalho é trabalho. Não penso onde quero estar daqui a 20 anos, nem na vida nem no trabalho. Primeiro porque não tenho o menor controle sobre isso. Além disso, ninguém sabe o que acontecerá amanha, nem daqui a 15 minutos. Minha filosofia é focar no que estou vivendo agora, nas oportunidades atuais e o que considero importante agora. Penso sempre em que forma posso crescer, me tornar melhor e crescer. São essas as questões. Desde meu primeiro trabalho lá atrás, na novela Olho no Olho, em 1993, sempre fui guiado pela intuição.

Já há paparazzi atrás de você?
Não, não sou celebridade. Eu vivo outra vida, não vivo essa. Quando encosto a cabeça no travesseiro, penso em que horas vou levantar para surfar e qual praia estará dando onda e, se estou trabalhando, quais serão as cenas do dia seguinte. Não estou preocupado com essa cultura de celebridade.

Você mencionou que sempre teve vontade de trabalhar com Mamet antes de Cinturão Vermelho. Existe mais algum cineasta com quem você é interessado em trabalhar?
Tem vários, como Jorge Furtado, Guel Arraes, Tião. Ele foi um cara que conheci em Cannes (o jovem cineasta teve seu curta-metragem Muro premiado no festival francês em 2008), uma figura muito simpática que conheci num momento muito engraçado. Nossa, mas tem tantos... Adoraria filmar de novo com a Laís (Bodanbzky, que o dirigiu em Bicho de Sete Cabeças, de 2000), mas infelizmente não deu em Chega de Saudade...
Tem também esses que nem conheço ainda, tanta gente de talento que tem aqui. As pessoas têm essa imagem de que estou trabalhando fora e às vezes acham que não têm acesso, mas me faço muito acessível a tudo, até porque estou interessado em conhecer e trabalhar com experiências das mais diversas possíveis. Ainda mais agora, num momento tão fértil do cinema brasileiro. Estou super aberto. E sempre depende do que é. Independente de quem seja - citei estes nomes porque são pessoas que admiro, gosto de seus trabalhos -, é até injustiça falar de uns e não falar de outros. Tem também o Matheus (Matheus Nachtergaele), o Selton (Mello), que estão dirigindo agora (A Festa da Menina Morta e Feliz Natal, respectivamente).

Você pensa em dirigir também?
Agora não.

Cinema virou sua vida?
Não. Atualmente, ele está muito presente, mas não é uma opção majoritária. Estou tendo muitas oportunidades incríveis no cinema e estou seguindo isso. Também tenho muita vontade de parar e desenvolver uma peça. Não tem favoritismo, mas neste momento estou seguindo o fluxo do cinema.

Você e a Alice Braga têm planos de atuar juntos novamente?
Nunca conversamos sobre isso, mas alguém já comentou que deveríamos fazer uma comédia juntos. Não sei, mas não deu tempo de conversarmos. Gosto muito do trabalho da Alice, me identifico muito com a maneira dela trabalhar. Ela tem presença muito forte na tela, ela tem muito carisma e se entrega muito, trabalha com muita paixão, é uma atriz que se envolve naquilo que está fazendo e por isso me identifico com ela. A Alice é uma grande atriz que cresce cada vez mais. Nos conhecemos duas semanas antes de filmarmos Cinturão Vermelho, numa aula de jiu-jitsu.

Alice Braga fala sobre Cinturão Vermelho.