Steven Zaillian

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Em coletiva realizada em Nova York, com a equipe e o elenco de O Gângster, de Ridley Scott, o roteirista Steven Zaillian, vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado por A Lista de Schindler, contou como teve a idéia de escrever a história do traficante Frank Lucas, a partir da sugestão de um repórter criminalista, e suas impressões pessoais sobre os personagens do filme, que promete estar na lista dos melhores de 2008.

Como tudo começou?
Conhece Nick Polangi? Ele é produtor, escritor e um antigo repórter criminalista de Nova York que conhecia Frank Lucas e cobriu suas prisões. Certo dia, ele me perguntou se gostaria de conhecê-lo. Eu respondi: "Com certeza". Isso foi há uns seis anos e, por algumas semanas, encontrei Frank em Nova York. Nas conversas, ele mencionou o nome de Richie Roberts várias vezes. Não sabia ao certo quem ele era, então, decidi me encontrar com ele também e, após novas conversas, pensei que aí talvez houvesse um script.

Qual foi sua primeira impressão de Frank Lucas?
Ele é muito persuasivo, amigável e também perigoso, quer dizer, ele pode estar sorrindo e o amedrontar ao mesmo tempo.

Você acha que ele tem o direito de estar livre?
Bem, ele cumpriu sua pena, então, sim.

Como você acha que ele vive hoje?
Realmente não sei. Não acho que ele tenha muito dinheiro. Ele vem de uma família grande, na qual talvez um tome conta do outro. Atualmente, tem 75 anos e não trabalha mais.

Ele se arrepende de seu passado?
Na verdade, não. Acho que não. Ele disse que fez o que tinha de fazer para sobreviver. Não era um homem com muito estudo, não tinha nenhuma habilidade específica. Veio para Nova York jovem e começou a trabalhar para Ellsworth "Bumpy" Johnson como motorista, um cobrador e espécie de guarda-costas. Parece que ele não sente muito remorso disso.

Ele tem alguma relação ainda com Richie?
Sim, eles ainda têm. Não diria que são amigos, mas logicamente se conheceram muito bem durante os julgamentos e depois. Diria que Frank é um homem muito religioso, mesmo naquela época. E, apesar de não se arrepender do que fazia para sobreviver, dizer que não acreditava que pudesse fazer outra coisa com sucesso, ele parece ter uma espécie de entendimento de que machucou muitas pessoas.

Muitas pessoas gostam de ver filmes de gângsteres e normalmente são filmes que se saem muito bem nas bilheterias. Você pensou nisso ao escrever o roteiro?
Não sei por que o fiz, mas sei que fiz. Este é meu primeiro filme com gângster. Adoro assistir a estes filmes (risos). Acho que é por que o que temos aqui é uma história sobre negócios, sobre família. Talvez algo que a gente considere como um assunto comum - todo mundo carrega uma arma -, então, é um outro tipo de realidade da qual um drama é construído. Acho que, na verdade, a história é sobre pessoas normais, fazendo coisas normais, mas que estão nos negócios errados. A vida pessoal deles é muito importante para mim.

Esta história é próxima da realidade?
Digo que é próxima da realidade contada por Frank Lucas. Quer dizer, eu não tenho outras fontes que não sejam Frank ou Richie. Frank não era tão famoso quanto outros gângsteres de sua época, não dava entrevistas, não se fazia conhecer. Não há muita informação sobre ele em arquivos.

Qual foi a reação de Frank sobre fazer o filme?
Não sei... Eu nunca perguntei por que ele estava fazendo aquilo. Mas sei que ele viu o filme e posso dizer que ele gostou. Pelo menos não ouvi nada negativo vindo dele, não ficou louco com ninguém ou com nada (risos). Ele tem 75 anos. Acho que ficou mais tranqüilo a respeito de algumas coisas, acho que se sente bem com quem é hoje e distante do que foi antes.

O que aconteceu com a esposa dele?
Ela deixou Frank em Porto Rico. Apesar de não tê-la visto, ouvi dizer que voltou para Nova York no ano passado e voltou com ele.

Quem escolheu o nome do filme American Gangster?
Não sei. Meu título original era Tru Blu (soletrado desta forma). Houve um tempo em que eu não estava realmente envolvido na produção. O filme seguiu outras direções com outros diretores e foi quando o título mudou, mas não sei quem mudou.

Depois da prisão, Frank desistiu dos negócios?
Depois daquilo, simplesmente parou. Era o período das grandes investigações, que mantinham tudo no controle. Acho que foi em 73. Foi o final de uma era.

Você acha que é por isso que ele se tornou um cara tão carismático, por ser socialmente ativo e ter ajudado a polícia a efetuar tantas prisões, que as pessoas acabaram relevando o fato dele ser um traficante de heroína?
Acho que ele é um homem agradável, legal, charmoso. Acho que ficou muito tempo naquele caminho e quase todo mundo estava feliz com ele à frente dos negócios.

Como Frank Lucas se tornou um personagem querido pela platéia, diante de um filme com tantas cenas violentas?
Ninguém queria fazer dele um personagem querido. Queríamos apresentar os fatos e as pessoas como são na realidade e não "mascarar" para fazer um personagem ser atraente ou odiado. Sempre quisemos retratá-lo como ele era, sem contar mentiras. Ele matava pessoas, traficava drogas, portava armas e ninguém queria dizer nada diferente disto, ou seja, da verdade.

Não é muito comum que um roteirista seja também o produtor. A mídia, em geral, não dá muita atenção ao escritor... Este foi o jeito que você encontrou para ser o produtor?
Isto ajudou e trabalhei com Ridley Scott outras vezes, antes de fazermos esta parceria. Conversamos muito, fizemos tudo juntos e isto ajudou muito em relação a manter os escritores envolvidos no processo. Ter esta cooperação dos diretores é crucial. Houve uma época que eles não faziam este tipo de cooperação e foi quando eu sai por um tempo de circulação.

Como foi a escolha do diretor de O Gângster?
O roteiro passou pelas mãos de vários diretores: Scorsese, De Palma, Spielberg, Scott... Queria realmente alguém visualmente bom para fazer este filme. Então, meu envolvimento nesta produção foi ter chegado até Ridley e convidá-lo para fazer o filme. Era uma forma de tentar proteger o script. Eu tive muita sorte de encontrar diretores muito cooperativos com os escritores ao longo da minha carreira e isso faz toda diferença do mundo.

Às vezes, não são os escritores que não colaboram?
Sim, às vezes, eles são os piores (risos). Honestamente, já tive experiências horríveis, uma delas com Marshall Herskovitz.

Você acha que, por ter escrito o roteiro, deveria ter dirigido também o filme?
Não. Nunca fiz isto só porque tinha o direito. Se escrevi, a razão por eu querer dirigir é por que posso contribuir realmente de alguma forma, já que conheço o material e sei as respostas para as perguntas que vão aparecer. Neste caso, senti um pouquinho diferente, pois achava que seria um filme muito difícil para rodar, com várias locações, grande produção e muito dinheiro (algo em torno de US$ 100 milhões). Isso me deixou nervoso. Nunca tinha feito algo nesta escala e estava me sentindo desconfortável.

Você mencionou que Frank Lucas foi sua principal fonte. Você teve acesso às transcrições da polícia?
Sim, tive acesso as transcrições e também Nick Polangi, que viveu em Nova York naquela época. Ele ajudou muito, tivemos vários encontros. Ele foi grande fonte e inspiração para o roteiro. Ele lia cada rascunho e sempre ajudava muito a me guiar com o script.

Foi difícil escrever o roteiro?
Levei muito tempo para fazer isto e foi bastante duro. O mais difícil foi ter iniciado com a vida do Frank, dos cinco aos 70 anos. Ele não contava a história de forma cronológica. Ia de assunto por assunto, de resposta em resposta, pergunta em pergunta; então, tinha tanto material que era difícil saber o que fazer com tudo aquilo. Depois, quando me envolvi com Richie, foi a mesma coisa. Tinha duas histórias de vida. Então, fiquei uns três, quatro anos analisando o material. O que fizemos não era tão óbvio na época.

Quanto tempo o script original levou para ser escrito?
O primeiro capítulo: 18 meses.

Você fez algum acordo com Frank sobre o roteiro, ele fez algum tipo de corte?
Não, ele nunca viu o roteiro. Só assistiu ao filme há duas semanas.

Qual foi a reação dele?
Não falei com ele, mas ouvi que ele gostou. Foi interessante, porque achei que ele estaria aqui, que fosse falar com vocês, jornalistas. Achei que ele ficaria feliz de estar nas manchetes novamente. Tivemos uma première há alguns dias e ele também não apareceu na festa. Soube que disse: "Sou um traficante de drogas, não uma celebridade. Não quero andar no tapete vermelho sorrindo e sendo fotografado".

Você acha que ele ainda estaria fazendo as mesmas coisas, caso não tivesse sido preso?
Acho que ele teria continuado até ser pego. Ele não tinha nenhuma intenção de parar. E há uma coisa que é interessante: o fato do policial Richie ter desistido de ser policial. Naquela época era muito difícil não ser corrupto e ele desistiu e foi ser advogado. Acho que ele estava frustrado, pois imaginava que a corrupção não chegava até os policiais das ruas, mas era uma epidemia. Depois de prender Frank, pediu uma semana de folga e deram três dias. E ele precisou pedir US$ 400 emprestados para tirar férias. Ele não tinha dinheiro. E o interessante foi ele ter se tornado um advogado de defesa e muitos de seus clientes terem sido aqueles que ele prendeu. Richie é muito interessante. Ele é judeu e policiais judeus não eram comuns, mas cresceu com italianos, nas ruas. Muitos de seus amigos eram gângsteres, outros eram policiais. Acho que ele estava no limiar.

O verdadeiro Richie Roberts compareceu à première?
Ouvi dizer que ele estava lá, mas não o vi no tapete vermelho. Mas ele estava lá.

O que ele achou do filme?
Ele gostou.

Ele finalmente recebeu o devido reconhecimento?
Ele se orgulhava de dizer que era um dos únicos policiais honestos de Nova York.

Qual é seu próximo projeto?
Estou fazendo uma adaptação sobre um livro sobre mulheres do Afeganistão.