Sérgio Rezende (Zuzu Angel)

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

O cineasta Sérgio Rezende é conhecido especialmente por suas produções que retratam personagens da história brasileira. Dizendo-se apaixonado pelos aventureiros da história, o carioca estreou na direção de um longa-metragem em 1980, com o documentário Até A Última Gota. Seis anos depois, dirigiu O Homem da Capa Preta, um de seus trabalhos mais aclamados. Foi nessa época que Rezende começou a mostrar figuras reais brasileiras. Em 1994, dirigiu Lamarca, sobre o militante que ameaçou a ditadura militar nos anos 70, e, três anos depois, Guerra de Canudos, também sobre um homem que lutou contra a política vigente. Zuzu Angel é seu 11º longa-metragem e, sobre ele, Sergio Rezende conversou com um grupo pequeno de jornalistas.

O projeto de Zuzu Angel existe desde os anos 80. Quando você foi chamado para dirigi-lo?
Dois anos atrás. Quando fizemos (Rezende e o produtor Joaquim Vaz de Carvalho) Mauá: O Imperador e o Rei, promovemos uma sessão que contou com a presença da Hildegard (Angel, filha de Zuzu) e ela gostou muito do filme. Aquela foi a primeira produção que fiz com o Joaquim, mas somos amigos há muitos anos. Conversando, chegamos a falar sobre fazer um filme sobre a Zuzu, mas o assunto morreu. Em 2004, o Joaquim me procurou para retomarmos esse projeto. E, quando me tiram para dançar, caio no salão. Foi quando começamos a pensar seriamente sobre o assunto. A Warner entrou no projeto e definimos Marcos Bernstein para escrever o roteiro. Ficamos alguns meses pesquisando e trabalhei de julho a dezembro de 2004 no roteiro.

Como foi a preparação dos atores?
Ensaiamos bastante. Na verdade, o que fizemos não foi necessariamente ensaiar porque isso é precário no Brasil. Vejo making ofs de filmes americanos e os caras ensaiam mesmo, no set já pronto. Essa é uma das coisas que temos de melhorar aqui. Mas a gente trabalhou bastante. Mais ou menos 90% das cenas do filme têm a Patrícia (Pillar) ou são em torno dela. Por isso, todos os dias nós dois trabalhávamos, revezando com os atores. Esse grande ensaio foi fora do set, antes de entrar a equipe. A leitura do roteiro, todos juntos, foi maravilhosa, porque muitas vezes os atores não contracenam. Por exemplo, se não tivéssemos feito essa leitura, a Luana (Piovani) nunca se encontraria com o Daniel (de Oliveira), já que eles não contracenam.

Não me preocupei com a falta de semelhança física dos atores com os personagens reais. A Patrícia é mil vezes mais bonita que a Zuzu Angel foi. É diferente do que aconteceu com o Daniel de Oliveira em Cazuza - O Tempo Não Pára. Ele teve de correr atrás pra ficar igual ao Cazuza porque ele era uma figura pública, o que não é tão necessário no caso de Zuzu Angel. A Patrícia pegou a alma da Zuzu.

Como funcionou essa preocupação na caracterização da Zuzu nos dois momentos do filme, antes e depois do desaparecimento do filho?
Os detalhes fazem o que interessa, mas há mil questões pequenas que constroem o filme. Por exemplo, o figurino da Patrícia começa com cores fortes para chegar no preto. A maquiagem também evolui durante o filme: a Patrícia chegava três ou quatro horas antes de todos para fazer aquela maquiagem. É todo um esforço na construção.

É o segundo filme sobre a história recente brasileira que você faz. O que foi mais interessante neste trabalho em relação a Lamarca?
Existe um distanciamento maior em relação àquela época. Lamarca tem 12 anos. Essa questão política e ideológica ainda estava muito quente naquele momento. Mais de uma década depois, essa questão política está mais sedimentada. Já caiu o Muro de Berlim, a ditadura do proletariado que o Stuart (Angel) defendia não funciona mais.

Apesar de Lamarca e Zuzu Angel terem o mesmo contexto político, você acha que o público atraído por ambos os filmes é diferente?
A história de Zuzu Angel é maior do que aquele tempo. Não que ela seja mais importante, mas ultrapassa o tempo, tornando-se universal.

Como você pensou nas cenas de tortura?
O bloco da tortura é uma das coisas que me dão mais prazer, cinematograficamente, porque ficou bacana. Grande parte daquele bloco é feito sem foco. Isso porque a Zuzu não viu aquilo, ela não é testemunha, nem foi torturada. Construí aquela cena pensando no horror se passando na cabeça de uma mãe enquanto imaginava a tortura de seu filho. Adoro quando ela está atrás da cortina, enlouquecendo enquanto lê a carta sobre Stuart.

Como foi conciliar o fato de Zuzu Angel ser uma cinebiografia à estrutura de thriller dada ao filme?
Esta não é uma cinebiografia "certinha". Não é mostrada a infância de Zuzu, nem o casamento com o pai do seu filho. O filme é um thriller por ser sobre sua busca, já começa mostrando o medo que Zuzu tem de morrer. O espectador não se surpreende com a morte dela, mas se interessa pela forma como acontece. Alguns elementos do filme são pura ficção, como o ex-militar que coleta um dossiê sobre as torturas. Mas é baseado numa coisa real. Tem um livro, Eu, Zuzu Angel, Procuro Meu Filho, escrito por uma irmã dela, Virginia Valli, no qual há um depoimento da mãe da Lucia Murat (diretora de Quase Dois Irmãos) que ficou amiga de Zuzu porque a filha dela também foi presa na mesma época que o Stuart. Nesse depoimento, ela conta que Zuzu havia revelado ter montado um dossiê que levaria à Europa. Nos documentos, ela aponta não somente os militares envolvidos nas torturas, mas também os civis que financiaram a ditadura. Isso está no livro. Essa passagem foi idealizada em torno desse dossiê que a Antonina Murat disse que a Zuzu fez. Para mim, não fazia sentido matarem a Zuzu, cinco anos depois da morte de Stuart, de graça.