Vicente Amorim (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Roberto Guerra

O cineasta Vicente Amorim é filho de diplomata. Nasceu na Áustria, morou na Inglaterra, Estados Unidos e Holanda e, no Brasil, viveu em Brasília e no Rio de Janeiro. Estudou economia por três anos até decidir seguir a carreira cinematográfica, sua grande paixão. Foi assistente de direção de 23 longas e, ao comentar o fato, costuma brincar dizendo que "só nos tempos da Vera Cruz alguém poderia ter feito mais." Entre os filmes nos quais trabalhou como assistente estão Brincando nos Campos do Senhor, de Hector Babenco; Luar Sobre Parador, de Paul Mazursksy, Tieta do Agreste e Orfeu, de Cacá Diegues, e Bossa Nova, de Bruno Barreto. Depois de dirigir cinco curtas, como Vaidade! - vencedor do Kikito de Melhor Direção-, estreou no longa-metragem como o documentário 2000 Nordestes, que serviu de preparação para O Caminho das Nuvens, seu primeiro longa de ficção, que estréia este fim de semana.

Quando você resolveu que a história de Cícero e de sua família, que saíram da Paraíba e foram até o Rio de Janeiro de bicicleta, se transformaria em seu primeiro longa de ficção?
No mesmo dia em que vi a reportagem no Fantástico. Quando acabou a matéria, fui para o computador e escrevi uma sinopse de uma lauda. Na semana seguinte, li uma matéria da Isto É que me ajudou a ter alguns dados a mais. Depois, apresentei para o Barreto (Luis Carlos Barreto, produtor do filme) e ele topou na hora.

O que mais te chamou a atenção na epopéia de Cícero?
Histórias de migração interna no Brasil têm muitas, não é propriamente um assunto original. O que essa história tem de singular é, em primeiro lugar, o fato de eles irem de bicicleta e, depois, irem juntos. Isso traz uma coisa de unidade familiar, que é ao mesmo tempo bonita e conflituosa. Outro detalhe que me chamou muita a atenção foi a questão da dignidade. Ele não queria só fugir da fome, queria uma existência além da mera sobrevivência, além do mínimo; queria dar uma vida digna para a família. Essa obsessão dele pela dignidade foi uma coisa que me atraiu.

Decisão de fazer o filme tomada, qual foi o passo seguinte?
O passo seguinte foi procurá-los. Depois de entrar em contato com algumas pessoas, eu e o Davi França Mendes (roteirista do filme) encontramos a família numa favela em Bangu. A primeira reação deles, claro, foi de desconfiança, afinal, dois garotos da Zona Sul chegam e dizem: 'Bem, nós queremos fazer um filme sobre sua viagem...'. Então, o primeiro desafio foi ganhar a confiança deles, depois fazer um acordo financeiro, sem o qual nada teria acontecido. Depois disso, passamos para a fase das entrevistas. Entrevistamos eles todos os dias durante três meses, eu, o Davi e a Lucy Barreto (produtora), que ajudou muito, principalmente na hora de entrevistar a Rose sozinha. Porque tem coisas que uma mulher só diz para uma mulher ou um homem só diz para um homem. Essas entrevistas foram muito importantes para que conseguíssemos traçar um perfil psicológico consistente desses personagens. Saber como a viagem tinha transcorrido a gente já sabia, o grande barato era descobrir como era a dinâmica interna da família, quais eram os sonhos, angústias, esperanças e conflitos internos.

Foi então que você resolveu refazer o caminho dos personagens?
Isso tudo serviu como base para a gente fazer a viagem. Eu já conhecia bastante o Nordeste, o Davi não. Fizemos uma imersão mesmo, para ter a base necessária para escrever o roteiro que, embora não seja, não é e não se pretenda uma biografia da família verdadeira, fosse fiel ao espírito do que tinha acontecido. Eu queria muito fazer um filme que tivesse essa alma, que não fosse vazio. O mais importante são as pessoas; queria fazer um filme sobre aquelas pessoas. O fato de elas estarem viajando de bicicleta em condições tão extremas fez com que os conflitos, que são comuns a qualquer família, se potencializassem.

O documentário 2000 Nordeste também foi fruto dessa viagem, não é mesmo?
2000 Nordeste é fruto de O Caminhos nas Nuvens, na verdade. Se não tivesse a intenção de fazer O Caminho nas Nuvens, 2000 Nordestes não teria existido. Quando fomos fazer a viagem, pensamos: 'Não faz sentido fazer uma viagem dessas e não documentar'. Só que 2000 Nordestes tem uma vida independente de O Caminho das Nuvens. É um filme muito mais, muito mais...amplo, digamos assim. É um documentário meio anárquico sobre o inconsciente nordestino. O embasamento cultural e ideológico de O Caminho das Nuvens veio daí. Nós conhecemos uma cultura no Nordeste que é muito diferente da cultura que nos é imposta pela grande mídia. O Nordeste é muito mais que cordel, repente e canção. É um caldeirão pop em ebulição. Vê-lo de outra maneira é ter uma visão reducionista.

Qual sua opinião sobre alguns teóricos que afirmam que o cinema brasileiro da atualidade está explorando a miséria?
Eu acho isso uma babaquice inacreditável. Em primeiro lugar, cinema brasileiro não é um gênero. O que acontece é que há uma tendência de você encontrar histórias mais fortes em contextos sociais mais extremos, tanto para cima como para baixo. O Brasil é um País pobre, 80% da população é pobre. Quando se faz filmes onde os personagens principais sejam socialmente menos favorecidos, está se fazendo filmes sobre a maioria. É uma bobagem querer achar que há um movimento político no cinema. Na verdade, todo o filme é político, até um filme da Xuxa é político, mesmo que seja pela alienação contida nele. O que me interessa e acho que interessa à maioria dos cineastas brasileiros é a riqueza, a complexidade e a profundidade dos personagens. Se os personagens são interessantes, não importa se eles são retirantes nordestinos ou burgueses paulistas. Eu acho que os cineastas, como os teóricos dizem, não estão procurando temas sociais, mas sim personagens interessantes.

Desde o início você já tinha em mente a Cláudia Abreu para interpretar a Rose. E o Wagner Moura, como você o escolheu para o papel de Romão?
Eu já havia testado quarenta atores para o papel de Romão. Vários deles eram ótimos. Daí o Cacá (o diretor Carlos Diegues), de quem fui assistente em três filmes, me ligou me falando do Wagner Moura. Então, na festa de fim de filmagens de Deus É Brasileiro, o Wagner veio falar comigo. Eu olhei para a cara dele e falei: 'Ah, você é muito novo', virei as costa e saí. Fui mal-educado pra caramba. Uma semana depois, o Cacá me chamou para ver um primeiro corte de Deus é Brasileiro. Quando vi o Taoca (personagem de Wagner Moura no filme), pensei: 'Pô, Vicente, você, além de ser mal-educado, é um imbecil completo. Esse cara é um gênio'. Chamei o Wagner e fiz um teste. Ele trouxe uma dimensão para o Romão. Muitos dos atores que tinha testado anteriormente eram ótimos, mas não estavam muito além de fazer exatamente o que eu queria. O Wagner superou isso no teste. Ele me surpreendeu.

E a homenagem a Roberto Carlos?
Resolvi dedicar o filme a ele, primeiramente porque sou fã do Roberto. Depois, porque a família verdadeira gostava dele. Quando fiz o 2000 Nordeste, percebi que em todos os lugares o que mais se ouvia era Roberto Carlos. Além disso, os quatro grandes temas das canções de Roberto Carlos são: alegria, fé, amor e esperança, que não deixam de ser os temas do filme.

Como você recebeu o discurso que o ministro Gilberto Gil fez em Gramado sobre a política do governo federal para o cinema brasileiro?
Com as leis de incentivo à cultura que existem hoje, nós vivemos a seguinte situação: ruim com elas, pior sem elas. Se o governo do PT cumprir o que está em seu programa, a gente tem a possibilidade de viver, nos próximos três anos do governo Lula, um momento absolutamente ímpar. Esse momento não depende só da vontade do ministro, obviamente, depende de toda uma vontade política do governo, principalmente da área econômica.