Viggo Mortensen e Vicente Amorim

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

Em passagem pelo Brasil para promover o filme Um Homem Bom, dirigido pelo brasileiro Vicente Amorim (O Caminho das Nuvens), o ator norte-americano Viggo Mortensen (Senhores do Crime) falou - em inglês e em espanhol, língua aprendida durante os anos que viveu na Argentina, na infância - não somente sobre a preparação para o papel, mas também sobre o clima familiar criado nas filmagens do longa e, principalmente, sobre como enxerga o cinema após quase 30 anos de carreira. Usando uma camiseta do Flamengo - presente do próprio diretor -, conversamos com a dupla durante o Festival do Rio, que exibiu em primeira mão o longa-metragem. Confira o resultado da conversa:

O que os atraiu ao projeto?
Vicente Amorim: É um filme passado na Alemanha dos anos 30, mas é sobre as escolhas que o personagem fez ao mesmo tempo em que é sobre as escolhas que fazemos todos os dias. Deste ponto de vista, é um filme de época absolutamente contemporâneo. Por isso, esta história tinha de virar um filme.
Viggo Mortensen: Vi a peça (Um Homem Bom é inspirado na peça Good, de CP Taylor), 25 anos antes de filmarmos o longa, e gostei. Vi a montagem com o elenco original, com Alan Howard interpretando John Halder, e lembro ter pensado na época que tratava-se de uma peça diferente do que usualmente era visto em livros, peças e filmes sobre nazistas alemães. Senti a história bastante contemporânea - no caso, em 1982 - sobre pessoas fazendo decisões. A história não dizia o que aconteceu - o que já ouvimos tantas e tantas vezes -, mas sim sobre o comportamento humano, mostrado de forma simples e direta. Tudo estava conectado ao que ocorria na sociedade e às grandes e pequenas decisões que todos fazem. Isso é a sociedade. O que aconteceu na Alemanha não foi porque pessoas loucas estavam responsáveis pelo governo, mas todos, coletivamente, resolveram que esse era o caminho para onde deveriam seguir. É muito fácil mantermos essa distância e apontarmos o que eles fizeram, mas não é bem assim. Temos de considerar o que humanos fizeram tanto lá quanto no Chile, na Argentina, no Brasil, nos EUA durante os últimos dez anos. A peça é relevante em qualquer época. Por isso, achei que seria interessante fazer o filme, é possível entender o personagem e se colocar em seu lugar, ou não. As pessoas não pensam que é uma situação impossível a que ele vive; podem não concordar com suas decisões, mas nunca achar impossível. Não sei se outro diretor, como (Steven) Spielberg, poderia fazer um final mais confortável. Quero dizer, não posso citá-lo, não sei o que ele faria, mas sei que muitos diretores prefeririam um final mais fácil para o espectador criando uma distância, mas a situação é impossível de ser aceita.

O que você conhece de cinema brasileiro?
Viggo Mortensen: Bem, vi o filme do Vicente (O Caminho das Nuvens) antes deste filme, já sabia que ele sabe contar uma história muito bem. Também vi alguns clássicos produzidos há trinta anos e outros mais recentes. Não vi tantos quanto gostaria, mas já tinha um entendimento de cinema brasileiro antes de trabalhar com Vicente.

Você é mais um diretor brasileiro fazendo carreira lá fora com este filme. Como está sendo a recepção de seu trabalho internacionalmente? Você se sente incomodado em relação às comparações que ocorrem em relação ao trabalho de outros diretores brasileiros bem-sucedidos no exterior?
Vicente Amorim: Todo artista é comparado a outros, isso é inevitável e se não houver outros artistas você talvez nem queira seguir a carreira; eu sou diretor porque admirei outros diretores. Não me vejo como um diretor começando uma carreira internacional. Trata-se de uma produção estrangeira que pode levar a outras, mas pode, principalmente, me ajudar a realizar meus projetos brasileiros com minha produtora (a Mixer), como diretor ou produtor. Este filme me interessou por ser uma história que me tocava, não por ser uma produção internacional. Minha atitude será a mesma em relação a todos os meus projetos futuros. Fazer um filme só por ser uma grande produção é bobagem. Todo mundo precisa pagar as contas e, obviamente, essa situação é passível de acontecer, mas espero nunca me ver nela. É uma honra ser comparado a Fernando (Meirelles), Waltinho (Walter Salles) ou qualquer outro diretor brasileiro que tenha dirigido lá fora.

Como vocês acham que o filme terá recepção polêmica em Hollywood?
Vicente Amorim: Não sei o que esperar de Hollywood, não sei se conheço a indústria suficientemente. O filme é como um filho; mais do que como um pai, o diretor se sente uma mãe e quer proteger o filme, quer que todo mundo o ame. Óbvio. Mas não há controle sobre isso. Como as pessoas vão reagir é incontrolável. Fico bastante curioso. Por enquanto, o filme ainda está no começo da carreira, mas, no geral, as reações estão sendo bastante positivas, estou como uma mãe de miss contente.

Como você se preparou para o papel?
Viggo Mortensen: Primeiramente, li muitos livros sobre a época; os que já havia lido, li novamente com um ponto de vista diferente. Já havia visto imagens de Berlim dos anos 30, mas, anteriormente, não havia me buscado naquele personagem, naquele ambiente, antes. Agora, andava por Berlim, ouvi a sinfonia tocando composições de Mahler pensando que meu personagem possivelmente iria com sua mulher a um concerto daquele. Sentado ao lado de alemães, ouvindo a língua, penso que sou um deles, o que é sempre bom fazer, mas nunca fazemos por preguiça. Uma coisa boa do meu trabalho é ter a oportunidade de olhar para o mundo do ponto de vista de outra pessoa. De repente, eu era um alemão; como era se sentir alemão? Isso é interessante, você absorve o que pode. É divertido e ajuda muito. Uma coisa boa de trabalhar com Vicente é que ele evidentemente aprecia seu trabalho. Lidar com um diretor que está sempre reclamando é muito ruim. Apreciar a criação em grupo faz com que todos se divirtam mais. Especialmente quando se trata de um filme como este, cuja história é triste e difícil; o trabalho acaba ficando mais interessante. Um diretor que esteja apreciando o trabalho faz com que todos os outros da equipe também gostem de trabalhar. Já trabalhei com diretores mandões e você faz seu trabalho, mas torna-se isolado. No caso da equipe de Um Homem Bom, formou-se uma família.

Vocês se tornaram amigos?
Vicente Amorim: Sim, tanto que estamos usando camisetas do time de futebol do outro (Amorim é flamenguista e deu a camisa do Flamengo a Mortensen; o ator, por sua vez, deu uma camiseta do time argentino de San Antonio). Mas o trabalho ainda não terminou, esta é a sensação que tenho.
Viggo Mortensen: Talvez quando você começar a filmar seu próximo filme. Não quero esquecer a experiência. Alguns atores estão sempre ansiosos para isso, mas não pra mim. Todos perdem a memória quando ficam velhos, mas eu não quero isso.
Vicente Amorim: O barato de fazer cinema é que você ganha amigos a cada trabalho. As famílias que se formam ficam com você, é como irmãos que você ganha.
Viggo Mortensen: O que fazemos quando trabalhamos juntos é sentir compaixão: sentir sentimentos. Da forma como estamos falando de nossas experiências, é possível ver que não estamos mentindo em relação a isso. Não é propaganda.

Você se sente diferente após este trabalho?
Viggo Mortensen: Acho que sim. Uma das coisas que entendi depois deste filme é que antes o som da língua alemã me incomodava muito, o que só percebi quando fui à Alemanha. Consigo entender a língua se falarem bem devagar, também consigo ler um jornal, mas percebi que poderia ter aprendido a língua antes se tivesse vontade. Só que nunca tive, nunca fui interessado propositalmente. Nas vezes que havia passado pela Alemanha no passado, nunca queria estar lá, estava sempre a caminho de outros lugares. Nunca quis ir ao país. Hoje em dia iria. Ou seja, isso é bom.

Você estava falando sobre formar famílias enquanto filma; você se sente assim em relação à equipe de O Senhor dos Anéis?
Viggo Mortensen: Sim, ficamos muito tempo filmando e ficamos bastante próximos. Sinto-me assim em relação à maioria dos filmes que fiz, mesmo que as filmagens tenham sido difíceis ou o resultado não tenha sido o esperado - tanto artisticamente quanto em relação ao sucesso nas bilheterias -, sempre tem alguém que você conheceu, uma paisagem inesquecível, uma história que alguém contou... Claro, depende de você aceitar e interagir com outros, mas uma amizade pode sempre surgir nas filmagens. Você pode encontrar a pessoa vinte anos depois e lembrar de como se divertiram, mesmo que o filme tenha sido terrível.

Imagino que você também tenha esse tipo de relação com David Cronemberg, já que filmaram dois filmes (Marcas da Violência e Senhores do Crime)...
Viggo Mortensen: Sim e com Vicente também. São diretores relaxados, com quem é bom trabalhar. Minha primeira experiência com cinema, num papel que não fui cortado (no caso, a participação de Mortensen em A Rosa Púrpura do Cairo não sobreviveu ao corte final) - foi em A Testemunha, de 1985. Meu personagem nem estava no roteiro e, neste caso, tive contato com um bom diretor de fotografia, um diretor calmo, uma harmonia no set, então tive uma idéia errada num dos meus primeiros trabalhos de como um filme é feito: é divertido, relaxado, inteligente, lógico... Foi ótimo. Mas nos próximos vinte e tantos anos, não foi assim. Quando voltei a trabalhar com pessoas legais, como Cronemberg, Vicente, Agustín Díaz Yanes (diretor de Alatriste), voltei a perceber que histórias brutais, muitas vezes tristes, podem ser contadas por uma família que se diverte. Voltei a me sentir feliz como me senti com Peter Weir em 1985. Não importa o quanto o ator pode parecer confiante, mas é importante que todos se sintam bem no set, todos estão sempre inseguros em relação ao trabalho. Alguns atores demonstram insegurança fechando-se a todos, mas, se você está numa equipe coesa, isso acaba te passando segurança e energia boa das pessoas.

Você acha que o personagem do filme é um homem bom?
Viggo Mortensen: Depende do objetivo (risos). Não acho que qualquer conceito como bom, mal, amor ou democracia seja real. É um processo. Para ser bom, você tem de tentar e pensar que o futuro é outro. É preciso manutenção para manter o processo. Então, a resposta seria: nem sempre.
Vicente Amorim: É, não tem como responder diferente dele.
Viggo Mortensen: Sem comentários! (risos)
Vicente Amorim: Bondade não existe como uma coisa constante dentro de uma pessoa, ela existe na maneira como você age em relação às outras pessoas e este é o caso do Halder.