Vendo ou Alugo: Nathalia Timberg fala de comédia que estreia no fim de semana

Atriz revela também porque fez tão pouco cinema ao longo da carreira

06/08/2013 19h40

Por Roberto Guerra

Nathalia Timberg

Nathalia Timberg ao lado da diretora Betse de Paula em pré-estreia do filme em São Paulo

Foto: Mariana Vianna 


Nathalia Timberg completou 84 anos nesta segunda-feira (5/8) e ganhou bolo e parabéns de seus colegas de elenco do filme Vendo ou Alugo, durante evento de lançamento da comédia realizado num hotel da Zona Sul carioca. No longa, dirigido por Betse de Paula, a atriz interpreta a divertida matriarca de uma família falida que faz de tudo para vender um casarão decadente cercado por uma favela. Umas das mais festejadas atrizes do teatro e TV brasileiros, Nathalia conversou com o Cineclick sobre a produção que lhe rendeu o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no último Festival Cine PE.

Você tem uma carreira longeva e reconhecida no teatro e TV, mas curiosamente fez muito pouco cinema ao longo desses anos. Por quê?
Eu sou muito bissexta mesmo, mas adoro cinema. Acontece que desde 1954, quando voltei de um período de formação na França, comecei a fazer teatro ininterruptamente e, a partir de 1956, TV. Trabalhei tanto que raras vezes surgiu um roteiro que me interessasse num momento em que eu pudesse fazer. Aconteceu assim e não lamento, mas não foi algo intencional porque amo cinema.

Em Vendo ou Alugo você volta à telona, e fazendo comédia, gênero em que raramente a vemos atuar.
Quando recebi o convite para fazer Vendo ou Alugo fiquei feliz também por isso. As pessoas me associam com drama, personagens mais pesadas. Talvez pelo registro muito forte que eu tenho de imagem. E gosto muito desse tipo de humor do filme, da comédia de situação. Porque tenho lacunas e uma delas é fazer graça, essa verve do comediante. Isso eu não tenho. Mas a comédia centrada em situações me permite fazer humor e gosto quando vejo as pessoas surpresas por estarem rindo comigo. É um desafio.

Mesmo com esse tempo todo de carreira? Ainda bate insegurança?
Todo ator tem essa insegurança o tempo todo. Uns não confessam, a diferença é essa (risos). A leveza do trabalho proposto era incrível e você fica querendo saber se está funcionando em cena, se estava correspondendo às aspirações da Betse. Eu fiquei fascinada, mas não só pelo papel. Meu grande fascínio ao ler o roteiro foi enxergar a obra, o todo. Então, foi a junção do bom roteiro com a maneira dela conduzir, sempre dando muita liberdade para os atores, que deu origem ao filme que você viu. A Betse foi uma figura que me tocou profundamente durantes as filmagens. Tive muito prazer em ter participado desse filme.

Nathalia Timberg 2

Atriz e suas companheiras de cena (da esq. para dir.:Daysi Lucidi, Ilka Soares e Carmem Verônica)

Foto: Bia Saboia

Apesar de ter tido pouca participação nesses períodos chamados Retomada e Pós-retomada, você tem acompanhado o cinema feito nos últimos anos? Tem gostado do que vê?
O cinema brasileiro atual é resultado do exercício que lhe foi permitido fazer. Como cinema é uma aventura economicamente muito pesada o exercício ao qual o cinema brasileiro se permitiu teve muitos altos e baixos. Não dá para falar de cinema brasileiro usando parâmetros de fora. Nós temos que, fundamentalmente, nos comunicar conosco. Eu sei que hoje, como vivemos num mundo globalizado, o mercado exterior é importante. Mas antes de pensar nos outros temos de nos voltar para nós mesmos. Mas vejo com otimismo e bons olhos o cinema feito no Brasil. Durante muito tempo tivemos poucas andorinhas tentando fazer verão, o que é inviável. Hoje são muitas as andorinhas.

E nesses anos de exercício você acha que houve uma evolução na qualidade?
Tecnicamente, sim. Dramaturgicamente... também, vai. A gente não pode generalizar. É que temos muita coisa ruim também. O problema que enxergo hoje é que por causa da questão mercantil a tendência está sendo nivelar pra baixo. A intenção, claro, é ir ao encontro do público, mas nesse caso se vai ao encontro daquilo que o público tem de pior. Hoje existe uma mocidade aí que tem dificuldade de expressar seu pensamento porque tem dificuldade de formular seus pensamentos. E essa turma acaba se voltando para algo meramente visual. A imagem pela imagem, sem pensamento. Esse assunto, inclusive, podia ser tema de uma boa comédia. As comédias costumam ser uma lente de aumento de nossos defeitos.