Sandra Werneck e Gisela Câmara

25/05/2009 17h40

Por Livia Brasil

A carioca Sandra Werneck descobriu seu interesse pelo cinema ainda na adolescência. Por causa das dificuldades que enfrentou, a cineasta percebeu que poderia ser um meio muito interessante para contar histórias e fugir da realidade. Essa "fuga" a levou para os documentários, sempre abordando temas sociais como os meninos de rua e o Esquadrão da Morte, em Guerra dos Meninos. Seu trabalho ficou conhecido por meio da ficção, em filmes como Amores Possíveis, Pequeno Dicionário Amoroso e, principalmente, Cazuza - O Tempo Não Pára. Agora, Sandra Werneck volta aos documentários com o longa-metragem Meninas e veio a São Paulo divulgar o filme ao lado da assistente de direção Gisela Câmara. O Cineclick aproveitou para fazer uma entrevista exclusiva com a cineasta e sua assistente.

Depois do sucesso de Cazuza - O Tempo Não Pára, como surgiu a idéia de voltar aos documentários?
Sandra - Acho que Cazuza foi uma produção enorme, senti falta da minha origem e queria voltar a fazer um filme mais intimista, voltar ao documentário. No momento daquela loucura da produção do Cazuza, o Lula foi eleito e achamos que era o momento ideal para colocarmos em prática os projetos sociais e, como nos meus antigos documentários, eu já focava esse assunto. Achei muito interessante falar sobre a maternidade e, principalmente, da maternidade precoce.

Como surgiu a idéia de fazer um documentário sobre adolescentes grávidas?
Sandra - Já falei sobre muitos temas, de prostituição infantil, de trabalho infantil. Guerra dos Meninos foi um filme visto pelo mundo inteiro, ganhou vários prêmios. Ele retrata a questão dos meninos de rua, do Esquadrão da Morte. Fiquei pensando: Meu Deus, onde será que está o começo de tudo isso? Por que essas meninas têm filhos tão cedo? O que é isso? Fiquei curiosa e foi essa idéia que me levou ao documentário. O que é a maternidade para uma menina que deveria estar brincando de boneca ou começando sua fase de adolescente que é tão importante na vida da gente? Eu queria responder essas perguntas.

No filme Meninas, como foi acompanhar as adolescentes durante um ano?
Sandra - Foi ótimo. A Gisela teve um papel fundamental nisso. Ela foi meio que analista das meninas, pois tudo que acontecia, a cada dia, as meninas ligavam pra ela: "Olha, hoje minha mãe não quer me dar o celular ou hoje eu estou com TPM". Então, isso é que acho legal. Porque o filme passa essa intimidade, mostra essa ligação. Aos poucos, elas vão ficando íntimas da câmera. Foi sensacional acompanhar esse dia-a-dia.
Gisela - Primeiro entrávamos em contato com alguém da família, explicávamos como seria o documentário e as filmagens. Todo mundo teria de estar de acordo. Se uma não quisesse já partíamos para outra, não queríamos ter problema. Eu ia pra casa das meninas com uma pequena câmera, mostrava como era sua vida, onde morava e toda a sua rotina.

Vocês se surpreenderam com o depoimento ou alguma história em particular?
Sandra - Acredito que num documentário a gente está sempre se surpreendendo. Por exemplo, eu me surpreendi quando a Evelyn falou que, quando tem tiroteio na Rocinha, ela dança. Para ela, se não olharmos com nossos olhos, veremos que realmente não é nada demais. Ela vive aquilo todo dia, é a banalização da violência.
Gisela - Todos os depoimentos foram muito enriquecedores para mim, mas algumas histórias me surpreenderam. Mas, quando a Evelyn me contou que apanhava do namorado, do pai do filho dela, isso achei que era demais. Ela tem 13 anos, grávida, apanha do namorado e lida com isso de uma forma natural. Ela sempre viu isso acontecendo na sua casa. A mãe apanhava do marido, a avó tem um olho caído por causa de uma surra que levou. Ou seja, essa repetição de mulheres que apanham tornam tudo isso normal. Isso me chocou muito.

Como as meninas foram escolhidas?
Sandra - A gente entrevistou cem meninas e acabou escolhendo no Rio, por causa da facilidade pra acompanhar o cotidiano dessas meninas. Às vezes, a Gisela ia para lá e não filmava nada, só conversava com as meninas. Enfim, claro que poderiam ser outras milhões de meninas, mas também seriam outros filmes. Se fosse uma menina de Fortaleza, poderia até ter uma história mais interessante, mas, talvez se não pudéssemos acompanhar tão de perto, perderíamos muita coisa.
Gisela - Esse processo foi muito longo e trabalhoso, mas foi muito legal também. O filme se fez durante a pesquisa. Procuramos ajuda em ONGs, hospitais públicos e particulares, escolas e outras lugares, além de pessoas que tinham contato direto com as meninas.

Qual tipo de repercussão vocês esperam do público? Pretendem atingir alguém com essa mensagem?
Sandra - Além do filme tratar sobre a gravidez na adolescência, ele aborda o assunto da adolescência propriamente dita. Apesar dele mostrar uma classe social menos favorecida, acho que, como o filme está na voz das meninas, os adolescentes vão gostar desse filme, de alguma maneira vão se identificar. A gente pretende usar isso como um instrumento de debate na sociedade, de reflexão.
Gisela - Espero que ele gere vários debates sobre o tema. Levantar várias questões. Aproveitem o filme para se aprofundar no debate da gravidez na adolescência, pois, na verdade, isso é muito mais complicado do que apenas aprender a usar camisinha.

Qual é a importância do cinema na educação social?
Sandra - Eu acho um trabalho importante. O cinema tem uma linguagem que aproxima o público de uma questão e, às vezes, essas questões são essenciais para uma sociedade. Tanto politicamente, como socialmente e culturalmente. Cinema é uma sala escura onde se cria uma intimidade com a imagem, fazendo pensar.
Gisela - Eu não espero que o cinema seja o causador de uma revolução, mas acredito que seja um instrumento de mudança, nem que seja apenas em um único telespectador. Isso será um passo grande. Sou otimista e acredito no efeito "formiguinha", no qual aos poucos, de um em um, conseguiremos uma grande mudança.

Quais são seus próximos projetos?
Sandra - Acabei de comprar os direitos de um livro chamado Meninas na Esquina, da Eliane Trindade, que é sobre meninas também, mas é diferente. Mostra o diário de três adolescentes. O tema aborda prostituição e assédio sexual, mas é um filme que acaba abordando outras questões como namoro, futuro, gravidez, a falta de dinheiro. Envolve muito essa questão econômica de como as meninas vivem e conseguem sobreviver de alguma forma. Com alegria e contradições, numa sociedade como a nossa.
Gisela - Estou trabalhando num projeto meu. Um documentário sobre os meus avós, de origem alemã que moravam no sul do Brasil e se mudaram para a Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Fazendo o caminho inverso. Essa história é cheia de curiosidades.