Sérgio Machado (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

Nascido na cidade de Salvador em 1968, Sergio Machado começou a trabalhar no cinema há 12 anos na direção do premiado curta-metragem Troca de Cabeças. A partir de então, realizou documentários em vídeo e, em 1996, passou a trabalhar com Walter Salles como assistente de direção de produções como Central do Brasil e O Primeiro Dia. Em 2001, dirigiu o documentário Onde a Terra Acaba, que lhe rendeu 15 prêmios em festivais nacionais e internacionais.

Cidade Baixa é seu primeiro longa-metragem de ficção e lhe consumiu, somente durante a pré-produção, três anos, dedicados a pesquisas de campo. Premiado no Festival de Cannes 2005, o filme passou por festivais nacionais e internacionais e chega nos cinemas brasileiros acompanhado de elogios e expectativa por parte dos espectadores. Calmo e visivelmente apaixonado por esse projeto do qual falava, Machado conversou com o Cineclick sobre este trabalho:

Como aconteceu a escolha dos atores de Cidade Baixa?
No início, tinha uma grande convicção de fazer um triângulo amoroso com três atores negros. Afinal, eu estava falando do bairro Cidade Baixa, de Salvador, onde 80% da população é negra. Na Cidade Baixa é mais ainda. Então, era natural partir de três atores negros. Também estava muito impressionado com o trabalho de preparação de atores feito em Cidade de Deus.

Foi aí que você conheceu o trabalho da Fátima Toledo?
Não, eu já a conhecia por causa de Central do Brasil (o qual Sérgio foi assistente de direção), ela preparou o Vinícius e acompanhei muito o trabalho dela nesse processo. A primeira pessoa que convidei foi o Lázaro (Ramos, ator), que já conhecia há muito tempo. Inclusive, fui eu quem o recomendou ao Karim (Ainouz, diretor) para Madame Satã. A gente escrevia o roteiro juntos, eu e o Karim, e voltávamos ao Rio para fazer umas leituras. Na verdade, isso é uma coisa que funciona em todos os projetos da Videofilmes desde Terra Estrangeira. Todo mundo vai a essas leituras, o Waltinho (Walter Salles), o João (Moreira Salles, diretor), Daniela Thomas, Eduardo Coutinho, Karim... Todo mundo se intromete muito no projeto do outro de uma forma bem saudável. Então, sempre que acontecem essas leituras a gente convida pessoas que não estão no processo. Numa dessas convidei o Wagner (Moura, ator), que era meu amigo de Salvador. Não pensando nele para o filme. E ele leu muito bem.

Nessa época você não tinha ainda os outros atores?
Nem imaginava! Mesmo com ele lendo tão bem não mudei de idéia. O que acabou acontecendo, para minha sorte, foi que duas semanas depois foi o aniversário do Lázaro e, no meio da festa, ele fez uma declaração de amor pro Wagner. Disse algo assim: "queria pedir a palavra para dizer uma coisa superimportante para mim. Eu amo esse cara (Wagner) muito." Aí o Lázaro contou um pouco da trajetória dos dois, o quanto eles penaram para começar na carreira, das dificuldades nos teatros da Bahia até começarem a fazer sucessos juntos. Eles se abraçaram, choraram juntos... Foi quando pensei que fazer um filme sobre dois melhores amigos com dois melhores amigos era uma tentação, ainda mais porque eu queria buscar emoções genuínas. Foi quando escolhi o Wagner. Bem depois, quando já tínhamos começado a ensaiar com os dois, fizemos mais de mil testes para encontrar a Karinna. Qualquer atriz dessa geração que você se lembrar deve ter feito o teste. A gente convidava pessoas interessantes que víamos em porta de shoppings, na praia, para fazer o teste. E eu nunca tinha a convicção de ter achado a garota ideal. Uma hora, a Fátima falou que eu precisava tomar uma decisão logo porque, quem quer que fosse a escolhida, ela ainda tinha de ser preparada. A gente resolveu arriscar na Alice, que ela já conhecia de Cidade de Deus. Se desse certo, ótimo, se não a gente estava disposto a atrasar mais ainda as filmagens para continuar procurando.

Eu não conhecia a Alice pessoalmente. Falei com ela ao telefone e ela topou na hora. Eu fui buscá-la no aeroporto e, quando ela chegou, estava muito assustada. Era um papel de um grau de complexidade grande, uma curva dramática difícil e sofisticada, que exige um grau de disposição muito grande. Para uma garota de pouco mais de 20 anos não é nada fácil. Mas eu lembro de ter dito: "segura minha mão, vamos pular juntos. Pode fechar os olhos que eu garanto que ninguém vai te machucar." O que aconteceu foi que a equipe inteira acolheu a Alice e a protegeu o tempo inteiro. E ela veio com uma coragem impressionante. Valeu a pena porque há dez dias ela ganhou um prêmio de Melhor Atriz (no Festival do Rio) no primeiro projeto no qual ela é protagonista, concorrendo com grandes atrizes.

O Lázaro e o Wagner já eram melhores amigos antes do filme. Como foi a inserção da Alice nesse triângulo?
O engraçado é que essa situação reproduz a do filme. Os dois eram amigos e ela chega de uma hora para outra. Eles foram muitos generosos. Ela mal chegou e o Wagner já a abraçou, já dizendo que ela era a Karinna deles. O que também favoreceu é que o clima nas filmagens estava totalmente excepcional. Todo mundo estava felizão, acreditando muito no projeto. A entrada dela não foi difícil e esse trabalho da Fátima criou o tempo inteiro exercícios para cultivar essa intimidade.

Durante a pré-produção de Cidade Baixa você fez um extenso processo de pesquisa. Durante esse período você entrou algumas pessoas, ou passou por situações cruciais para o filme?
Na verdade, encontrar as pessoas foi definitivo. Não que a história de alguém que conheci esteja no filme, mas para entender o clima foi muito importante. Durante três meses, fui todas as noites para boates, ou pro cais do porto. Sentava, bebia... Muito do filme é colagem de coisas que vivi. A base da história já estava toda no papel, mas esses pequenos contatos foram trazendo vida. Afinal, eu estava tentando entender esse universo e a conclusão que cheguei foi justamente a idéia de reforçar minha crença de que as pessoas são muito iguais. Lembro que quando estava em boates, eu tratava as prostitutas com respeito, como trato a mulher do meu melhor amigo. Isso acabou criando um certo vínculo. Eu lembro que elas sempre me protegiam, não me deixavam beber uísque falsificado, faziam questão de me levar no carro... Criei um vínculo realmente muito forte de amizade com elas. Foi quando confirmei minhas impressões de que gente, quando você tá muito próximo, é tudo igual.

Você esperava que ia ser assim essa experiência?
Não. Eu acreditava que ia ser assim, mas foi mais legal do que imaginava. Esse contato reforçou a idéia que eu já, mas foi melhor.

A primeira grande exibição de Cidade Baixa foi no Festival de Cannes. Você notou alguma diferença da recepção do público em comparação ao brasileiro?
Tudo aconteceu muito rápido porque Cidade Baixa foi o último filme a chegar em Cannes, mandamos a cópia pouco antes dele ser exibido. Na véspera, um dia antes de embarcamos, a Adriana insistiu para que fizéssemos uma sessão para jovens da periferia de Salvador só para sentirmos qual era a cara do filme. Ela convidou jovens do grupo AfroReggae, Nós do Morro... Uma moçada de 18, 19 anos. Confesso que estava de má vontade porque era na véspera da viagem, tinha tantas coisas a fazer... Apresentei a sessão, desci para fazer um lanche e lá fora eu já sentia as risadas, o burburinho grande. Foi uma das sessões de cinema mais emocionantes que já vi. Fiquei emocionado porque eu não esperava aquilo e, quando terminou, foi uma loucura: todo mundo queria falar. Foi quando intuí que p canal do filme é com o público mais jovem, ou de espírito jovem. As pessoas se sentiram representadas, fiquei muito impressionado, foi a primeira grande descoberta. No dia seguinte, fomos para Cannes. Chegamos à noite, a sessão foi na manhã do dia seguinte e foi fabulosa. O filme foi ovacionado, foram marcadas sessões extras, e, terminada a sessão, a gente via que o público predominante era jovem. A gente andava sempre cercados por uma turma de 20 e poucos anos. Mais do que a fronteira geográfica, a maior que a gente enfrentou foi com essa coisa de idade. Todas as sessões a gente via isso.

Uma coisa engraçada é que, por causa dessa coisa de ter sido exibido em Cannes, ele tem um sales agent internacional (profissional responsável pela venda do filme em outros países). O filme foi muito vendido para o exterior. Ela brincou que, quando vinha um jovem executivo falar com eles, já começavam a preparar o contrato porque sabiam que o cara estava a fim de comprar. Por falar da sexualidade de uma forma muito franca, é muito universal. Além dessa recepção toda, ganhamos um prêmio concedido por jovens de todos os cantos da Europa em um ano cuja seleção de filmes estava bastante forte com Lars Von Trier, Gus Van Sant, o que só provou que, nesse nicho, estamos bem defendidos. Aí, depois, no Festival do Rio tivemos essa mesma impressão. Então, a trajetória do filme até agora tá bem bacana.

Agora estou tentando descobrir maneiras novas de conversar com esse público. Estou numa maratona, quase uma turnê de rock, de conversas pelo Brasil. Por baixo, já devo ter conversado com seis mil pessoais. Em Salvador, fizemos grandes exibições, às vezes até quatro por dia. O processo todo foi muito intenso, atípico, então o making of costuma emocionar muito, também. Essa grande descoberta que fizemos sobre o viés fortíssimo de comunicação com a moçada é gozada.

Para quais países o filme já foi vendido?
Ah, são muitos... Além dos mercados principais - EUA, França, Inglaterra -, foi vendido para Cingapura, Luxemburgo... Já fomos convidados para 40 festivais, vou agora para Londres, além de outras cidades do Brasil. Vai ser uma maratona gigantesca, é tanta coisa que eu não sei de cabeça.

Você pensa em estender sua carreira a outros países, como acontece com Fernando Meirelles e Walter Salles, por exemplo?
Depois da recepção que Cidade Baixa teve em Cannes, é natural ser bombardeado com convites e propostas de todos os países. Todas as cidades aonde você vai tem agentes querendo conversar. Evidentemente, esses convites são muito tentadores, especialmente na questão financeira. Estou com um filho de um ano e tenho de pensar nisso. Para mim, o melhor caminho é fazer pelo menos mais um filme ou dois no Brasil, é diferente do Fernando Meirelles, que já tem estrada, já está mais tempo, tem todo um caminho de publicidade... Estou falando com agentes, o que é muito bacana. Na Inglaterra, particularmente. E a mesma quantidade de entrevistas que estou dando em português, dou em inglês.

Depois dessa maratona toda você já tem algum projeto em mente?
Já. Quero aproveitar tudo isso e, depois, fazer um filme inspirado num assalto acontecido na década de 80. Já estou trabalhando nele.

Mesma equipe?
Sim, a não ser que alguém já tenha algum compromisso. Minha tendência naturalíssima é continuar com essa equipe maravilhosa que juntei. Quando comecei a juntar a equipe, era fundamentar um bom astral. Eu queria me divertir, fazer um trabalho com amigos. Quando me indicavam amigos, seu sempre perguntava se a pessoa tinha bom humor, gostava de dançar... Parecia que eu queria me casar com a pessoa. Mas foi um pouco como um casamento. Tinha essa sensação de querer ter um ambiente tão bom astral que se tivesse uma laranja estragada, o resto seria estragado. Claro que eu tenha dado um pouco de sorte por ter sido tão legal, mas foi uma coisa muito pensada, desejada.