Rudi Lagemann (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

Anjos do Sol é o primeiro longa-metragem dirigido por Rudi Lagemann. Mas não é de agora que o cineasta gaúcho envolve-se com produção cinematográfica. Foguinho, como é mais conhecido no meio, iniciou suas atividades nos anos 80. Ainda na região Sul, foi diretor de produção de longas-metragens como Verdes Anos (1984), de Giba Assis Brasil e Carlos Gerbase, e Me Beija (1984), de Werner Schünemann. Por este último filme, no qual também assina o roteiro e atua, recebeu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Brasília de 1984.

Após mudar-se para o Rio de Janeiro, no ano seguinte, trabalhou como assistente de direção para cineastas como Cacá Diegues, Lauro Escorel, Jorge Duran, Murilo Salles e Fábio Barreto. Nos anos 90, como tantos outros cineastas, migrou para a direção em TV e filmes publicitários. Somente agora, com mais de 20 anos de carreira, Foguinho consegue assinar como realizador. Uma conseqüência natural, como ele mesmo explica em entrevista exclusiva ao Cineclick. Confira.

Quanto custou a produção de Anjos do Sol?
R$ 1,5 milhão. Tem de ser aberto, não é? Foram R$ 800 mil do MinC (Ministério da Cultura), R$ 400 mil da produtora (CaradeCão), R$ 100 mil da Globo Filmes (co-produtora do filme) e R$ 200 mil da venda de direitos do DVD.

A distribuição do filme em DVD já foi acertada antes mesmo do filme estrear nos cinemas. Durante as filmagens, existiu essa preocupação em produzir ou pensar em extras para essa versão do longa-metragem?
Tenho muito material para o DVD desde a pesquisa, incluindo a preparação das meninas, a escolha das locações, cenas não-editadas... É um material bem rico, acho que vai ficar um DVD muito bacana.

O filme é resultado de nove anos de pesquisa em roteiro inspirado em reportagens. Você mesmo chegou a visitar locais onde histórias como de Anjos do Sol acontecem?
Não, a pesquisa foi por meio de material de jornal, textos de ONGs (Organizações Não-Governamentais) e outras entidades que trabalham com esse tema, entrevistas com terapeutas e médicos que também atuam nessa área e por meio de documentários sobre o assunto. Não nos interessava pesquisar in loco porque imaginei que o trabalho poderia ser desviado para outro caminho. O que eu precisava da pesquisa não conseguiria indo no lugar. Por meio de documentários e fotografias, captei todo o universo pelo lado da cenografia do filme, para reinventá-lo no filme. Quanto aos diálogos, peguei vários documentos com relatos das meninas. Dessa forma, captei a forma delas falarem, as gírias utilizadas, o jeito que elas escamoteavam as verdades e mentiras que contavam... Daí veio o trabalho. Assisti a dois documentários da BBC (rede inglesa de TV), dois Globo Repórter (programa investigativo produzido pela Rede Globo). Esses programas, todos da década de 90, falam sobre o turismo sexual, mas esse não era meu foco. Queria abordar isso como um problema estritamente brasileiro. Mas eles eram bons pra me dar o jeito delas, o visual. Também vi documentários estrangeiros sobre prostituição infantil na Índia por serem universos parecidos. Elas assistiram aos filmes. As meninas, junto de seus parentes, várias vezes foram lá na minha sala, na produtora, para assistir a esses filmes. Também assistiram a filmes de ficção que não tinham nada a ver com o assunto. Por exemplo, mostrei Encantadora de Baleias para que entendessem o trabalho de interpretação da atriz (Keisha Castle-Hughes, indicada ao Oscar pela interpretação), dizendo que queria isso delas na filmagem. Tudo veio dessa preparação.

Como foi sua procura por Maria?
Foi uma procura angustiante. Eu tinha duas questões vitais para o filme: como seria abordado um tema tão sórdido de uma forma que não causasse repulsa ao público, sempre quis que ele fosse assistido, claro. A outra era como encontrar uma menina que tivesse na faixa dos dez anos para fazer o filme. O produtor de elenco (Luiz Antônio Rocha) procurou muito em grupos teatrais porque eu queria uma pessoa desconhecida. Ao mesmo tempo, numa entrevista que dei para um jornal carioca com o título "Um cineasta à procura de Maria", dei um número de caixa postal. Então, veio material do Brasil inteiro. Vimos o material de 700 meninas. Dessas, selecionamos 360, pois o restante não se adequava ao papel, e vieram meninas para fazer os testes. Nas baterias de testes, reduzimos o número de candidatas até chegar à menina Maria (interpretada por Fernanda Carvalho). Ela é moradora de São Gonçalo (Rio de Janeiro), fez teatro escolar e foi parte do elenco de apoio de um especial na Rede Globo.

A Fernanda foi uma das pessoas que mandaram material para a caixa postal divulgada na reportagem?
Maria vem daí. É genial isso, né? Desde o início, quando ela apareceu sempre percebemos que é uma figura muito carismática. Ela tem carisma com a câmera. A Fernanda tem um brilho no olho, onde se vê a inocência. Além disso, vi que ela tem talento e inteligência para que eu pudesse construir a curva dramática de uma menina que sai completamente inocente de casa, faz toda aquela trajetória de chegar ao final do filme naquela condição de transparecer no seu olhar tudo que passou. Instintivamente, a Fernanda é um bicho de audiovisual, a câmera gosta dela.

Como o restante do elenco foi formado?
Todo o elenco de apoio e as meninas vieram de testes. Escrevi o roteiro pensando no (Antônio) Calloni, que eu não conhecia pessoalmente, no Chico Diaz - parceiro antigo de outros trabalhos -, a Vera Holtz e o Otávio Augusto foram indicados pelo produtor de elenco. A Darlene Glória foi numa indicação do José Alvarenga, diretor de Os Normais.

Você acha que a presença da Bianca (Comparato) pode trazer mais espectadores ao filme, já que ela é um rosto conhecido desde que fez a novela Belíssima?
Pode! O público gosta dos seus ídolos, reconhece neles algumas coisas. O cinema norte-americano é baseado nos atores, né? As pessoas vão ao cinema por causa dos atores, isso é reconhecido pelo mercado. Também é ótimo porque existe o interesse da mídia. Por esse lado, é bastante interessante tê-la. Mas o mais importante é que esse não foi um critério, a Bianca foi escolhida pelo talento. Tive de estragá-la para este filme, ela era muito gatinha, sabe? Insisti para fazerem uma permanente e achei que ficou muito bom para o papel.

E ela está muito bem no filme...
Sim, elas tiveram todo um trabalho de preparação com a Paloma Riani e a Helena Varvaki no sentido do tema, de dar uma unidade. Fizemos um trabalho muito longo sobre cada cena, especialmente junto à Fernanda. Mesmo nos ensaios, já sabíamos o que cada uma faria. Elas estavam muito coesas, por isso. Por mais que a trama se passasse num mundo tão sórdido, havia um clima de descontração nas filmagens, até a hora em que íamos filmar. Aí o mundo mudava, ficava o clima do filme.

Como foi o trabalho psicológico das atrizes, por conta do tema pesado que Anjos do Sol aborda?
Sempre tive essa preocupação de não causar nenhum tipo de trauma psicológico. Por isso, foi importante ter uma preparação feminina. O homem não tem intimidade de falar sobre abuso sexual e estupro, sabe? Os responsáveis sempre acompanhavam as meninas nas filmagens, elas nunca foram abandonadas. A preparação com a Paloma e a Varvaki foi também corporal, auxiliadas pelos documentários que vimos. Como será que caminha uma menina que dormiu com 30 homens numa noite, sabe? Trabalhamos sobre isso. O processo todo foi dando segurança e confiança sobre como eu filmaria no sentido que não teria nenhum aspecto de mau gosto dentro daquele universo sórdido.

Quais foram as maiores dificuldades durante a filmagem?
Como trabalhei como assistente de direção em 20 longas, eu era iniciante no sentido de assinar. Já dirigi aproximadamente 400 comerciais, então já sou mais do que familiarizado com o set de filmagens. Tinha cenas complicadas, como o estupro da Maria, o arrastão da Inês. Essas foram as duas seqüências mais difíceis, no resto a gente estava muito preparado, não chegávamos no set sem saber o que fazer. E eu filmo muito rápido, com poucas tomadas, sabe? Não fico insistindo, não gosto disso, ainda mais com criança.

As filmagens demoraram quanto tempo?
Seis semanas: uma na Bahia, cinco no Rio de Janeiro. Somente as cenas iniciais, na praia, e as que têm o caminhão passando pelos cactos foram feitos em locação, o resto foi tudo filmado num local que construímos para isso. Como não tínhamos dinheiro para cenários e essas coisas, o cenógrafo (Levi Domingos) conseguiu três caminhões de madeira - que foram depois devolvidas, usadas mesmo - e filmei dentro de um manicômio no Rio de Janeiro. Quando falo isso as pessoas não acreditam, mas nosso estúdio foi lá. Fiquei três semanas e meia nesse manicômio, com os malucos andando por lá. A vila onde elas vivem é o "clube" dos malucos. Tudo é de alvenaria. A rua principal no filme é onde fica a marcenaria do local. Não tive nem como trocar o telhado, trabalhamos com opções. Lá, recriamos uma rua de alvenaria, toda bonitinha, para nosso universo. A partir daí, fui pensando em maneiras de onde colocar a câmera. Era um bairro que passava ônibus atrás da gente, entendeu? Esse é o mérito da equipe e da direção do filme porque, quando você faz um filme, dependendo do gênero, você recria a realidade de um modo simbólico. O mérito está em como você executa isso, para passar uma realidade que se torne crível. Acho que superamos nosso desafio.

Você trabalha com cinema desde os anos 80. Porque a estréia na direção aconteceu somente agora?
Porque a gente vive num lugar chamado Brasil. O cinema é uma atividade muito cara. Quando minha geração estava pronta para estrear na direção, o governo Collor veio a paralisar a produção cinematográfica no Brasil. Nesse meio-tempo, todo mundo foi fazer televisão e publicidade. Além disso, foi quando pesquisei não somente este, mas outros temas, para um longa. Foi um processo natural. A gente nunca sabe como eu teria filmado naquela época. Numa atividade tão cara, é uma sorte conseguir realizar um projeto de cinema. Se eu vou fazer o segundo não sei, tudo depende de como Anjos do Sol vai acontecer, se as portas vão se abrir ou fechar... Isso o público vai dizer.

E você já pensa no próximo?
Gosto de contar dramas humanos que envolvam temas polêmicos. Estou escrevendo duas histórias. Uma é mais rural, focando a educação no Brasil que, para mim, é onde o mal reside. Outra é mais urbana, pegando uns temas mais modernos. Meu foco é a educação, mas chega uma hora que eu fico trancado, até por causa dos trabalhos. Quando me tranca nessa história, passo para a outra, que terá um enfoque no universo onde convivo, divertido de trabalhar.

Qual seria o enfoque da história urbana?
É a história de dois homens casados que querem adotar uma criança. A história mostra o processo pelo qual passam. É como Cenas de Um Casamento (1973), do Ingmar Bergman, só que gay. Não é uma comédia.

É também um tema que não é muito explorado, especialmente no cinema brasileiro...
É... O foco está na questão da estrutura familiar e da desestruturação familiar. Quem conduz a história é o casal e o espectador, acompanhando isso, também conhece o universo gay, as dificuldades legais do processo de adoção e como acontecem as relações familiares dos personagens. É como cebola, você vai descascando e tirando as camadas.

Leia entrevista com o ator Antonio Calloni.