Stênio Garcia (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Roberto Guerra

Cidadão brasileiro. Em poucas pessoas essa definição cairia tão bem como em Stênio Garcia. Este capixaba de 67 anos (42 de carreira) mostra nesta entrevista que além de ser um dos melhores atores em atividade no país, também é um cidadão preocupado com a preservação e o estímulo da cultura brasileira. Garcia fala de seu papel em Eu, Tu, Eles, de Internet, cinema, globalização e por que defende uma política de proteção ao cinema nacional.

Depois de tantos anos de carreira, compor um personagem como o Zezinho é uma tarefa fácil ou ainda continua desafiador?
Eu diria que é sempre muito prazeroso, porque é a minha cultura. O Zezinho tem alguma coisa do Zé do Araguaia, que foi um sucesso da televisão, ou de um mestre Antônio, que era um jangadeiro do Ceará, ou de um Corcoran, que era um debochado da novela Que Rei Sou Eu. Todos eles foram para mim um pouco da bagagem desse personagem que representa o povo brasileiro. O sistema de produção do filme Eu, Tu, Eles facilitou muito isso. Nós fizemos o que chamamos em teatro de "trabalho de mesa", que é a discussão de todos os atores com o sistema de produção, com a roteirista, com o diretor de fotografia, com a figurinista.
O filme foi muito discutido nessa rodinha que fazíamos em torno da mesa. E muito modificado também. Depois fomos 15 dias antes do início das filmagens para Juazeiro, e lá ficamos em contato com a população da região. Afinal nós não somos bobos, nem eu, nem o Lima Duarte, nem a Regina Casé, nem o Luiz Carlos Vasconcelos. Andávamos de mãos dadas com aquela gente, pegando a energia deles. E essa era uma forma que tínhamos de captar a energia desse povo, uma espécie de osmose mesmo. E durante muitos anos eu fiz isso, a busca do personagem, o laboratório. E é claro que depois de 42 anos de profissão essa linguagem já flui mais fácil dentro de mim. Eu acho que o ator sempre cria com os seus problemas. Para mim, o Zezinho também foi um aprendizado. Eu tive que aprender a lavar roupa, que eu não sabia. Eu tive que aprender a cuidar de criança. E o Zezinho fazia aquilo com bastante naturalidade. Tive que aprender a ser natural fazendo aquelas coisas com as quais eu não estava acostumado.

Existe um preconceito contra o cinema nacional ou é o público que tem como referência de qualidade o cinema norte-americano?
Eu acho que o sistema colonizador existe e, é claro, que vai sempre preponderar aquele que tiver mais força, mais poder econômico. E nós sofremos conseqüências culturais desta manipulação. Eu, por exemplo, fui formado pelo cinema americano. Busco o homem brasileiro hoje, na postura, mas é uma consciência adquirida no decorrer da profissão. A verdade é que eu comecei fazendo James Deans e Marlons Brandos. Com o tempo fui modificando isso com personagens como o Zé do Araguaia (Rei do Gado) e outros tipos brasileiros. Procurei figuras da literatura de Guimarães Rosa, José Lins do Rego. A minha cultura foi buscada. Mas não adianta negar que somos manipulados em nosso gosto. Os caras são poderosos e querem vender os produtos deles, então fazem guerra. E guerra é guerra. Eu hoje sei trocar de canal, mas a maioria ainda não sabe. É induzida e condicionada a ver este ou aquele programa, a assistir esse ou aquele filme.

Então, isso já vira uma questão de educação do povo...
Eu acho que é cultural sim. Mas eu confio, sou otimista. Acredito que vamos chegar a uma sociedade que tenha esse discernimento de buscar somente a qualidade. Busco isso sempre pra mim e para as pessoas que me rodeiam. Eu busco o livro que leve ao conhecimento, o canal que me leve ao conhecimento e o filme que me agrade e me acrescente algo. E pode acreditar que tem muita gente trabalhando pela qualidade no cinema nacional. O nosso filme, Eu Tu, Eles, tem uma preocupação de linguagem nacionalista, mesmo não impondo política ou uma visão política da nossa realidade. Como outros bons filmes como Central do Brasil, Vidas Secas, Assalto ao Trem Pagador, Eu, Tu, Eles, tem a simplicidade na linguagem. Como não temos a tecnologia e o artificialismo dos efeitos especiais, descobrimos que o nosso cinema tem de ser feito através do ser humano. No olhar dele, na emoção dele. E nosso filme tem essa linguagem. E é por isso que agrada aqui e também lá fora. Porque mesmo em outros países as pessoas já estão cansadas desses clipes, dessa agilidade, dessa máquina. Eles querem buscar a origem deles, o ser humano de novo. Por isso é que estão fazendo sucesso não só nossos filmes como também os de Almodóvar, os do cinema iraniano. E para nós essa é a saída, pois não temos como competir com essa máquina.

Você é a favor de uma política protecionista para o cinema brasileiro?
Totalmente. Tudo isso existe em função de um sistema, de um poder que, é claro, quer nos manipular. Isso existiu em todas as épocas, antes era a religião que era usada para controlar, hoje é a informação. E não é só o cinema que é usado para manipular, o teatro também manipula as pessoas. Apesar de se dirigir a um público muito restrito, também é manipulador. Eu fiz parte do Teatro de Arena, aqui em São Paulo, no início da minha carreira. Havia toda uma ideologia colocada politicamente, socializante e tal.
O cinema americano nada mais faz do que obedecer e ajudar a divulgar o sistema. Principalmente o cinema que é feito no país mais poderoso do mundo economicamente. Eu falo isso porque todo mundo sabe que eles querem dominar os outros mercados. Os veículos de comunicação hoje estão em função das grandes empresas, que não são mais nem multinacionais, são globalizadas, perderam as raízes com seus países de origem. Essas empresas criam e derrubam mercados de acordo com suas necessidades, e os veículos de comunicação estão aí trabalhando para elas, em função de suas necessidades. Eu particularmente não gosto disso. Para mim o cinema e a TV deveriam ser educadores, trabalhar pela qualidade de vida das pessoas. Agora, acho difícil impedir esse processo. Para isso acontecer teriam de haver revoluções.

Recentemente foi produzido nos EUA um filme feito só para a Internet, chamado The Quantum Project, que depois de lançado se pagou em pouca horas. O que você acha da produção de filmes para a Internet? Muitos especulam que a Internet, os home theaters, e toda a tecnologia disponível para quem quer assistir um filme em casa, podem afastar as pessoas do cinema. Qual a sua opinião?
Isso é uma realidade da qual não se pode fugir. É a própria história. Há 20 anos se falava de informática e eu lembro que li um livro do John Sculley, chamado Odisséia, que fala justamente do momento em que o criador do microcomputador, Steve Jobs, quis comercializar sua invenção. Então ele procurou Sculley, que era o grande marqueteiro da época nos EUA. Ele diz no livro que achou um absurdo querer colocar este produto no mercado, porque tinha a IBM, que controlava o Estado, controlava as grandes empresas com seus grandes computadores. Mas mesmo assim quis saber como era essa história de microcomputador. Então Jobs mostrou como era o micro e o Sculley, depois de muito pensar, disse que o objetivo era socializar a informação, porque o micro ia individualizar a informação. E desde então é essa loucura que nós vemos por aí. E ele previa na época que o futuro da informática era uma nave da informação, onde você com um pequeno aparelho, tipo um telefone, ia buscar tudo que você quisesse desta nave do conhecimento. Poderia até ser atendido por uma pessoa especializada: um médico, um engenheiro.
Desta forma, a informação estaria totalmente socializada através do microcomputador. Aí você pensa: caramba! Isso foi só há vinte anos. A coisa não tem como segurar. Não há porque segurar. Eu, por exemplo, só sei jogar paciência pelo computador (risos). Fico fascinado vendo minhas filhas dominando aquilo. Por que as outras manifestações artísticas não utilizariam a informática para informar e atingir individualmente as pessoas? Ou seja, socializar o cinema. É claro que o cinema, a sala de exibição onde se reúnem as pessoas, não vai acabar. O fato de você poder assistir em casa, com qualidade, um filme, não vai interferir na cerimônia do cinema. Ir ao cinema é gostoso, é agradável. No meu estado, o Espírito Santo, por exemplo, só tem cinema na capital, Vitória. Por isso estou tentando fazer a projeção de Eu, Tu, Eles em praça pública em Mimoso, minha cidade. Senão eles só vão ver daqui sei lá quanto tempo.

Como vai ser essa exibição?
O Andrucha Waddington, a produtora e a Columbia estão cedendo o filme. E o prefeito da cidade vai alugar o equipamento. Na verdade, a idéia se transformou até numa estratégia de lançamento da Columbia. O lançamento do filme no Estado do Espírito Santo vai acontecer em Mimoso, que cedeu um dos seus filhos para fazer o filme, que sou eu. E do mesmo jeito que sou homenageado, homenageio a cidade.