Rodrigo Siqueira (Terra Deu, Terra Come)

30/09/2010 16h37

Por Heitor Augusto

Terra Deu, Terra Come é o melhor filme brasileiro de 2010 até o momento, na opinião deste repórter. Não é exagero: o documentário vencedor do É Tudo Verdade, um dos mais importantes festivais do mundo do gênero, transporta o espectador para as raízes do Brasil que estão dentro de nós, mesmo que não as notemos.

Quem nos introduz no mergulho é seu Pedro de Alexina, uma figura mítica de Diamantina, Minas Gerais. “Em 1999, meu Amigo Gil Amâncio me contou de dois velhos que conversavam por dialeto. Guardei aquilo num canto da minha cabeça. Logo depois, iniciei uma viagem pelo sertão”, conta o diretor Rodrigo Siqueira ao Cineclick.

Nessa entrevista por e-mail, o leitor vai perceber que Siqueira passou por uma epopeia sertaneja até encontrar lá fora o filme que existia dentro de si. E tudo começou com uma conversa sobre dois velhos que conversavam em dialeto e com Guimarães Rosa e Grande Sertão: Veredas debaixo do braço. O resto você confere na prosa abaixo:

Como você chegou ao seu Pedro de Alexina, o personagem principal de seu filme?
Em 1999, meu amigo Gil Amâncio me contou sobre dois velhos na região de Diamantina que cantavam em um dialeto africano e também tinham um costume muito curioso: os dois se comunicavam através de gritos (em dialeto) a uma distância de meia légua. Um gritava em direção à casa do outro, por um vale, e aguardava a mudança do vento para receber uma resposta. Na época achei interessante e isso ficou armazenado em alguma gavetinha da minha memória.

Cinco anos depois estava mergulhado na leitura do Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa, e decidi fazer uma viagem pelo sertão que ele retratou em suas obras. Estava interessado em ver o sertão e ouvir as histórias sobre o sertão. Sabia que muitos dos mitos que estavam na literatura rosiana estavam vivos no interior de Minas Gerais. Quando criança me cansei de ouvir histórias sobre fulanos que tinham parte com o capeta. Em geral, tomava-se “parte” para se prosperar na vida. Aliás, li uma vez que Goethe escreveu o Fausto estimulado por narrativas orais que ouviu quando criança na Alemanha e de saltimbancos que apresentavam este mito em teatro de bonecos.

Então estava curioso para encontrar pessoas que tivessem feito um pacto ou que eventualmente soubessem como se faz ou que soubessem histórias sobre o “Sujo” [Diabo]. Peguei a minha câmera e saí em viagem de férias/pesquisa. Iniciei a viagem pela Serra Do Cipó, passei por Conceição do Mato Dentro, Serro, Milho Verde e São Gonçalo do Rio das Pedras, que é um lugar maravilhoso e onde terminei de ler o Grande Sertão. Em São Gonçalo falei com benzedeiras e ouvi algumas histórias de “mandraquices”, corpo fechado, assombrações.

Foi lá também que estava lendo o conto O recado do morro, do livro No Urubuquaquá no Pinhém, do Rosa, em que um personagem menciona a existência do hábito de pessoas se comunicarem por gritos na região do Pico do Itambé. Na hora me lembrei da história que o Gil Amâncio havia me contado e me dei conta que eu estava exatamente na região do Pico do Itambé, que fica na Serra Do Espinhaço. Liguei para o Gil e ele me passou o contato da Lúcia Nascimento, etnolinguista que tinha o contato dos dois velhos (Pedro e Paulo). Ela estava viajando, mas me disse por telefone que fosse de boca em boca e porta em porta procurando pelo Seu Pedro em São João da Chapada eu o encontraria. E assim foi.

Quando vocês chegaram em Diamantina?
Em dia 30 de dezembro de 2004. Lá, comprei o livro O Negro e o Garimpo em Minas Gerais, um clássico da editora Itatiaia em que o professor Aires da Mata Machado descreve os 67 vissungos que coletou na região de São João da Chapada, no final da década de 1930. Para quem não sabe, os vissungos são as cantigas de trabalho e de rituais fúnebres cantadas em dialeto “banguela”, que é uma mistura de línguas africanas de matriz banto com o português. E foi na toada destas leituras e acasos que encontrei seu Pedro.

A nossa viagem prosseguiu e ainda passamos por Cordisburgo, cidade onde nasceu Guimarães Rosa; Morro da Garça; São Francisco, que é a cidade em que Zé Bebelo entra com 600 jagunços, numa das passagens do Grande Sertão: Veredas; Montes Claros; Serra das Araras; Chapada Gaúcha, lugar onde alguns garantem ser o mesmo que o famoso Liso do Sussuarão; Vão dos Buracos, este que no livro é conhecido como o Vão do Oco, um lugar descrito como cheio de onças e chagas e que é o último lugar por onde Riobaldo passa antes de tentar a travessia do Liso do Sussuarão pela segunda vez; Rio Pardo; Parque Nacional Grande Sertão: Veredas, onde conseguimos beber água em uma típica vereda cheia de buritizais e nadamos no encontro do Rio Carinhanha com o Rio Pardo; depois descemos para o Urucuia, Arinos e terminamos a nossa viagem em Brasília, antes de retornar a São Paulo.



Caramba, que viagem longa!
Durante este percurso falei com vários contadores de histórias, gravei e fotografei muita coisa. A propósito, em Serra das Araras conheci o seu Leôncio, um senhor que estava na ocasião com 96 anos, vaqueiro que fora também jagunço do bando de Antônio Dó, cuja história dizem que o Rosa conheceu e se inspirou para construir personagens de jagunços e histórias de batalhas. No Vão dos Buracos, enquanto as mulheres socavam uma paçoca de carne de sol no pilão de madeira, aprendi com seu Antônio que para se ver o Demo dentro de um redemoinho (“o Diabo na rua, no meio do redemoinho”) é preciso lhe virar as costas e olhar por debaixo das próprias pernas. Foi também em um mirante à beira do Vão dos Buracos, que é um canyon maravilhoso onde as araras fazem seus ninhos, onde encontrei um casal de escoceses e um casal de cariocas que estavam ali movidos pelo mesmo desejo de descobrir o sertão de Guimarães Rosa. Quando encostei o carro, me dirigi a um deles e perguntei, gaiato: É aqui que é o Liso do Sussuarão? E a resposta veio no mesmo tom: “Uai, se você souber onde é, a gente também quer saber”.

Como foi o primeiro contato com o seu Pedro? Você pensava em fazer um filme que falasse de um pedaço do Brasil ou só sobre o personagem?
Encontrei seu Pedro no dia 1º de janeiro de 2005. Cheguei à casa dele e ele não estava. Dona Lúcia [a esposa] mandou chamá-lo e eu fiquei aguardando. Quando ouvi a voz dele cantando à distancia no meio do mato, saí da casa para recebê-lo já com a câmera ligada. Nosso primeiro encontro já foi mediado pela câmera. Ele me cumprimentou e entramos na casa e nas 3 horas seguintes passei conversando e gravando ele falar e cantar. Percebi imediatamente a força, o carisma, a inteligência e a “estrela” que seu Pedro tem.

Quando desliguei a câmera ao final de 3 horas, lhe disse:

Seu Pedro, quero voltar aqui pra fazer um filme com o senhor.

Garimpeiro que sempre foi e acostumado a catirar, ele me respondeu:

Quem sabe quando você voltar aqui você não me traz uma sanfona?

Só voltei lá quando encontrei a sanfona do jeito que ele queria.

Diante de tudo o que seu Pedro carrega e representa, fazer um filme sobre o personagem Pedro de cara já seria fazer um filme sobre um pedaço mítico do Brasil, sobre memória oral, cultura popular, vissungos, história do Brasil colonial, ciclo da mineração, Guimarães Rosa etc etc etc. E ele é uma figura humana extraordinária, complexa, ambígua, rica. O filme é resultado deste encontro entre os nossos mundos diferentes.

Como me disse o Eduardo Coutinho: O seu Pedro entrou no seu mundo até onde dava, você entrou no dele até onde dava e em uma acomodação de acasos, deste encontro entre os dois mundos, saiu um troço. Que é único. E esse troço se deu diante da câmera. Posso dizer que neste nosso encontro o santo dele bateu com o meu e o filme deu no que deu.

Você acha que “Terra Deu, Terra Come” existiria se não houvesse Guimarães Rosa e sua obra? Hipoteticamente, seria possível pensar no seu documentário sem ter sentido Guimarães dentro de si?
Encontrei vários outros personagens e pessoas interessantes nesta mesma viagem de imersão pelo sertão rosiano. Encontrei outras várias histórias e mitos que estão na obra do Rosa, mas nada disso tudo se compara ao encontro com seu Pedro.

Acho que em qualquer circunstância que o encontrasse eu quereria fazer um filme com ele. Porque é impossível encontrá-lo e não se encantar com ele e com o mundo mítico em que ele vive. Porque ele talvez também seja um arquétipo do sertão que o próprio Guimarães Rosa encontrou e pelo qual ficou encantado. Se não existisse o Guimarães Rosa, seu Pedro existiria mesmo assim. O contrário eu não sei dizer. Mas é provável que sim, como o próprio Rosa nos deixou escrito: Deus escreve certo por veredas tortas. E, de certa maneira, podemos chamar Deus de uma representação do Acaso.

É muito difícil conseguir o que você conseguiu, um clima de naturalidade e uma clara atuação de seu Pedro pra câmera, tudo junto! Dá pra remontar esse processo de abordagem? É possível falar de um método de aproximação? Qual foi a resposta dele pra aquele bando de gente com luz, vara de boom, indo pra lá e pra cá?
Como disse, meu primeiro encontro com seu Pedro foi mediado pela câmera. Ali já assinamos um contrato, mesmo que inconscientemente. Se neste encontro ele me rejeitasse ou rejeitasse a câmera, o filme não existiria como é. Depois desse primeiro encontro, voltei à casa dele diversas vezes, algumas com a câmera, outras sem nada, de modo que teve um longo processo de aproximação e aprofundamento da nossa relação.

Quando fui filmar em 2007, optei por uma equipe mínima, sem grandes aparatos e artefatos. Acho que essa estrutura de equipe de cinema cheia de gente engessa demais os acontecimentos ou intimida as possibilidades de manifestação do acaso, por assim dizer. A equipe era o Pierre de Kerchove, fotógrafo; o Célio Dutra, técnico de som; e o Ricardo Magozo, assistente de câmera e de produção. O quinto elemento desta turma era o Genilson, motorista, que seu Pedro já conhecia de Diamantina. Esta equipe reduzida me possibilitava criar uma certa distância íntima com ele e os seus familiares.

Quando cheguei para filmar, apresentei cuidadosamente cada pessoa da equipe e expliquei o que cada um estava fazendo, como funcionava a dinâmica de filmagem, a função dos equipamentos. A resposta foi sensacional, antes de começarmos a filmar, seu Pedro conduziu cada um da equipe até o seu quarto e nos benzeu um a um. Desta maneira, iniciamos a caminhada alinhados em uma mesma vereda, sintonia.

E a mise-en-scène de seu Pedro?
Quanto à atuação, fica por conta da natureza do que estávamos documentando. Seu Pedro é um contador de histórias, de causos, e naturalmente um ator, um performer. Quem cresceu em Minas ouvindo histórias sabe o que é isso. O causo tem uma natureza dúbia, ambígua, que entretém o ouvinte e o coloca em dúvida sobre a veracidade do narrado. Ou outras vezes nos surpreende com situações fantásticas ou improváveis. Quando estava filmando, em muitas situações eu não sabia se o que seu Pedro me contava era verdade, ou era um causo, ou era uma atuação, ou se ele estava me enganando.

E Terra Deu, Terra Come representa um pouco da essência do modo como ele Pedro narra a sua vida, o seu mundo mítico. Procurei levar para a montagem a maneira com que ele nos conta as histórias, e que muitas vezes passa longe da narrativa ocidental e racional a que estamos acostumados. A cultura oral é um caldo que tem matriz variada e caminha no mundo há milênios, tem muitas vezes uma estrutura circular, porosa em que o ouvinte participa completando a narrativa com sua própria imaginação. O que procurei fazer foi passar ao filme um pouco deste modo narrativo da cultura de matriz oral e especificamente do modo dele Pedro narrar histórias. De certo, modo trata-se de um cine-causo.



Por que deixar só para o final a explicação de quem é seu Pedro de Alexina? Com o que você tinha filmado já estava confiante o suficiente de que não era necessário antes de chegar na ilha de edição?
Não queria fazer um filme que dissesse isto é isto, isto é aquilo, explicativo, quis fazer um filme que narrasse a si mesmo. O modo que encontrei foi este que está nele. As pessoas vão construindo a história à medida que o filme se desenrola. Nunca tive certeza de nada, na verdade. Passei momentos de muita insegurança e desespero até. Teve momentos que achei que a proposta que me havia feito não era realizável, mas teimei.

Quando terminei o corte não havia a explicação e estava satisfeito, mas era um entendimento muito de quem está mergulhado no material. Fiz alguns testes mostrando o filme a alguns amigos e cheguei à conclusão que precisava acrescentar alguns elementos mais para que o filme se tornasse um pouco mais compreensível. Além dos letreiros, há durante o filme algumas pistas que ajudam o espectador a juntar as peças, há algumas repetições como nas técnicas de narrativa oral, e como, aliás, o rádio usa muito bem. Mas como todo o processo foi aberto, resolvi introduzir elementos que melhor situassem o espectador, mas que preservasse este caráter de narrativa aberta, que é fiel ao processo de filmagem e da minha relação com o seu Pedro durante todo o ciclo do filme, e próximo da narrar “desmanchando” do Guimarães Rosa.

Como documentarista, o que é mais difícil de filmar: a memória ou a morte? Por que?
A memória. Porque a memória é variável, gasosa, inconstante e incerta. A morte é definitiva. Mas quando a morte entra para o universo da memória e da invenção a coisa cresce e fica muito mais interessante e instigante. Deixa de ser definitiva e passa a ser infinito, vira Deus. Como na narrativa do início do filme, que passa de geração a geração, que faz parte de uma memória mítica e que descreve uma certa teogonia da Morte.

Nas suas andanças e conversas com quem vive em Diamantina, como os mais jovens veem seu Pedro e o que representa? A tradição oral ainda reverbera na molecada?
Como o próprio seu Pedro diz no filme, os jovens estão deixando de se interessar pelas tradições para aderir à televisão, ao rádio e a essa cultura de massa pasteurizada que tudo sufoca. Mas há esperança. No período que passamos lá filmando percebi que os jovens nos olhavam espantados, como que a nos dizer: o que tem de tão importante com este velho que estas pessoas vêm de tão longe para falar com ele? Alguns também já o observavam com mais atenção, querendo aprender.

Tive notícias de que tem aumentado a frequência de gente que vai procurar o seu Pedro para falar com ele, para aprender sobre o que ele sabe. Este interesse pode ter um efeito multiplicador. E talvez o filme possa contribuir para isso, despertar nos jovens o interesse em aprender mais sobre esta riqueza cultural que os rodeia.

Uma ação concreta que estou fazendo é o projeto educativo do filme. Vou distribuir DVDs a todas as escolas públicas da região de Diamantina. O secretário municipal de educação manifestou interesse em capacitar uma centena de professores para trabalhar os conteúdos do filme em sala de aula. Também estou articulando com a Representação da UNESCO no Brasil para construir uma metodologia para estes conteúdos chegarem aos jovens. A UNESCO tem um programa que se chama Tesouros Humanos Vivos, que busca valorizar estas pessoas que são detentoras de saberes representativos e fundamentais para a cultura de uma comunidade. E o seu Pedro, sem sombra de dúvidas, é um verdadeiro tesouro humano vivo.

Seu Pedro viu o filme?
Viu duas vezes. A primeira quando estava prestes a terminar o último corte, em dezembro de 2009, e fui até a casa dele para mostrá-lo. Sentado na cozinha, a beira do fogão à lenha, ele e dona Lúcia assistiram ao filme. Ele não teceu muitos comentários, mas o brilho nos olhos e a cara de satisfação estampada no rosto dele não me deixou dúvida. Ao final, perguntei se alguma coisa no filme o desagradava. Eu tinha receio por algumas histórias que ele conta no filme que são fortes e que poderiam lhe causar algum problema. Mas ele se manteve firme em tudo que disse. Isso só confirmou que ele sempre esteve inteiro no filme. O homem é de uma integridade espantosa.

A segunda vez foi durante o Festival de Inverno da UFMG, em julho de 2010. Armamos uma tela com projetor no Quartel do Indaiá, bem em frente ao boteco do Pidrim Pessanha. Esta exibição foi emocionante. Pela primeira vez todas as pessoas que participaram do filme o viram juntas. Assisti ao filme entre os dois Pedros. E foi incrível ver como estavam fascinados e satisfeitos. Seu Pidrim não parava de rir. E seu Pedro de Alexina ficava reafirmando as histórias que ele aparecia contando no filme.

Ao final, tomamos cachaça e seu Pedro começou a cantar versos de improviso e a desafiar as pessoas a cantarem com ele. Fez troça de mim, provocou, mas fiquei quieto no meu canto que não sou bobo. Aliás, ninguém se atreveu a encarar o desafio do velho. E ele cantou sozinho.

Quem propôs o quê na encenação do terceiro capítulo do filme?
Heitor, acho que este assunto torna-se muitíssimo mais interessante depois que as pessoas virem o filme. De maneira que vou me esquivar da pergunta em favor do público.

Em Gramado, você me disse que está começando a embarcar num filme sobre Anistia. Como você vai de algo, digamos, das raízes de um Brasil ancestral (do diamante e o oral) – sem juízo de valor nessa afirmação – para um país do agora, ou pelo menos do ontem?
Não posso falar muito ainda sobre este projeto, mas posso garantir que a ambiguidade continuará sendo o meu principal foco de interesse. O titulo provisório do filme é Orestes – Verdade Simulada. O documentário vai caminhar por um terreno em que a tragédia grega de Ésquilo encontra a construção da verdade histórica no Brasil de hoje. A palavra escrita e a palavra falada tornam-se o ponto de fricção que origina o filme, que também colocará em confronto a Lei de Anistia, de 1979, e o código penal brasileiro. Crime político e crime comum (parricídio) serão duas faces de uma mesma construção da verdade possível (?). Trata-se de um documentário de pesquisa de linguagem, uma busca pessoal que já aponta para um terceiro filme em que pretendo voltar ao imaginário popular brasileiro.