Sandra Corveloni

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

Repentinamente, o nome de Sandra Corveloni ganhou fama no mundo cinematográfico. A atriz, que tem 15 anos de teatro, estreou somente agora no cinema protagonizando Linha de Passe, dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas. A súbita notoriedade veio na premiação como Melhor Atriz no último Festival de Cannes. O prêmio era tão inesperado que Sandra nem estava na França para receber o prêmio. Simpática, a atriz falou abertamente sobre como foi estrear no cinema neste trabalho e como foi a composição do papel, entre muitas outras revelações. Confira:

Como foi a preparação de elenco antes de começarem as filmagens?
Desde o começo, a Daniela (Thomas) e o Walter (Salles) sabiam muito bem o que estavam buscando nos atores. Então, desde os testes tudo era muito improvisado. O tema era lançado e a pessoa mesmo que estava da câmera dava uns toques, sabe? As reações vinham de acordo com essas perguntas. Isso já dava uma boa idéia de como o ator reagiria. Depois de terem escolhido o elenco, lembro que a primeira conversa com o Walter, a Daniela e a Fátima Toledo era a respeito do que era esse filme: o cotidiano de uma família da periferia de São Paulo. Não é fácil fazer o cotidiano no cinema, você tem de fazer a cena com uma pessoa com a qual você se relaciona todos os dias - filho com a mãe, irmão com irmão... - e as situações e relações não podem ser colocadas em negrito. Tem de ser como falo com meu filho em casa. Ao mesmo tempo, o discurso não poderia ser vazio, banal. Cotidiano não é sinônimo de banalidade. Como não deixar a situação banal? Criando essa relação familiar e, para isso, passamos três meses, diariamente, seis dias por semana, com a Fátima Toledo e o assistente dela, fazendo um treinamento físico de vigor. Fazíamos a mesma coisa todos os dias para dar uma disciplina corporal para que o corpo respondesse ao que quisesse fazer com ele. Nós cinco, eu e os quatro atores, tínhamos exercícios individuais. O José Geraldo (Rodrigues), que faz o Dinho, corria muito para perder um pouco de peso e ganhar uma força, uma concentração. O João (Baldasserini) fazia muitos exercícios de concentração porque ele é super agitado. O Kaike (de Jesus Santos) fazia muitos exercícios vocais porque ele não é ator, tem alguns problemas de dicção pela própria prosódia familiar. Foi um trabalho árduo de articulação com uma fonoaudióloga. Ela acompanhava todos os ensaios para ver quem precisava de algum trabalho, como aprender uma prosódia diferente, como é o caso do Vinícius (de Oliveira), que é extremamente carioca. Quando vi o filme, fiquei chocada na mudança de sotaque. E nada é forçado, foi um processo pelo qual ele passou durante essa preparação, em seis meses. Todas as cenas que fizemos de improvisação foram gravadas; a Daniela, o Walter, a Fátima e toda a equipe devem ter conversado bastante sobre a gente! Hoje, os meninos me tratavam como uma irmã. Então, para criar essa relação fictícia de mãe, tive de suar a camisa. Sou muito observadora. Sento num ônibus e, se a pessoa me der trela, vou conversando, passo do ponto, vou embora. Faço esse trabalho de investigação.

O que está completamente ligado ao fato de você ser atriz... Imagino que essa sua característica tenha sido bastante útil para a composição desta personagem.
Foi sim. A questão das empregadas domésticas me incomoda muito. Meu marido fala que até que enfim vou exorcizar isso em minha vida com este filme.

Como assim?
Ele sempre fala que nunca conseguimos ter uma pessoa trabalhando em casa porque não deixo. Fico conversando com a pessoa e ela não trabalha. Fico preocupada, me envolvi, fico amiga. Se é uma pessoa bacana, ela não mistura, mas se ela é folgada... Aí não dá. É muito duro o trabalho, ganha tão pouco, é muito complicado.

De que forma você já estava habituada ao universo de Cleusa?
Estou acostumada com a periferia porque cresci lá, minha família mora na periferia. Não nasci em São Paulo, nasci em Flórida Paulista, quase divisa com Mato Grosso. Vim muito pequena para a cidade, com quatro ou cinco anos, e fui morar perto da Lapa. Mudei muito de casa porque meus pais eram agricultores, então eles não tinham qualificação profissional, então dependiam de indicação. Foi bem difícil. A gente ficava mudando de bairro sempre. Os meus pais trabalharam, juntaram dinheiro e compraram dinheiro numa vila em Perus, último bairro da capital indo no sentido Jundiaí. Via meu irmão jogando em campinhos de várzea, ele até chegou a jogar profissionalmente. Quando minha amiga Denise Weinberg, que faz a Estela no filme, me indicou, ela sabia que eu tinha uma afinidade com esse mundo. E eu tenho muita facilidade de assimilar prosódias, sotaques. Os amiguinhos do meu filho sempre pedem pra eu imitar o Bob Esponja. Tenho muita facilidade de fazer brincadeiras sonoras.

No filme, a personagem tem um tom bastante sóbrio. Foi difícil chegar nele?
A mãe é para onde eles voltam sempre. Mas não foi nada difícil. Tanto que inventamos algumas cenas, como a da festa de aniversário. Quando eu falo: "Ô, Denílson, desliga a luz!" era com o Denílson mesmo que estava falando. Passamos a tarde inteira na casa da frente, onde eram figurino e maquiagem. Passamos a tarde inteira com essa criançada da festa, até dei uma aula de teatro pra eles. A festa, então, tinha esse caráter. Walter e Daniela quase morreram de rir. A Mariana (Armellini), que faz a Roseli, amiga de Cleusa no filme, é extremamente engraçada. Ela fala umas coisas que faziam a gente cair no chão de rir.

Tudo isso improvisado?
Sim, tudo criado no calor do momento. Tínhamos muita liberdade de colocar palavras na boca do personagem, o roteiro era um guia, mas não era fechado. Toda essa liberdade, mais o que trabalhamos com a Fátima ao criar as relações entre os personagens, foram essenciais. Claro que foram aproveitadas as relações que nós, atores, estabelecemos entre nós logo no começo. Fiz o mesmo exercícios com todos os atores e cada um teve um resultado diferente. Então, acho que transparece no filme essas relações, essa preocupação com o personagem do Kaike. Acho que ela (Cleusa, a personagem) carrega uma mágoa por ele ser negro, diferente dos outros. Por exemplo, por mais que o Dinho ajude em casa, ele merecia um pouco mais de atenção dela e isso foi uma coisa que apareceu. A gente sempre se pegava (no sentido de brigar) porque o Zé Geraldo é uma pessoa incrível, muito investigador, pensa e elabora muito. Ás vezes ele me irritava com isso. Essa irritação da Sandra com o Zé Geraldo acabou aparecendo no filme. Como ele é muito observador e eu também, em todos os depoimentos que dávamos nos ensaios, sempre usávamos um contra o outro. A gente se magoou e se conheceu profundamente, então a gente tem uma ligação muito forte porque nos mostramos muito e levamos muito também. A gente se abriu pro trabalho e, da maneira que nos abrimos, também levamos de volta.

Quais foram os reflexos que o prêmio em Cannes teve em seu trabalho no cinema?
Na verdade ainda não deu muito tempo para perceber. Claro que aconteceram muitas coisas, conheci muita gente bacana, tive encontros muito legais por causa do prêmio. Então, as pessoas têm me ligado bastante, convidando para eventos, cursos... Rendeu trabalhos bastante ligados ao teatro. Agora, convites pra fazer cinema ainda não teve, até porque as pessoas querem conferir o trabalho. Também recebi muitos convites pra fazer comerciais, mas delicadamente os recusei.

Por quê?
Acho que não combina. Não que eu despreze a publicidade, pode até ser que eu faça no futuro, mas, neste momento, não é o foco.

Leia também entrevista com os diretores Walter Salles e Daniela Thomas.

Leia entrevista com os atores do filme.