Terry George

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

O irlandês Terry George é diretor, roteirista e produtor de Hotel Ruanda, longa-metragem que mostra os conflitos étnicos acontecidos em Ruanda nos anos 90, responsáveis pela morte de quase um milhão de ruandenses. Indicado ao Oscar e ao BAFTA pelo seu primeiro roteiro cinematográfico, Em Nome do Pai (1993), George estreou como diretor com Mães em Luta (1996). Com Hotel Ruanda, está rodando o mundo a fim de alertar sobre os problemas étnicos na África, como o narrado em seu filme. O Brasil foi um dos destinos dessa sua viagem de divulgação e foi sobre este trabalho que George conversou com o Cineclick.

Você parece ser fascinado por grandes personagens, fortes, heróis da vida comum. Fale mais sobre isso.
Sim, gosto de heróis da classe trabalhadora. Sei que posso identificar-me e entender esses personagens. Isso sem contar que existe essa identificação também com o público. Dessa forma, os protagonistas tornam-se "guias", enquanto mostro situações complexas. Dos meus filmes, o que mais tem empatia junto ao público é Paul (Hotel Ruanda) porque vêem nele o gerente de hotel que usa suas qualificações, a habilidade de barganhar e o charme para salvar vidas. Por isso, achei a história tão interessante.

Essa forma que Paul encontra para lidar com os problemas é bem parecida com o tradicional "jeitinho brasileiro"...
Sim, em se tratando de todo esse charme de lidar com as coisas. Foi isso que percebi quando ele passou um tempo em minha casa. Ele contava histórias tão fantásticas que eu torcia para que fossem verdade, o que foi comprovado quando conversei com pessoas que o conheceram na Ruanda. E é um personagem com muito apelo junto aos espectadores.

É por isso que você resolveu vir ao Brasil promover o filme?
Na verdade, amo esse liberalismo da cultura latina. Isso sem contar que o povo daqui compreende melhor o tipo de drama de Hotel Ruanda. Além disso, acredito que o cinema latino-americano é o mais valioso, hoje, no mundo. Sempre temos "ondas" na produção cinematográfica mundial e esta é a vez do cinema latino-americano estar em alta. Por isso, sempre é bom vir para cá.

Você já veio antes?
Sim, nove anos atrás vim ao Festival Internacional de Cinema de São Paulo promover Em Nome do Pai. Sabe, fazer filmes é como entrar num circo, você vira um nômade. Nos últimos anos, morei na África, para fazer este filme, e antes disso morei na Irlanda, Tailândia, Los Angeles...

Você fala de sua paixão pela cultura latino-americana. Já pensou em fazer um filme sobre personagens latino-americanos?
Sim, estou pesquisando sobre algum tema na história cubana. Sei que Steven Soderbergh planeja fazer um filme sobre Che Guevara. Quando soube que ele havia adiado o projeto, até pedi que eu assumisse, mas ele realmente quer fazê-lo. Mas, se for para fazer algo sobre Cuba, é meio difícil sair dessa história envolvendo a Revolução Cubana ou o beisebol. Sempre se trabalha com os clichês e estou mais interessado na Cuba contemporânea. Não sei tanto sobre beisebol para fazer um filme, então, ainda estou procurando um tema.

E não há muito como escapar dos clichês...
Sim, uma coisa é certa sobre os clichês: eles se tornaram isso porque são tão arraigados à verdade, à realidade. As pessoas estão tão cansadas deles que o que se pode fazer é desenvolvê-los de formas novas. Para mim, os personagens são sempre mais importantes do que a própria história, pois são eles que vão conduzi-la.

Se tivesse produzido Hotel Ruanda com dinheiro americano, em Hollywood, seria um filme diferente?
Se Don fosse um ator mais famoso em Hollywood e eles aceitassem que o filme fosse com ele, o resultado seria o mesmo porque percebi que conquistei a platéia norte-americana. Uma das críticas que recebi deles é que o filme é complexo demais e também evitei a violência, o que foi totalmente deliberado. Minha obrigação com este filme foi atingir a maior quantidade de público possível para mostrar o que aconteceu em Ruanda. E a própria história permitiu que eu o "americanizasse", "romantizando", porque as passagens mais absurdas e, possivelmente, fictícias eram as reais. O final é feliz e verdadeiro. Esta realidade já é sentimental. Quando você está lidando com uma história real, você não pode mudá-la de acordo com opiniões alheias. Assim, o filme pode ser considerado como uma propaganda do que aconteceu, mas é educacional.

Você sempre fala sobre como Hotel Ruanda teve um impacto em quem viu. Como o filme transformou a sua vida?
Ensinou-me muito sobre a África. Além disso, passou a idéia de que devo estar comprometido com a realidade a fim de ajudar outras pessoas. Desde que fiz este filme, tenho conversado bastante em escolas sobre os acontecimentos e percebi que as crianças na Europa e nos EUA não entendem nem um pouco sobre a miséria africana. O que não acontece no Brasil, mas lá a idéia de fome que eles têm é passar um dia sem almoçar. A idéia de infelicidade é quando o videogame quebra, sabe? Existe esse abismo cultural entre pessoas que lutam para se alimentar e os que não têm idéia disso. No Brasil, existe essa pobreza real, como na Ruanda; pessoas passam fome, não tem sapatos, existe esse extremo social. Essa compreensão é necessária se você quer acabar com isso. Hoje em dia percebe-se uma compreensão maior do Ocidente em relação à cultura oriental. Ao mesmo tempo, surgem guerras baseadas no fundamentalismo e essa divisão não pode mais acontecer. O mundo está mudando. Hoje, tenho em mãos um roteiro sobre o Al Qaeda e a Europa.

Será seu próximo projeto?
Não, ainda não sei qual será, tenho dois roteiros bem diferentes. Para todos planejo a participação de Don Cheadle, quero trabalhar com ele de novo, pois ele é daqueles atores que fará o papel como imagino. Um é sobre a Al Qaeda e o outro é uma história de gângsteres e traficantes, na Nova York da década de 60.
Também acabei de escrever um roteiro para o Jim Sheridan (diretor de Em Nome do Pai). Esta deve ser a última vez que escrevo um roteiro para outro dirigir, e só faço isso para Sheridan. É um trabalho muito longo, árduo e doloroso para se fazer. A não ser que eu faça por muito dinheiro, assim, em seguida, poderei tocar um projeto como Hotel Ruanda. Para este trabalho, dirigi uma série de TV, The District, para conseguir ficar livre por dois anos para este projeto. Os roteiros estão sempre em constante transformação e eu sempre sinto a necessidade de reescrever cenas o tempo todo. A natureza do cinema independente é que problemas acontecem e você precisa conhecer todos os mecanismos do roteiro do filme para poder contorná-los.