Silvia Lourenço (Exclusivo)

02/10/2009 17h51

Por Angélica Bito

Silvia Lourenço e Roberto Moreira têm uma antiga história: em 2004, estrearam juntos no cinema em Contra Todos; ele como diretor, ela como atriz. A parceria se repete em Quanto Dura o Amor?, também ambientado em São Paulo, mas completamente diferente do longa produzido há cinco anos.

Pela estreia no cinema, Silvia ganhou nove prêmios, inclusive o de Melhor Atriz no Festival do Rio daquele ano. Durante este meio-tempo, a atriz atuou na série de TV Alice, no longa Não Por Acaso e viveu uma perturbadora drogada em O Cheiro do Ralo. Ela conta ao Cineclick como foi viver uma menina do interior em seu mais novo trabalho:

Esta foi a primeira vez que você colaborou com o roteiro de um longa. O que te levou a se enveredar também a esta parte do processo cinematográfico?
Fiz Letras, mas não me formei porque naquela época comecei a me envolver com teatro, com atuação, e acabei deixando de lado a faculdade. Mas, na minha formação, tive muito contato com desenvolvimento da dramaturgia. Trabalhei quase cinco anos com o Antunes Filho e nosso treinamento cotidiano, como atores, incluía a realização de cenas que pudéssemos criar e propor para ele. Que existe até hoje, aliás, é o projeto Prêt-à-Porter. A gente tinha como treinamento fazer uma cena por semana durante dois anos. Isso deu pra mim uma obrigação de pensar no movimento dramatúrgico. Com certeza, veio do Antunes que veio minha formação e meu gosto pela dramaturgia. Sempre curti essa coisa do trabalho autoral. Não gosto de chegar no set, ver meu texto, minha marca, fazer e ir embora. Me dá agonia não poder participar de tudo. Claro que tem trabalhos que isso não é possível, mas acho mais gostoso quando dá pra participar mais.

E o Roberto [Moreira, diretor] é um cineasta que está sempre aberto a isso.
Muito! O Roberto tem muito prazer de trabalhar com ator-criador, como o Antunes gostava de chamar. Não só casou com minha formação como me estimulou a aprender mais. O Roberto e a Geórgia colocaram o cinema em minha vida. Inclusive, depois de Contra Todos, passei a trabalhar com outras produtoras. Mudou o percurso da minha vida profissional mesmo.

Contra Todos foi seu primeiro filme...
Na verdade, fiz uma participação em Bicho de Sete Cabeças que nem entrou na montagem final, foi a primeira vez que pisei num set. Mas foi uma participação, então não dá para dizer que tenha conseguido tanta experiência. Foi só um gostinho mesmo. Considero Contra Todos meu primeiro filme mesmo.

Você é paulistana, bem diferente da Marina, uma menina do interior que se encanta com a cidade. Fazer o filme te levou a ver a cidade de outra forma?
Na época do filme, uma coisa que facilitou muito minha vida foi a Maria Clara [Spinelli, atriz] ter ficado na minha casa. Ela tem um jeito muito típico de quem não é daqui, de olhar para a cidade, ficar encantada... Passei três meses observando bastante ela, estávamos vivendo o exato oposto do que acontece no filme: moro em São Paulo, sou atriz há mais de dez anos, enquanto a Maria Clara estava fazendo cinema pela primeira vez e é do interior.

O fato de você estar envolvida com o filme desde o começo também ajudou na construção desse olhar?
Com certeza. Um exercício que eu fazia muito com o [Sérgio] Penna, preparador do elenco, era justamente esse: olhar para as coisas que conheço, principalmente esta região da Paulista, Consolação e Jardins – região onde moro e onde filmamos -, como se fosse a primeira vez. Como não era, tinha de brincar de descobrir coisas que nunca reparei. A gente fica com o olhar amortecido, anestesiado. Provavelmente, uma pessoa que andar pela primeira vez num trajeto que você percorre todos os dias vai ver coisas que você nunca verá.

O que, por exemplo, você descobriu nesse exercício?
Sabe aquela passagem que tem sob a Consolação, ao lado do HSBC Belas Artes? Ali, na entrada, tinha uma colagem na parede de vários quadrinhos antigos e nunca havia reparado! Sempre andei olhando pra baixo, pro degrau, nunca olhando para a parede! Nunca havia parado para olhar a parede, que tem uns cartazes lindos! Sempre tem exposições legais lá embaixo, de figurinos, artes plásticas, e não havia parado para ver aquilo. A própria Paulista mesmo, os prédios, as construções... É uma coisa tão natural pra gente que nem olhamos, mas para quem não conhece sempre é interessante.

Sua personagem dialoga muito com a música. Você chegou a participar da escolha da trilha sonora?
Quando pintou a ideia de colocar uma música do Radiohead, fui uma das primeiras a concordar porque sou muito fã da banda e acho muito bacana sair desse estereótipo de “menina do interior”. As pessoas que moram no interior conhecem as mesmas coisas de quem mora em São Paulo, tendo internet em casa e a possibilidade de acessar qualquer site de música ou vídeo. Acho bacana isso, a Marina, embora não seja uma menina cosmopolita, gosta de músicas e bandas bacanas. Porque sempre tem essa coisa de uma trilha sonora marcar uma etapa da sua vida. Tem uma cena a qual acho até que caiu do filme. A Marina desce para a rua quando o celular toca, para falar pelo celular, e a Justine começa a cantar High and Dry lá dentro, a Marina desliga o telefone na cara do rapaz e corre pra ver a Justine cantar a música favorita dela. Isso é uma coisa que todo mundo tem, principalmente quando é jovem, uma música que embalou um romance, algum momento específico de sua vida. A Marina está num momento em que as questões são emblemáticas. Provavelmente, High and Dry será a música deste momento. Mas música é muito importante até quando a gente ta no set, eu tenho um iPod que não sai da minha orelha, é bom para se concentrar porque a gente espera muito em cinema. Cansa esperar.

Qual era sua trilha sonora no set de Quanto Dura o Amor??
É a versão que a Fernanda Takai fez para a música Diz Que Fui Por Aí, da Nara Leão.

Você tem muitas cenas intensas com a Danni Carlos, estreante no cinema. Como foi?
Eu estava mais tensa do que ela, mais preocupada, pensando se seria legal, se ela ia se sentir bem... Já que ela é cantora, tem menos experiência do que eu como atriz e com cinema também, queria que ela ficasse à vontade. No fim, ela que falava para eu relaxar, estava mais à vontade do que eu! Mas a Danni é super disciplinada, muito bacana, uma pessoa generosa para trabalhar, ótimo astral em set, adoro trabalhar com gente de bom humor.

Contra Todos é super diferente de Quanto Dura o Amor?. Fale um pouco sobre como você se sentiu nesses dois trabalhos.
O primeiro, embora tenha tido muito prazer, teve a questão da descoberta. Ao mesmo tempo em que me apaixonei Soninha, achei o papel desafiador demais, exigia uma pesquisa de caracterização profunda demais, tinha um desespero por ser minha primeira vez. Então, não consegui estar no set curtindo aquilo tudo. Tinha tanto medo de errar, de não saber como conduzir a personagem, como me portar no set... Para mim era tudo tão desafiador que foi duro de curtir. Este filme não. Não posso dizer que foi só prazer porque tem muito trabalho também e sempre há uma tensão. Mas agora consegui curtir e a Marina é uma pessoa doce, é uma pessoa mais prazerosa de fazer nesse sentido. Gosto da comédia também, da leveza. Chegava em casa muito mais leve e isso foi gostoso também, vinha de experiências em cinema muito pesadas, também em O Cheiro do Ralo, é claro que é massacrante.

Aliás, seu papel em O Cheiro do Ralo era mais complicado ainda...
De maneiras diferentes, foram dois personagens que exigiram muito, emocional e fisicamente. Então, quando cheguei aqui [em Quanto Dura o Amor?] foi uma delícia, só prazer. A marina tinha uma r de sofrimento, mas é uma personagem que não sabe das próprias dificuldades, ingênua.

Tanto que ela termina um namoro muito facilmente...
Sim, porque ela é jovem, olha para frente, não olha mais para trás. Quando você tem 23, 24 anos, a gente olha para frente, as coisas fazem e se desfazem com muito mais facilidade, a gente não tem tanto apego por ter menos história de vida para se apegar.

Muita coisa foi tirada do filme na ilha de edição. Tem alguma cena que te doeu mais ver fora da montagem final?
Acho que não, tudo que entrou foi absolutamente bem encaixado e este é o mérito da Mirella [Martinelli, montadora], do Roberto, fazendo um trabalho que considero insano, imagine montar um quebra-cabeça humano? É muito complicado. E a dor no coração e tirar uma cena e colocar outra... Por que todo mundo que filmou cenas e não ficou no final estava muito bem, a Maria Alice Vergueiro, que é uma atriz maravilhosa... A questão não é o desempenho, mas é que não cabia na história, você tem de definir que história quer contar. Agora, cabe a eles esse trabalho árduo fazer esse quebra-cabeça funcionar. Tinha uma sequência da Marina andando na Paulista chorando que eu achava linda, mas era uma firula, para criar clima.

Também conversamos com a atriz Maria Clara Spinelli e com o diretor do longa, Roberto Moreira.