Vincent Cassel

25/07/2009 12h40

Por Heitor Augusto

Na França, ele é um astro. No exterior, seu nome ainda está se consolidando no time das celebridades. Como ator, Vincent Cassel já alcançou o respeito merecido, seja por trabalhos complicados (Irreversível), filmes de ação (Inimigo Público Nº 1 – Instinto de Morte) ou de mafiosos (Senhores do Crime).

 

Seu novo trabalho é um drama, desta vez rodado no Brasil e dirigido por um brasileiro, Heitor Dhalia: À Deriva, no qual Cassel interpreta um intelectual francês que é um exemplo de pai, mas um marido cheio de defeitos.

 

O Cineclick conversou com o ator de 43 anos, que explicou porque se envolveu em um projeto com inspirações vindas da nouvelle vague: “Essa escola francesa, quando foi digerida por um brasileiro, pernambucano, tem uma sensualidade e perspectiva diferente, traduzida nos movimentos de câmera e na luz. Nisso eu quis entrar”. Confira a seguir a conversa:

 

Como foi conviver, no set, com tantos atores de formações diferentes?

Cara, com as crianças o clima foi ótimo. Sabe por quê? Porque a criança, quando tem o talento para atuação, são sempre boas, têm naturalidade. Uma criança talentosa que entra numa cena com Robert De Niro e Marlon Brandon chama mais a atenção, vai ser mais verdadeiro. Nunca coloquei iniciantes em níveis inferiores, acho que eles vão fazer coisas raras, belas.

 

Sempre olhei as crianças como pessoas com as quais você tem de atuar e jogar, porque o set é um jogo. Quando temos um objetivo, é só relaxar. Com a Laura [Neiva] e a Débora [Bloch], foi assim.

 

Você havia nos afirmado que o mais atraente em Inimigo Público Nº 1 – Instinto de Morte, outro filme com você que acaba de chegar aos cinemas brasileiros, era a complexidade do personagem. O que te atraiu em À Deriva?

Tem sempre uma coisa nos personagens que faço é a ambiguidade, não tem o mal ou o bem. Somos complexos, posso fazer papeis contraditórios. As atitudes de Mathias, meu personagem em À Deriva, podem ser julgadas, mas ao mesmo tempo sabemos que somos da mesma maneira.

 

Esse tipo de personagem contraditório faz parte do meu trabalho. Em Inimigo Público Nº 1 – Instinto de Morte, Mesrine é um gângster, mas uma pessoa normal, charmosa, que nos permite pensar várias coisas sobre ele durante o filme. Meus personagens têm a mesma coluna vertebral: procuro encontrar obscuridade em personagens bondosos, e vice e versa. Sempre um misto dos dois.

 

Falando em personagens maldosos, o Kirill, de Senhores do Crime, é um deles. Você vai fazer a continuação do filme?

Se Kirill ficar, com certeza eu volto! Foi uma experiência maravilhosa o trabalho com o Viggo Mortensen, David Cronenberg e, especialmente, a Naomi Watts, gosto muito dela como atriz.

 

Atuar em português não é fácil, né Vincent?

Nem um pouco [risos], mas foi uma oportunidade de melhorar meu português. Tenho um pouco de experiência em trabalhar com idiomas que não sejam franceses, como o italiano, inglês, russo e indiano. É um pouco estranho, duro. Em francês, posso improvisar mais com as palavras, achar coisas de diálogo. A língua é uma coisa técnica, você tem de se fazer compreensivo e, o resto, é atuar. Mas interpretar um personagem brasileiro, hoje, é impossível!

 

A respeito da sua paixão pelo Brasil, o que você conhece do nosso cinema?

Para mim, o filme que foi o momento importante do cinema brasileiro no mundo foi Cidade de Deus. Sei que tem pessoas aqui que não acham que este filme representa a produção local, mas posso falar para você que uma geração no mundo não sabia nada do cinema brasileiro. Walter Salles é maravilhoso, mas não atinge as camadas populares. O longa de Fernando Meirelles tem essa qualidade de ser popular e sofisticado quanto às suas camadas.

 

Seria esse tipo de filme que une arte e resultado comercial que você procura para a sua carreira?

É interessante trabalhar com diretores que conseguem isso, mas também gosto de filmes fortes, que não sejam tão palatáveis. A ideia de fazer um cinema absolutamente popular é impossível, mas quando uma pessoa com discurso forte tem a possibilidade de ser acessível ao grande público, ajuda, ao menos para mim.

 

Mas o que você quer dizer com “discurso forte”?

Refiro-me a filmes com violência, que tenham uma visão da realidade, digamos, um pouco “suja”. Existem filmes mais fáceis de assistir que outros. Por exemplo: Irreversível [longa de 2002 dirigido por Gaspar Noé] não é um filme para todo mundo, com elementos que certas pessoas não podem aceitar. O novo filme da minha mulher Monica Belucci, Ne Te Retourne Pas [“não olhe para trás”], também é assim.

 

Esse “forte” pode ser relativo ao assunto, à imagem... não sei exatamente. Eu percebo quando estou fazendo um filme que não vai atingir o grande público. Afinal, não é confortável ver a polícia matando criança, estupro, o humor que fala de racismo. Justamente esse tipo de coisa é a que eu gosto. Mas também gosto de contrabalançar filmes mainstream com produções baratas.

 

Dentro dessas duas definições, como você classificaria À Deriva?

Ele me causa um sentimento estranho, porque se ele fosse francês, não o faria, porque ele tem uma certa cultura nouvelle vague e eu sempre briguei muito com a síndrome do pós-movimento. A nouvelle vague, em si, foi maravilhosa, uma democratização do cinema. Porém, ela virou um padrão, cujas cópias feitas pela minha geração são ruins. Nunca quis fazer parte disso, sempre fiz filmes que quebram com essa tradição.

 

Mas, agora eu tenho 43 anos [risos], não vou brigar minha vida inteira, e agora posso fazer o papel de um pai em crise. Essa escola [nouvelle vague], quando foi digerida por um brasileiro, pernambucano [o diretor Heitor Dhalia], tem uma sensualidade e perspectiva diferente. Assim, eu posso entrar.

 

Dá para transformar em palavras essa sensualidade diferente na sua visão?

Não sei... se traduz pela luz, do elenco, do movimento de câmera. É mais no sentido, na sensação. Não tem ninguém dançando samba no filme, mas há uma sensibilidade diferente.

 

Você acha que À Deriva poderia te fazer trabalhar mais no cinema brasileiro?

Olha, eu sou francês. Se tiver outro papel do gênero, é possível, mas não vou fazer carreira aqui. Mas não preciso necessariamente fazer um filme brasileiro aqui, pode ser uma produção de outro país rodada aqui, pois existem locações de sobra.