Wagner Moura (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Roberto Guerra

Se você ainda não conhece Wagner Moura, é bom ficar atento a este jovem e promissor ator baiano que vem se destacando nas telas nacionais. Depois de viver o vingador de Rodrigo Santoro em Abril Despedaçado, de Walter Salles, e o psicopata Jesuíno Cruz em As Três Marias, de Aluízio Abranches, Moura mostra em Deus é Brasileiro todo o seu potencial dramático. Sem dúvidas, é a melhor surpresa do filme. O ator também faz parte do elenco do esperado Carandiru, de Hector Babenco, que estréia em abril, no qual interpreta o traficante Zico. Na entrevista que segue, Moura fala um pouco de sua carreira, de seu método de trabalho e de como foi fazer Deus é Brasileiro.

Como surgiu o convite para fazer Deus é Brasileiro?
O Cacá (Carlos Diegues) viu A Máquina, espetáculo de João Falcão que eu fazia na época, e me chamou para fazer um teste. Depois, me convidou para fazer um comercial da BR Distribuidora. Tempos depois, fui saber que o comercial era um teste final para o filme.

Você é uma espécie de self-made man, começou no teatro amador, depois passou para o profissional e, agora, desponta no cinema sem nunca ter estudado interpretação formalmente. Qual é a sua técnica?
A minha escola foi fazer, atuar, que na minha opinião é a melhor de todas. Fiz muitas coisas no teatro de Salvador, do clássico até o teatro do absurdo. Também sempre gostei muito de estudar e ler. Li bastante sobre teatro. Me lembro que o primeiro livro de teatro que li foi um do Eugênio Kusnet, chamado Ator e Método, que é em cima do método Stanislavski. O livro me influenciou muito, porque nunca tinha nem ouvido falar em Stanislavski. Acho que a técnica primordial para um ator, que costumo imprimir ao meu trabalho, é a verdade; é você buscar a verdade naquele personagem. O personagem pode não ter nenhuma base realista, como no caso do matador de As Três Marias (filme de Aluízio Abranches), que é uma pessoa que não se encontra por aí, mas tem uma verdade, a verdade dele, daquele universo bizarro dele. E se você acha a verdade de um personagem, as pessoas vão creditar em você.

Como foi seu relacionamento com o restante da equipe?
Foi maravilhoso. Nós filmamos em condições difíceis, apesar de todos os esforços da equipe de produção. Fomos a lugares que não tinha banheiro na locação. Mas não houve nenhum momento durante as filmagens que tivesse sido desagradável. Era sempre um clima muito legal, de diversão. Formamos uma equipe que se integrou muito bem às situações, que se adaptou muito bem à história. Também filmamos em lugares muito bonitos. Teve um tempo que ficamos na foz do Rio São Francisco; então, todo dia tomávamos banho de rio. E aquilo era uma festa para quem vive na metrópole e se depara com uma natureza exuberante daquelas. Foi um grande prazer fazer Deus é Brasileiro. Eu, Fagundes e Paloma, de cara, tivemos um entendimento muito bom, nos demos muito bem.

E como foi contracenar com Antônio Fagundes?
Sabe o que eu costumava pensar? 'Cara, eu não posso pensar nisso.' Se eu ficasse pensando que ia contracenar com Antonio Fagundes... Daí não pensei e procurei encarar a coisa de uma forma profissional. 'Eu sou um ator, tô aqui contratado para fazer esse personagem e tal.' Mas daí o Fagundes se mostrou de uma generosidade que eu nunca vi na minha vida entre um ator veterano e um novato. Ele foi assim...tudo para mim. Ele e o Cacá foram de uma paciência sem igual. Ao mesmo tempo, quando tinham de ser duros comigo, eles eram, porque eu gostava muito de inventar coisas, inventar meus textos. Às vezes cabia, às vezes não tinha nada a ver. O Fagundes foi muito generoso comigo, se tornou um amigo muito querido. Ter contracenado com ele é um motivo de orgulho muito grande pra mim hoje - saber que eu sou um amigo de Antônio Fagundes.

O Taoca é um personagem histriônico, que concentra em si vários aspectos do povo brasileiro, inclusive o humor nordestino. Você não ficou com medo de que ele se tornasse irreal, caricato?
Eu pensei muito. Era uma preocupação que eu tinha, talvez até mais do que o Cacá. Tinha muito medo, porque desde o início sabia que uma das características marcantes do personagem era o histrionismo, que faria o contraponto com Deus. Ele tinha de ser um cara que falasse muito e alto, gesticulasse e, como eu vim do teatro, isso ainda era mais perigoso. Por isso, impus um limite e procurei justificar cada coisa que o Taoca fizesse, cada fala, cada absurdo, cada bobagem. Tudo aquilo pra mim fazia sentido psicologicamente. Mais um vez, aparece aí o Stanislavski, minha base de teatro, que me ajudou nisso. Eu tentava explicar racionalmente aquilo tudo. Eu tinha um caderno com várias anotações, sobre a vida do Taoca, onde ele nasceu, a genealogia...

E, por falar em histrionismo, conte a história de seu teste para o filme Carandiru?
(Risos)... Na época, estava filmando Deus é Brasileiro. Nós estávamos em Recife. Daí, soube que o Babenco já tinha fechado ou estava fechando o elenco. E eu tinha acabado de ler Estação Carandiru e estava enlouquecido. Queria muito fazer esse filme. Então, pedi para o Antônio Andrade, que estava fazendo o making of de Deus é Brasileiro, me ajudar. Era madrugada e, num intervalo das filmagens, falei para ele: 'Pô, Antônio, eu quero fazer o filme do Babendo, me ajuda.' Daí ele falou: 'Tudo bem, eu te gravo e você manda uma fita.' Fomos, então, numa casa que tinha umas grades. Ele pediu que eu ficasse atrás das grades. Estava com o livro nas mãos e ele disse para eu ler um trecho do livro. Só que estava muito escuro e não dava para me ver. Só dava para ver o livro (risos). Daí eu mandei a fita e o Babenco me chamou quando tinha acabado de filmar o Deus. Eu estava no Rio e fui para São Paulo para falar com ele. E foi engraçado porque cheguei, me encontrei com ele e voltei para o Rio. Na verdade, ele queria me conhecer porque não tinha conseguido me ver na fita. Mas ele terminou me chamando para o filme.