EXCLUSIVO: Cineclick entrevista Sasha Grey

Conversamos com a atriz pornô que está no novo filme de Soderbergh

22/06/2009 17h40

Por Heitor Augusto

Caro leitor, você precisa conhecer Sasha Grey, a garota que cresceu em North Highlands, bairro classe média de Sacramento, capital da Califórnia, leste dos Estados Unidos. "Ousada" é uma palavra justa para defini-la. Em uma indústria pornô que lança cerca de 13 mil DVDs por ano, ela é uma personagem ímpar. Não por causa de sua beleza estonteante - 1,71 metro, peso não revelado -, mas pela falta de, digamos, limite nos tipos de filme que ela estrela. Nas próprias palavras de Sasha, que conversou com com o Cineclick por e-mail, “faço coisas impublicáveis”. Estudou teatro na adolescência, participou de projetos independentes e resolveu entrar na indústria adulta em outubro de 2005, aos 17 anos. Teve de esperar até maio do ano seguinte.

As atitudes e ideias da garota de 21 anos não podem ser enquadradas no padrão “atriz pornô com nada na cabeça”. Aos 15 anos ela descobriu Antonioni, Herzog, Lars von Trier e Godard - tanto que seu primeiro nome artístico foi Anna Karina. Lê Burroughs, Hunter Tompson e ouve Joy Division e Smashing Pumpkins, para o qual participou do videoclipe Superchrist.

Após criar polêmica ao topar tudo, exceto escatologia, na indústria pornô, Sasha dá um passo coerente com sua filosofia de vida: desafiar o status quo. A atriz é simplesmente a protagonista de Confissões de Uma Garota de Programa, o novo longa de Steven Soderbergh (Che). No filme, ela interpreta Chelsea, uma prostitua de luxo que cobra bem caro por cada programa.

Nesta entrevista, Sasha Grey conta sobre a experiência de ser dirigida por Soderbergh, seus objetivos de vida e a diferença entre atuar em um filme “adulto” e um “convencional”.

Antes de você entrar na indústria de filmes adultos, você estudou teatro e teve alguns papeis em filmes experimentais. Esses trabalhos influenciaram seus filmes pornôs?
Na verdade, não. É muito raro ter a oportunidade de "atuar" em filmes adultos e eu acho que essa é uma das razões que explica porque o mercado está saturado de porcaria.

Muito se falou da sua escolha para o filme, mas sobre a sinopse não foi divulgado nada mais que sobre uma "prostituta de luxo que arrecada milhares de dólares por noite". Você poderia falar mais?
Se quiser saber mais, vai ter de ver o filme [risos].

Como é ser dirigida por Soderberg, vencedor do Oscar e conhecido pela diversidade de estilos, como Che e Traffic?
Foi uma experiência fascinante. Steven é um dos poucos que verdadeiramente desafiam o cinema contemporâneo norte-americano e dá ao espectador um filme brilhante.

Durante as filmagens de Confissões de uma Garota de Programa, houve algo que Soderbergh propôs e você pensou "eu não gostaria de fazer isso"? E como ele lidou com as cenas de sexo?
Nem se quer uma vez. E você tem de ver o filme para sacar como o sexo funciona na história.

No Brasil, temos uma atriz, Leila Lopes, que foi popular em novelas no início dos anos 90 que migrou para filmes pornográficos. Certa vez ela declarou que não via muita diferença entre os estilos porque em ambos estaria atuando. Você compartilha essa opinião?
Você está interpretando seja em um filme adulto ou não, para mim é tudo arte... Mas eles são produzidos, rodados e recebidos de maneiras bem diferentes. É como a diferença entre teatro e cinema: em ambos, há atores interpretando, porém eles exigem outros estilos, energias e execução.

Na sua página no My Space você colocou que entre seus diretores preferidos estão Godard e Bertolucci. Quando você os descobriu? Qual elemento no cinema deles que a atrai?
Foi quando eu tinha uns 15 anos. Cara, é Godard... Acho que não há muito para elaborar a respeito. Ou você capta, ou não [risos].

Já que você citou Godard, aí vai uma comparação com Anna Karina em Uma Mulher é uma Mulher. No ramo do pornô, você é muito transgressora e parece dominar todos os homens em cena, estando sempre à frente deles. Talvez como Karina, que flutua diante da figura masculina. Associação maluca?
Pra mim, um elogio e tanto [risos].

Para encerrar, você já ganhou muito dinheiro, venceu um AVN Award, o Oscar do cinema pornô, e também trabalhou com um diretor respeitado. Há mais alguma coisa pela qual você espera?
Eu gostaria de diversificar meu leque de possibilidades e talentos, e também desafiar o status quo!