Tomb Raider: Alicia Vikander fala de Indiana Jones, feminismo e Oscar

Conversamos com a atriz durante sua visita ao Brasil

13/03/2018 19h44

Por Daniel Reininger

A atriz sueca Alicia Vikander, famosa para o público geek por Ex Machina e conhecida pela maioria dos cinéfilos após ganhar o Oscar por A Garota Dinamarquesa, estrela o novo Tomb Raider - A Origem, que estreia no Brasil nesta quinta-feira (15). + Leia a crítica do novo filme

Baseado no jogo mais recente da personagem, o filme mostra uma protagonista mais jovem e inexperiente. E o Cineclick conversou com a atriz em sua visita ao Brasil, durante a CCXP, para saber mais sobre o longa, mas acabamos falando de Oscar, igualdade e muito mais:

Personagem Icônica

A vencedora do Oscar conta que chegou a jogar Tomb Raider na infância. "Eu tinha uns 10 anos quando o primeiro jogo foi lançado e fiquei animada ao ver a primeira protagonista feminina em um vídeogame".

E ela ainda gosta de jogar. "Só que não sei se sou muito boa (risos). Alguns gamers foram no set e eu fiquei nervosa porque eles sabem tudo sobre Lara e foi maravilhoso conhecer fãs que amam essa personagem. Contei para eles como demorei para terminar o jogo, que por sinal, jogava no meu trailer. E eles me disseram: para ser bom você precisa zerar em 24h, mas acho que você vai precisar de alguns dias (risos)", conta.

Empolgada com heroína, ela conta que o histórico negativo dos filmes baseados em videogames não influenciou sua decisão de encarar o papel. "Não fiquei apreensiva, afinal, se tivesse ficado, não aceitaria o papel. Você nunca sabe se um filme será bom ou ruim. Existem muitos processos: roteiro, pré-produção, filmagens, edição, então não poderia dizer se funcionaria ou não, mas eu definitivamente achei que a personagem era muito interessante", conta.

Tomb Raider - A Origem

Seu amor por filmes do gênero foi o grande motivo de aceitar a responsabilidade: "Pessoalmente adoro filmes de aventura, não sei quantas vezes assisti Indiana Jones e A Múmia. Amo a cultura egípcia e sempre gostei de história e mitologia. É algo atrativo e adoro imaginar como seria o passado. Então, para mim, entrar nessa aventura foi pura emoção", afirma.

Só que a nova versão da personagem foi um desafio para a atriz sueca. "Sabia desde o início que esse filme teria uma nova roupagem e isso é empolgante, já que ela é uma personagem que muitos adoram e precisávamos ter cuidado e fazer jus a seu legado, mas ao mesmo tempo, tentar entregar algo único e novo", conta.

Lara Croft

Mas a comparação com Angelina Jolie é inevitável. "Quando me chamaram, meu primeiro pensamento foi: mas já não fizeram uma Lara Croft antes? Foi quando me apresentaram o jogo de 2013 e entendi que havia outra versão ali. O foco seria a formação de Lara, sem deixar de lado traços que marcam essa personagem, traços introduzidos nos jogos anteriores", explica.

E sobre a nova Lara, a atriz explica que veremos uma protagonista bem diferente da vivida por Angelina Jolie. "Ela está tentando encontrar a si mesma, ganhar seu próprio dinheiro e encontrar seu lugar. É uma fase difícil. Há muita pressão e, às vezes, as pessoas só precisam de tempo para se conhecerem e saberem qual caminho seguir. Ela vai ao trabalho de bicicleta, divide o apartamento com amigos, algo bem normal para os jovens de Londres, e me incluo nisso. Me identifico com muitos aspectos da sua vida, especialmente, a época em que eu tinha 20 anos e fui morar em Londres. Acho que qualquer jovem vai se identificar".

Vikander se diz inspirada pela personagem. "Lara é muito forte. Eu a admiro por ser uma mulher que sempre segue em frente, mesmo que falhe, sempre com inteligência e humor".

Ação e perigo

O fato dos cenários terem sido construídos deixou a atriz empolgada para viver até as cenas mais perigosas. "O que amo no nosso filme é exatamente o fato de não exagerarem no CGI, porque todos os nossos sets foram construídos e eram extraordinários, gigantescos e você podia caminhar por eles e ver todos os detalhes", explica.

"Walton Goggins e eu conversamos muito sobre como nós amamos esse tipo de filme e como nos sentíamos criança nos bastidores. Um dia eles construíram um cenário enorme cheio de sarcófagos e eu fiquei tão empolgada que parecia uma criança, era uma loucura", revela.

Tomb Raider

Mas nem sempre a adrenalina era suficiente para fazê-la seguir adiante. "Houve momentos em que pensava: eu deveria estar pulando desse penhasco? Meu corpo está dizendo que não! É claro, algumas coisas dão medo. Mas, por outro lado, você também tem uma equipe incrível cuja principal função é a segurança. O maior tempo é dedicado à preparação, pois isso é o que define um bom trabalho. É passar por todos os estágios e estudá-los passo-a-passo para que, quando você fizer aquele último salto, você ser capaz de saber que tudo vai dar certo e que vocês testaram tudo o que poderia dar errado...".

Olhando para os hematomas em suas pernas, completa: "Mas, sim, minhas pernas ainda parecem as de uma criança de sete anos".

Para viver Croft, Alicia teve que passar horas na academia. "Durante as filmagens, aprendi que demora mais ou menos 3 ou 4 meses para ganhar músculos e apenas duas semanas para perde-los", conta aos risos.

Mas ela teve facilidade para lidar com a parte física. "Meu passado com a dança, mais ou menos 10 anos atrás, me ajudou nesse aspecto. Mas com as cenas de luta e ação aprendi a ter ética de trabalho e, além disso, todos os filmes de ação tem coreografia", completa.

Igualdade 

Alicia ainda comentou sobre o papel da personagem diante da importância da igualdade de gêneros. "Lara ainda não viveu grandes aventuras e precisamos cuidar do seu legado, mas, ao mesmo tempo, mostrar coisas novas, ainda mais levando em conta que o mundo mudou daquela época para cá. É uma cena cultural completamente diferente e o filme se conecta melhor com a sociedade atual. Vejo clássicos das décadas de 1980, 1990 e fico chocada com a forma como tratam as mulheres e minorias. Agora estamos fazendo personagens para pessoas que são partes da nossa audiência e do mundo dos jovens. Nosso longa é atual e mostra uma visão brilhante sobre uma mulher jovem", completa.

Tomb Raider - Alicia Vikander em São Paulo

Vikander participa dos movimentos #MeToo e #Time'sUp, que pedem o fim do assédio sexual e abuso contra as mulheres na indústria do cinema. E ela faz questão de se posicionar sobre o assunto. "O filme foi rodado antes dos escândalos em Hollywood virem à tona, mas os problemas já estavam lá e os últimos meses provaram que a mudança está vindo aos poucos, não só no cinema, mas em todos os lugares. Lembro que quando entrei na indústria, apenas alguns anos atrás, eu vi Jogos Vorazes estrear e fiquei aliviada de finalmente ver uma protagonista mulher em uma grande produção", conta.

A atriz defende cada vez mais filmes com protagonistas femininas. "Esse filme provou que a gente precisa sim contar mais histórias com personagens femininas e é óbvio que elas funcionam também. Sempre pensei em mim como uma mulher consciente e feminista. Ficava triste quando via grandes sequências de ação e nenhuma mulher protagonizando. Vivia nesse mundo achando que essa era a norma", comenta.

Sobre seu posicionamento feminista, ela conta que sempre prestou atenção às mulheres ao seu redor. "Eu tive uma mãe incrível e talentosa, uma professora de dança quando era bem jovem e tenho duas irmãs além de uma melhor amiga que significou muito para mim e com quem eu conseguia me relacionar, apesar das idades bem diferentes. Ela me deu confiança e disse para acreditar em mim mesma", reflete.

Oscar e carreira

Sobre o Oscar, Vikander explica que ainda não sentiu os efeitos da vitória em sua carreira. "Todos os filmes que fiz até agora já estavam planejados. E agora vou tirar minhas primeiras férias em cinco ou seis anos. Comecei a ler roteiros e ter reuniões, mas, para mim, as pessoas com quem vou trabalhar é que me deixam empolgada com um projeto. Está sendo divertido poder escolher", explica.

A atriz comentou ainda sobre o filme que a revelou para o mundo. "Ex Machina foi incrível, pequeno e quase não chega a ser lançado, foi graças ao apoio de pessoas que assistiram em festivais e queriam ver a obra no cinema. É muito bom receber todo o amor das pessoas que gostam desse filme, que fizemos com a ideia de ser um longa indie que ninguém veria", disse.

Ex Machina

Alicia ainda explica que sempre procura novas experiências. "É natural que você queira fazer coisas novas em sua carreira e sempre tento fazer algo diferente do que já fiz antes".

Seguindo o caminho de atrizes como Reese Witherspoon e Natalie Portman, que abriram produtoras próprias para financiar projetos com mulheres, a sueca finaliza comentando sobre esse novo caminho que escolheu trilhar. "Amo cinema e não quero simplesmente entrar no final do processo, apenas para os ensaios e as filmagens. Quero estar lá desde o início, desenvolvendo a ideia", finaliza empolgada.

Veja o trailer de Tomb Raider - A Origem e saiba o que achamos do longa com nossa crítica: