Suzana Amaral (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Roberto Guerra

Diretora do sucesso A Hora da Estrela se prepara para lançar seu segundo longa 15 anos depois.

Do lançamento de A Hora da Estrela até agora são 15 anos sem fazer um longa-metragem. De lá para cá você chegou a se envolver com o projeto O Caso Morel, baseado num livro de Rubens Fonseca, que acabou não dando certo. O que aconteceu?
Essa foi uma experiência desagradável que eu não gosto nem de comentar. O filme não foi pra frente porque na hora agá o dinheiro desapareceu. Eu me empolguei bastante com a produção, fiquei dois meses me preparando para o início das filmagens. O elenco era maravilhoso, tinha a Fernanda Montenegro, Pedro Cardoso, Antonio Calloni... Quando estava tudo aparentemente pronto, os cheques começaram a voltar porque não tinha dinheiro. O dinheiro desapareceu.

Depois do sucesso internacional de A Hora da Estrela, você recebeu alguma proposta para dirigir filmes no Exterior?
Recebi várias propostas: uma na Alemanha, outra na Holanda, nos EUA e em Portugal. A maioria eu não fiz porque não me acertava com o produtor. Eu faço o que gosto e ninguém me impõe nada. Fui convidada para fazer um filme em El Salvador sobre a guerrilha, mas demorou muito até chegarmos num acordo e quando resolveram começar as filmagens nem existia mais guerrilha. Aí os investidores perderam o interesse. Fazer cinema é um ato muito penoso. Para fazer cinema tem de ter paixão. Não dá para fazer uma coisa que você não gosta. É a mesma coisa que casar sem amar.

Como você entrou em contato com a obra de Autran Dourado e por que decidiu transpô-la para as telas?
Eu não conhecia a obra de Autran Dourado. Alguém me disse que o livro era bom e então eu resolvi ler. Agora, perguntar por que eu decidi filma-lo é o mesmo que perguntar por que você namora alguém. Uma série de confluências me levaram a querer filmar a história. Mas o essencial é que me apaixonei pelo texto. Daí então dei entrada com o projeto no Minc e comecei a escrever o roteiro. Depois veio toda essa complicação de captação de recursos. É sempre muito difícil conseguir dinheiro. Primeiro porque tem muita gente que corta caminho. Tem que ter influência.

Então, a influência conta mesmo na hora de captar recursos?
Claro que conta! Não interessa se o projeto é bom ou não. O que importa é a sua influência para conseguir que as coisas se encaminhem . E pra dizer a verdade eu não sou muito batalhadora com esse negócio de dinheiro. Eu vou deixando as coisas acontecerem, se tiver que dar certo vai dar, com o tempo. Sou uma pessoa bem zen.

Biela, a personagem central de Uma Vida em Segredo é introspectiva, tem dificuldade de se adaptar ao sistema. A comparação com a Macabéa de A Hora da Estrela é inevitável. Por que essa opção por personagens marginalizados?
Acho que as duas têm um mesmo perfil psicológico. Elas sofrem o eterno problema do imigrante: dificuldade de adaptação, comunicação. Só que a Macabéa ainda tentava se adaptar e não conseguia. Já a Biela faz a escolha de não tentar se adaptar e se fecha no mundo dela. Acho que não faço opção por personagens marginalizados. Filmei Uma Vida em Segredo porque gostei da história. Se acabo me interessando por esses tipos é inconscientemente.

No filme, Biela faz amizade com um cachorro que passa a acompanhá-la. Deu muito trabalho fazer as cenas com o cão?
E como deu! Antes das filmagens eu já estava apreensiva com os problemas que eu poderia ter. Estudei cinema no Brasil e no exterior; aprendi de tudo, mas nunca ninguém me ensinou a dirigir cachorro. Deu mais trabalho do que eu esperava, mas acho que na hora da montagem o resultado vai ser satisfatório. Depois de filmar Uma Vida em Segredo tomei duas decisões: Cachorro e filme de época nunca mais! (risos)

Filmes de época?
Fazer filme de época dá muito trabalho, tem muitas complicações. Limita muito. A história de Uma Vida em Segredo se passa no início do século. Aí você vai filmar num determinado lugar e não pode porque tem um poste que não existia na época. Aí tem que adaptar. Vai filmar em outro local e não pode porque tem de mudar isso e aquilo para se adaptar a época. Pretendo nunca mais fazer um filme de época. Bem, mais dizer nunca mais é complicado. Posso acabar pagando minha língua.

Você costuma filmar rápido, com agilidade. Já vai para o set com o filme todo na cabeça, os planos, as tomadas etc. Agora, por que a trilha sonora, que alguns cineastas consideram fundamental, você costuma deixar por último?
Gosto de filme silencioso. Se você pegar os melhores filmes alemães, as produções européias de qualidade da atualidade vai ver que esse negócio de trilha retumbante não se usa mais. Eu sou da opinião que primeiro vem a imagem, a emoção. A música só serve para dar uma valorizada, muito pouca por sinal. Quem assistiu a A Hora da Estrela pode notar que não tem muita música, não adianta, não é meu estilo. Pois eu ainda achei que havia música demais no filme. Trilha sonora retumbante é coisa para blockbuster americano.

Como se deu a escolha da atriz Sabrina Greve? Você pensou em escolher alguma atriz conhecida antes dela?
Antes de escolher a Sabrina cheguei a entrar em contato com outras atrizes mais conhecidas. Mas a maioria dela não podia porque tinha outros compromissos. Acabei, então, optando pela Sabrina. No fundo, gosto mais de pessoas novas para os meus filmes. Atores veteranos já vêm com uma carga pronta e têm muitos vícios. Gosto de dirigir os atores.

Seu próximo filme, o road movie Hotel Atlântico, vai ser rodado digitalmente. A opção por esse processo de captação tem haver com a economia?
Não vou filmar com câmera digital pensando em fazer economia. É uma questão estética mesmo. Você filma de acordo com o tratamento visual que pede o filme. A forma segue o fundo e o fundo segue a forma. Não daria para filmar Uma Vida em Segredo com câmera digital, ficaria ruim. Acho que o processo digital pode cair bem em Hotel Atlântico, por isso vou fazer a experiência. Não se pode impor a forma a qualquer conteúdo. Esse, eu acho, é o perigo do formato digital.

Quando você pretende começar a rodar esta nova produção?
O quanto antes. Dessa vez, mesmo que Uma Vida em Segredo seja uma sucesso como foi A Hora da Estrela, não vou demorar a começar Hotel Atlântico. Depois de A Hora da Estrela, cheguei à conclusão que o sucesso é muito dispersivo. Na época, comecei a receber muitos convites para diversos festivais. Ia de lá para cá sem parar. Para você ter uma idéia, quatro anos depois do lançamento do filme no Brasil eu estava indo para Taiwan para lançá-lo lá.