Thiago Martins (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

Quem olha para Thiago Martins e não faz idéia de sua idade, não imagina que ele tenha somente 19 anos. Seu olhar passa uma maturidade muito maior do que sugere a idade. Integrante do grupo Nós do Morro, o ator estreou no cinema em 2000, com apenas 12 anos, no filme Kinderraub in Rio, uma produção alemã do diretor Jörg Grünler. Em 2002, interpretou o personagem Lampião em Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Kátia Lund. Seu rosto, no entanto, tornou-se mais conhecido pelas novelas que fez. Em Era Uma Vez, atua pela primeira vez como protagonista de um longa-metragem, num filme que mostra mais sobre sua realidade do que podemos imaginar ao assisti-lo. Conversamos com o ator sobre este trabalho. Confira:

Por que você insistiu tanto para conseguir este papel, apesar de ter sido rejeitado por um ano?
Na verdade, meu maior motivo era pelo fato do filme mostrar a cabeça de um trabalhador. Moro no Vidigal e sei que 90% da população que mora lá é formada por pessoas do bem, trabalhadoras, e 10% pelos que estamos acostumados a ver. Por essa iniciativa, batalhei muito para fazer este filme. Há 14 anos, faço parte do grupo Nós do Morro e sinto que tenho este dever de contar que também tem gente boa e honesta dentro da comunidade. Batalhei muito, fui recusado seis vezes pelo Breno (Silveira, diretor). Ele preferia um ator negro, mas eu tinha a alma deste personagem. Não é minha biografia, nunca tive contato com drogas, armas ou traficantes, mas é um personagem que tive de estudar para fazer, observar muitas pessoas, mas meu maior objetivo foi representar um trabalhador brasileiro dentro da comunidade.

Fui recusado muitas vezes, tive de impressioná-lo de algum jeito. Até que um dia resolvi raspar o cabelo. Fui no salão de beleza da minha tia e pedi pra ela pintar meu cabelo de loiro, mas a tinta queimava muito minha cabeça. Depois, pedi pra pintar de preto e ficou meio mofado. No dia seguinte, fiquei na praia das 8h às 17h; fiquei muito, muito queimado de praia. E eu esfregava na pele pra descascar ainda mais. Coloquei a roupa mais larga que eu tenho, tamanho XXL, e fui fazer o teste. Abri a porta e o concorrente estava saindo. O Breno levou um susto quando me viu. Pedi pra fazer o teste de novo, ele começou a tirar mais ainda minha sobrancelha. Fiz o teste e, por acaso, já era com a Vitória, que já havia sido aprovada. Tenho uma certa dificuldade de beijar uma pessoa que não conheço...

Acho que é meio normal, né?
Normal, né? Ainda mais com a câmera, diretor, todo um nervosismo a mais e acho que isso me ajudou a passar no teste. Isso porque um dia antes eu tinha reprovado na prova teórica da auto-escola. Comecei o dia com pé esquerdo. Logo em seguida, fui internado com apendicite, fui operado e o Breno me ligou, deixou recado no meu celular falando que íamos fazer o filme. Comecei a pular, estava com soro, as enfermeiras ficaram meio loucas comigo. Eu me parabenizo por este ato de coragem, de determinação.

Como você teve contato com o roteiro?
Eles começaram a procurar muito cedo os personagens. O perfil da busca pelo personagem era algo como "o Thiago Martins, mas não pode ser ele". Como não pode ser ele? Eles procuraram muitos atores. Quando fiz os primeiros testes, tinha acabado de sair da novela das oito, estava bem conhecido e o Breno queria alguém desconhecido. Ele fez testes no Brasil inteiro e não encontrou ninguém. A Ciça (Castelo, produtora do filme) me ligou dizendo que o Breno havia mencionado meu nome no final de uma reunião. Foi a hora que raspei meu cabelo. Mas eu já tinha lido o roteiro antes, todo mundo falava que era como um Romeu & Julieta, e eu sempre pensava que tinha de ser aquele Romeu, tinha de batalhar para ser. Tive a felicidade de participar desse novo projeto do Breno, já que as expectativas estavam lá em cima por causa de 2 Filhos de Francisco, que foi um sucesso, o que foi meio preocupante. Mas acho que fizemos um trabalho sincero e puro.

Você estará nos cinemas em agosto como protagonista de dois filmes, este e Show de Bola...
E em outubro vou a Londres com o Nós do Morro, temos várias apresentações esgotadas por lá. Vamos encenar a primeira comédia romântica de William Shakespeare, Os Dois Cavalheiros de Verona, um texto pouco conhecido. Essa peça já temos há dois anos, já viajamos pelo Brasil, fizemos temporada no Rio de Janeiro... Sabe como é Nós do Morro, né? Pegamos uma peça clássica e a transformamos numa peça clássica do Rio de Janeiro, com samba, com Brasil. Vamos pra lá dia 4 de outubro.

Essa aceitação dos brasileiros lá fora também vem do sucesso que nossos filmes têm feito. Você foi dirigido por um alemão em Show de Bola. Você tem planos de filmar longas estrangeiros?
Na verdade, enquanto não pinta lá fora, faço aqui. Estou no novo filme da Tizuka Yamasaki, Amazônia Caruana. Claro que sonho em fazer filmes lá fora, minha meta principal pro ano que vem é aprender inglês. Se eu puder cancelar coisas da minha vida mesmo para isso, tenho de aprender a língua. Estou com 19 anos e quero estar falando bem a língua com 23, é uma idade boa pra isso. Para, quem sabe, ganhar o mercado internacional. A gente vê o Rodrigo Santoro bem lá fora, com prestigio muito bom aqui dentro também... É um espelho para a nova geração.

Leia também entrevista com o diretor Breno Silveira.