Vitor Mafra (Exclusivo)

27/05/2009 17h40

Por Ana Martinelli

Formado em propaganda pela ESPM, Vitor Mafra começou sua carreira na primeira turma de criação da MTV, em 1990. Em 1995, editou seu primeiro comercial para Fernando Meirelles (Ensaio Sobre a Cegueira), que o convidou para integrar o time da O2 Filmes. Já venceu o cobiçado prêmio do mercado publicitário, o Leão de Bronze. Dirigiu seu primeiro curta-metragem, Entre Tuas Rodas sobre um playboy paulistano que se perde na vida em busca de carros velozes e mulheres gostosas, em 2006. Maldito [a cinebiografia de José Mojica Marins] é, como ele definiu, sua "tão sonhada" estreia como diretor de longa-metragem.


Como e quando surgiu a ideia de transformar a biografia Maldito: A Vida e o Cinema de José Mojica Marins em filme?


Eu li o livro em 2003. O tempo todo, conforme lia, via um filme pronto. Mas a ideia de adaptar para o cinema a vida do Mojica também tem a ver com uma admiração pessoal. Há várias coisas que li na história dele e me identifiquei. O Mojica construiu seu cinema apesar das dificuldades e da falta de dinheiro, algo que qualquer pessoa que queira fazer ou faça cinema, especialmente no Brasil, se identifica. Mas o grande lance é que isso não fez com que ele desistisse, sua criatividade e as soluções que ele encontrou para resolver "essa falta de grana" são geniais. Sem dúvida, esta foi a maior motivação. A vida dele é apaixonante.

Houve um desencontro de informação e até foi noticiado que outro diretor estaria à frente do projeto. O que aconteceu?

Bom, eu sempre achei que a biografia daria um filme, um que eu, inclusive, adoraria dirigir (risos). Em 2007, eu procurei o (André) Barcinski e o Mojica, mas eu não tinha dinheiro para comprar os direitos da adaptação. Nós conversamos sobre o projeto e eles me cederam uma reserva dos direitos por um ano, para que eu fosse atrás de grana para o projeto e, consequentemente, pudesse comprar os direitos. No final do ano passado, esta reserva venceu e eu ainda não tinha conseguido uma produtora. E outra produtora apareceu interessada.

O ano de 2008 pode ser considerado como o ressurgimento do Mojica. Foi lançado Encarnação do Demônio, que encerra a saga da trilogia do Zé do Caixão e, houve a retrospectiva com os 50 anos de sua carreira. Isto despertou a concorrência?

Sim, é bem provável. Além do sucesso do programa "O Estranho Mundo do Zé do Caixão" e o relançamento da coleção completa dos filmes em DVD. Esta exposição deve ter gerado bastante interesse. Neste sentido, a entrada da Ioiô Filmes como produtora do projeto foi fundamental para a decisão do Mojica e o Barcinski por me cederem os direitos. Desde o começo, eu apresentei o projeto como nosso. Acho que isso pesou e, também, muda a concepção da coisa toda. Tanto que estamos [Mafra e Barcinski] escrevendo o roteiro juntos. E o Mojica participa como consultor de todo o projeto. Eu acredito numa configuração mágica, cármica.

Tanto o André Barcinski, coautor de Maldito, quanto o próprio Mojica afirmaram em entrevista ao Cineclick que a cinebiografia será tudo menos convencional. Mesmo sem o roteiro concluído dá para apontar o que seria esse não-convencional? Algo no estilo Não Estou Lá (2007) [cinebiografia ficcional do cantor Bob Dylan, dirigida por Todd Haynes]?

Não, nem tanto. Queremos que o filme alcance um público maior, seja mais "palatável". Não Estou Lá é uma proposta muito interessante de não-convencional para uma cinebiografia, mas um pouco distante. Se eu fosse citar uma referência, seria muito mais próximo de Ed Wood (1994) [cinebiografia dirigida por Tim Burton sobre Edward Davis Wood Jr., diretor norte-americano de filmes de terror, ficção-científica e erótico. Foi considerado "o pior" diretor de Hollywood, mas é amplamente cultuado pelos amantes dos ditos filmes B]. Ainda mais porque queremos explorar também aquela sensação de making of, estar nos bastidores e mostrar ao espectador como as coisas aconteceram nos filmes, como o Mojica fez isso ou aquilo em tal produção.

O filme se concentrará em um período da vida de José Mojica Marins. O próprio Mojica disse que será sobre "os anos mais fortes da minha vida". Logo, vai falar da criação do Zé do Caixão, o período do cinema da Boca do Lixo. Qual será a abordagem do filme?

A criação do Zé do Caixão é uma peça chave para o filme. A questão do criador-criatura é maravilhosa até porque grande parte do público reconhece mais o Zé do Caixão (personagem) do que o Mojica (diretor), que tem uma obra cinematográfica que extrapola o Zé. É um grande conflito dramatúrgico que dará o tom do filme. Nós queremos deixar a dúvida no ar: Será que ele (Mojica) "virou" o Zé.

O filme vai ter um lance sobrenatural, apesar de ser fundamentalmente uma comédia. O Mojica é um cara destemido e curioso em relação às questões metafísicas. Esse lado será o alicerce do filme e dará profundidade à narrativa. De forma bem-humorada, vamos colocar em dúvida se ele encontrou com o capeta ou não? Será que o Mojica vendeu a alma pro diabo para ser o Zé do Caixão? (risos). E a comédia estará muito presente, principalmente, para mostrar o gênio criativo, com ele conseguiu/consegue com tão pouco criar muito.

A biografia Maldito é de 1998. Em entrevista ao Cineclick, Mojica expressou sua vontade de contar toda a saga da trilogia do Zé do Caixão, que começa em À Meia-Noite Levarei Sua Alma, de 1964; Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, de 1967 e só termina 42 anos depois, em 2008, como Encarnação do Demônio. O filme vai chegar até este evento recente?

Não. O filme se concentra no período considerado o auge do Zé do Caixão, nas décadas de 60 e 70. O roteiro ainda não está fechado, mas acho que não se estenderá até 2008.

De fato, seria mais que apenas uma elipse (um "salto" de tempo), pois suprimiria pelo menos três décadas da trajetória da vida e obra. Mas há essa preocupação com a cronologia dos acontecimentos?

Não temos uma grande preocupação neste sentido, até porque o filme está sendo pensado desde o roteiro como não-linear. De certa forma, vamos forçar uma barra para que alguns personagens desta história que não necessariamente conviveram na vida real, convivam e interajam. A ideia é formar uma espécie de "gangue" do Mojica com os amigos, família, produtores, atores que foram importantes naquela época e para ele, mas sem ficar tão preso à cronologia dos fatos.

O Mojica fará uma participação especial no filme. O Barcinski revelou que vocês estão pensando num papel pequeno, mas que não seja interpretando ele mesmo.

Sim, vamos tirar uma onda. No auge da carreira, ele teve muitos de seus filmes censurados e mesmo proibidos. Estamos pensando em colocá-lo como o censor, imagina o cara censurando seus próprios filmes? Uma "tiração" de sarro bem divertida e não deixa de ser uma lição aos censores.

O roteiro está bem adiantado e, se tudo der certo, a captação começa em outubro deste ano e as filmagens em 2010. É um prazo bem apertado para os padrões atuais e uma estreia em longa-metragem. Vocês vão fazer um filme de baixo orçamento? Qual é o tamanho do projeto?

Esse filme não dá pra ser B.O., o projeto é bem grande. Algumas coisas serão feitas em locação e outras teríamos que reconstruir, mas ainda é muito cedo para dizer. Ao todo deve custar em torno de R$ 4 milhões. Mas isso é o ideal, vai depender de quanto conseguiremos captar.