Silvio Da-Rin (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Celso Sabadin

Silvio Da-Rin, diretor do empolgante documentário Hércules 56, conversou com exclusividade com o crítico do Cineclick sobre sua estréia na direção de longas-metragens. Confira:

Considerando que seu documentário anterior, A Igreja da Libertação, tem menos de 60 minutos, tecnicamente Hércules 56 é o seu primeiro longa. Quais os motivos que o levaram a escolher este tema para esta sua "estréia"?
Este tema concerne diretamente à minha vida e à memória da minha geração. Sempre me incomodou a representação dos revolucionários dos anos 1960 nos filmes de ficção feitos até então, com raras e honrosas exceções. Decidi realizar um documentário abordando a luta armada contra o regime militar baseado no relato daqueles que empenharam suas vidas. Em busca de uma história para contar, optei pela ação armada de maior repercussão daquele período: o seqüestro de Charles Elbrick, em 4 de setembro de 1969, durante a Semana da Pátria. Quando ocorreu o seqüestro, eu era militante de outra organização, a Vanguarda Armada Revolucionária - VAR Palmares. Minha prisão se deu em 16 de outubro de 1969, cinco semanas depois da ação.

Por que Fernando Gabeira não está no filme?
O filme já tem uma grande quantidade de personagens e sua escolha foi ao mesmo tempo criteriosa e muito fácil. Os protagonistas são os quinze presos levados ao México no avião Hércules da FAB, prefixo 56. Todos os nove sobreviventes foram entrevistados individualmente; os seis já falecidos comparecem por meio de materiais de arquivo.
Para contemplar o seqüestro propriamente dito, achei importante promover a reunião de alguns participantes da operação. Mas não estava interessado em reconstruir o rapto como um thriller. Meu objetivo era fundamentalmente político: as motivações da ação, o momento em que foi realizada, a expectativa da reação do governo e, principalmente, como aqueles que o executaram hoje em dia reconsideram as conseqüências políticas do ato. Inicialmente, procurei Franklin Martins, Claudio Torres e Daniel Aarão Reis, os três membros da Direção da Dissidência da Guanabara (DI-GB) - organização que idealizou o rapto e assumiu, na ocasião, a sigla MR-8. Os dois primeiros participaram da operação de captura do embaixador.

Em um segundo momento, me convenci de que seria indispensável incluir na reunião representantes da Ação Libertadora Nacional (ALN) - organização convidada a participar conjuntamente da ação. A ALN contribuiu com armamento e quatro militantes. Dois deles haviam sido mortos pela repressão: Virgílio Gomes da Silva, o Jonas, e Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo. Os remanescentes foram convidados e também aceitaram participar: Manoel Cyrillo e Paulo de Tarso Venceslau. Alguns sequer se conheciam e outros não se viam desde o momento da libertação do embaixador. Foi um encontro empolgante, que proporcionou importantes revelações.

Eu certamente poderia ter incluído outros participantes destacados da captura do embaixador, como João Lopes Salgado e Cid Benjamin. Também poderia ter convidado a Vera Silvia Magalhães. Mas, um número maior de pessoas acabaria criando uma espécie de assembléia, com disputa pela palavra e várias pessoas falando ao mesmo tempo. Acho que o resultado para o filme não teria sido tão bom.

Por outro lado, não haveria nenhuma justificativa consistente para convidar Fernando Gabeira. Ele militava havia menos de um ano na DI-GB e não atuava no setor armado. Cuidava de um mimeógrafo utilizado para reproduzir panfletos, o jornal da organização e documentos para discussão interna, que funcionava em uma casa alugada na rua Barão de Petrópolis, entre Rio Comprido e Laranjeiras. Com o golpe da Junta Militar que substituiu Costa e Silva às vésperas da Semana da Pátria, a organização desencadeou a operação do rapto do embaixador e precisou de uma casa com aquelas características para guardá-lo. Gabeira era o morador, podia ser visto pelos vizinhos entrando e saindo e, por esta razão circunstancial, participou da ação como elemento que circulava para divulgar mensagens.
Gabeira costuma ser associado ao seqüestro do embaixador Elbrick pelo fato de ter sido o primeiro a relatar publicamente detalhes da ação, por uma entrevista ao Pasquim e do livro Que é Isso, Companheiro?, lançado em 1979. Mas isso não justificaria sua presença no encontro que promovemos. Acho que ele não se sentiria bem, muito menos seus ex-companheiros.

Como foi o trabalho de pesquisa? As imagens que você resgatou no filme foram de fácil acesso? Quais foram os arquivos?
Começamos a pesquisa no primeiro semestre de 2005, quando ainda não tínhamos recursos para filmar. Em agências noticiosas norte-americanas conseguimos imagens da chegada dos presos ao México. Nunca haviam sido reunidas e editadas em uma única seqüência, como fizemos. Imagens de alguns personagens falecidos vieram de um filme anônimo de denúncia de torturas, que havia sido conservado por José Luiz Del Roio em Milão, no Archivo Storico del Movimento Operaio Brasiliano. As vozes estavam dubladas em italiano, mas conseguimos localizar as gravações originais em português, nos arquivos do Instituto Cubano de Artes y Industria Cinematográfica - ICAIC, em Havana. O ICAIC também contribuiu com imagens de Cuba, entre elas o desembarque dos brasileiros em Havana e a recepção por Fidel Castro.

Outros personagens já desaparecidos apareciam em uma filmagem absolutamente inédita feita em Roma por Hamilton dos Santos. Localizamos o material em Paris. A apresentação de cada um dos personagens foi visualmente unificada graças à série de fotos feitas pela polícia mexicana logo após o desembarque dos brasileiros, conservadas no Archivo General de la Nacion, na Cidade do México. A Cinemateca da UNAM também colaborou, abrindo seu arquivo fílmico.

No Brasil, contamos com o apoio do Arquivo Nacional, da Cinemateca do MAM-RJ, de José Carlos Avellar, dos arquivos públicos dos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, da Iconographia, da Biblioteca Nacional, de personagens como José Dirceu e Mario Zanconato e, finalmente, de familiares de personagens já falecidos, como Rolando Frati e Onofre Pinto.

Como foi o acesso aos entrevistados? Todos aceitaram retomar o assunto com tranqüilidade ou houve quem preferisse não recordar a época?
Sem exceção, todos os personagens se disponibilizaram para o filme. Nenhum deles colocou qualquer tipo de limitação.

Foi cogitado ouvir também algum membro do lado da repressão ou esta não era a proposta do projeto?
Todos os participantes do filme viveram a história na linha de frente, seja como beneficiários do seqüestro, seja como idealizadores ou executores destacados. Esta economia narrativa me parece uma característica fundamental do projeto. Trata-se da versão daqueles que se envolveram pessoalmente nos fatos narrados. Nunca estive interessado em colher opiniões externas, seja de políticos, jornalistas, historiadores ou militares. Não me propus a realizar uma reportagem isenta e sim um filme documentário, com um ponto de vista definido.

Como você vê esta atual fase do cinema brasileiro, onde a ditadura está sendo "redescoberta" por meio de filmes como Batismo de Sangue, O Ano que Meus Pais Saíram de Férias, Cabra-Cega, "Quase Dois Irmãos, entre outros?
Acho essencial que uma sociedade promova a permanente revisão de sua história. O cinema, especialmente o documentário, tem muita contribuição a dar no processo de constituição de uma memória coletiva. Filmes como No Olho do Furacão, de Toni Venturi, Tempo de Resistência, de André Ristum, e muitos outros que foram realizados nas últimas décadas perpetuam relatos que, de outro modo, nunca seriam registrados.

Como foi para você esta sua primeira experiência na direção de um longa? Já tem outros projetos para continuar?
Projetos não faltam. Estamos sempre em busca de recursos para realizá-los, seja em longa, média ou curta-metragem.