Walter Salles e Daniela Thomas

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

A parceria na direção de filmes de Walter Salles e Daniela Thomas teve início há mais de dez anos, com Terra Estrangeira (1995). Três anos depois, em 1998, dirigiram o segundo longa-metragem juntos, O Primeiro Dia, e hoje, dez anos depois, apresentam o terceiro longa fruto desse trabalho em conjunto da dupla: Linha de Passe, após dirigirem um dos curtas da coletânea Paris, Te Amo (2006). Linha de Passe marca mais uma inserção dos diretores no universo do jovem brasileiro. A dupla conversou com o Cineclick sobre o filme, que teve sua primeira exibição no prestigiado Festival de Cannes, onde Sandra Corveloni levou o prêmio de Melhor Atriz pela atuação neste trabalho. Confira:

Alguns críticos que viram Linha de Passe no Festival de Cannes interpretaram o final como pessimista. É isso mesmo? A visão que vocês têm do país mudou ao longo do tempo?
Walter Salles: Quando Central do Brasil foi feito, estávamos saindo de 20 anos de regime militar, daqueles tempos extremamente difíceis do "desgoverno" Collor. Então, o filme estava impregnado pelo desejo do reencontro com um país profundo, a busca pelo pai se misturava com a busca pelo país. Talvez a impressão que eu tivesse naquele momento é que, eliminados esses ciclos tão pouco virtuosos, encontraríamos uma capacidade de nos redefinirmos. Talvez tivesse a esperança que os problemas culturais também fossem resolvidos. A verdade é que não foram e não é nenhuma desesperança ligada a um governo A, B ou C. Inclusive, tenho uma visão positiva do governo atual; finalmente, o país se volta ao mercado interno. Corremos o Brasil todo e percebemos que o Bolsa Família faz uma grande diferença para milhões de pessoas. Entendo quem faça críticas ao programa afirmando que é assistencialista, mas tem repercussões inegavelmente positivas. Por um lado, estamos avançando; pelo outro, não podemos fechar os olhos pro acirramento da violência nos centros urbanos que assola a maior parte do país; não podemos deixar de ver que as mudanças nas estatísticas não se refletem na rua, ao mesmo tempo em que chamar a polícia não é a solução, ela é mais complexa do que isso e tem a ver com a capacidade de lidar com problemas estruturais que se perenizam há 508 anos. Do momento de otimismo de Central do Brasil, estamos frente à nossa própria realidade, não há mais em quem colocar a culpa e é preciso reinventar um país. No entanto, o filme (Linha de Passe) tem um desejo de reinvenção a movê-lo para frente e o "anda, anda, anda" no final é a melhor tradução disso, a demonstração que acreditamos ser possível avançar. Essa relação entre irmãos transcende a questão puramente familiar, é a "fátria" que vai além da família, ela funciona numa horizontalidade que transcende aquela família da qual o filme trata.

Seus filmes - Terra Estrangeira, Central do Brasil e agora Linha de Passe - tratam da ausência da figura paterna. Explique melhor por que isso ocorre.
Daniela Thomas: Neste filme acho que até mais forte, né? A ausência paterna se repete no filho, o Denis sem perceber faz a mesma coisa com o filho dele, e também na mãe, que está grávida de outro filho sem pai. Este tema data de Terra Estrangeira. A experiência foi curiosa porque o José Miguel Wisnik, que fez a música do filme, nos alertou sobre o livro Hello Brasil, do Contado Calligaris, no qual ele fala que a ausência do pai no Brasil é a condição primeira de ser brasileiro, aquele que é abandonado; ele vem aqui, pega tudo e larga o filho aqui. No caso de Linha de Passe, além do fator histórico, como sociedade, a idéia de depositarmos nossas necessidades acima da gente é ausente, essa é a verdade. Não temos com quem contar no dia-a-dia. Investigamos no filme como você faz para viver sabendo que não há isso, só podendo contar consigo ou seu irmão, numa instância em que todos são iguais. A mãe também não está acima, é mais uma entre eles. Essa foi a idéia ao trabalhar com a "fátria". Nessa coisa de não amarrar o fim está nossa crença de que dentro das pessoas há algo mais forte do que o asfalto, a sociedade; é essa capacidade de recriar, de se dar mais uma oportunidade.

Este filme também é sobre jovens. Para entender o país, o jovem é o melhor caminho?
Walter Salles: Esta condição temos desde a largada, ela está em Terra Estrangeira, é um ponto de inflexão na história do país, deixamos de ser um país de imigração para ser de emigração e quem partem são os jovens, que deveriam ficar aqui. Dez anos mais tarde, tivemos vontade de olhar essa mesma faixa etária que havia partido no filme anterior. No entanto, agora eles confrontam problemas reais, concretos. A gente queria olhar para eles de uma forma diferente da qual são olhados no cinema brasileiro, que sempre tem pré-julgado jovens de periferia; na maioria das vezes estão armados ou consumindo alguma coisa. Queríamos ir além disso. Tem um desses irmãos que toma essa direção, mas volta, porque não dá pra tapar o sol com a peneira, não dá pra virar um conto de fadas. Queríamos mostrar pessoas que tentam se reinventar dentro das saídas institucionais que existem. Nisso, os documentários do João foram muito importantes. Futebol, por exemplo, não fala da espetacularização do futebol com "Ronaldinhos", "Robinhos" e outros que estão vivendo a vida dos clubes europeus e traduzem muito bem o processo de globalização. De um lado você tem um número muito pequeno de pessoas que vivem aquela irrealidade; do outro lado, você tem uma massa imensa de jovens - se fosse usar um termo marxista, diria que é um "exército de reservas" - que tentam passar por esse funil pra ser outorgado numa segunda chance. Esse universo interessava a gente, queríamos olhar o contra campo daquilo que você vê na televisão; a gente só vê os poucos que conseguem chegar lá, mas o que acontece com as centenas de milhares que não chegam?

Vocês voltam a trabalhar novamente na direção dez anos depois de O Primeiro Dia (1998). Como funciona a dinâmica de vocês ao trabalharem juntos e por que ela dá tão certo?
Daniela Thomas: Segunda, quarta e sexta-feira é ele; terça, quinta e sábado sou eu. (risos)
Walter Salles: Daniela e eu temos filhos com os mesmos nomes, Vicente. Isso já diz tudo. De alguma forma, aprendemos a nos comunicarmos em todas as instâncias, praticamente sem palavras. Vendo o cinema como uma forma de expressão coletiva, a gente aprofundou de tal maneira os projetos que fizemos que todas as opções que bastante fluídas. Não temos discussões nem momentos de colisões.
Daniela Thomas: O Waltinho não precisa de ninguém pra dirigir com ele e isso não precisa nem ser dito. Terra Estrangeira foi uma experiência extraordinária pra gente. Foi um cinema do tamanho que eu gostaria de fazer. Ali se formou uma gangue, um grupo de poucas pessoas, uma família que cabia numa kombi e podia fazer um filme numa agilidade incrível. Depois de fazer filmes grandes lá fora, ele (Walter) ficou com essa idéia de fazer outro filme em casa. Ele ligou pra mim com essa idéia de fazermos algo juntos novamente. Ele é um estimulador, coloca uma porção de coisas na mesa e trabalhos em cima disso. Ele também é generoso porque, mesmo sabendo que tem uma forma maravilhosa de fazer aquela cena, ele fica feliz ao ver várias pessoas contribuindo praquilo, sabe? É um trabalho muito agradável, a co-direção é muito maior do que entre duas pessoas, ela incorpora todos. Os sermões do pastor, por exemplo, foram criados ali, no set, junto com as pessoas. Este filme tem muitos autores, muitos diretores. Nós sabemos os temas e as prioridades que temos naquela cena, mas os deixamos resolverem como e o que será dito. É uma criação coletiva, uma co-direção ampla. A melhor piada do filme, quando o cara do posto de gasolina pergunta: "Jesus torcia para quem, então?", é do ator. Fiquei com uma raiva que não fui eu que criei esse diálogo tão bacana! (risos)
Walter Salles: Do outro lado, tudo que era criado na hora foi sendo incorporado.

Os evangélicos são vistos de uma forma bastante preconceituosa no cinema brasileiro, o que não ocorre em Linha de Passe. Qual foi o cuidado para que isso não ocorresse?
Daniela Thomas: Tivemos uma preocupação enorme. Tanto que isso está na gênese de Santa Cruz, que acompanha a criação de uma igreja evangélica num bairro de periferia muito pobre no Rio de Janeiro. Esse olhar sem nenhum julgamento do João (Moreira Salles, diretor do documentário citado) foi nossa baliza. Até fizemos um esforço ao contrário porque, hoje em dia, os evangélicos estão identificados com uma vertente da igreja, chamada avivada, que está mais ligada ao dízimo, esta que tratamos no filme é mais tradicional, que ainda tem normas de vestimenta, por exemplo. Tratamos isso o mais próximo que pudéssemos colher com a pesquisa que fizemos: quem são esses caras, como agem, o que pensam... Observei vários cultos, tive aulas com um pastor sobre a liturgia, os procedimentos nos cultos. Tivemos a resposta dessas pessoas. Fiquei impressionada com a quantidade de emoção relacionada àquilo que estão vivendo ali. Na igreja evangélica, os hinos são universais, que são como mantras que os levam a um estado de transe. Nas filmagens, deixávamos isso acontecer, todos nós cantávamos juntos - Waltinho sabe todas as músicas.

Como os personagens foram construídos, uma vez que eles passam por situações e angústias universais?
Por que você se identifica quando você vê um filme do Ken Loach - que se passa na Irlanda, uma realidade totalmente diferente da nossa -, ou do Abbas Kiarostami, que se passa na realidade iraniana? Porque, de uma certa forma, os personagens tem desejos e angustias muito semelhantes às nossas. Tem algo pertencente ao humano aí, ao mesmo tempo local e universal. A partir do momento que você entende que aquele personagem é complexo e apresenta as mesmas contradições que nós temos, é possível a identificação. Esse nível de desenvolvimento de personagem foi feito a partir de várias camadas. A primeira delas vem do roteiro, a capacidade de Daniela, ajudada por George Moura e Bráulio Mantovani, num segundo momento, de pesquisá-los, de olhar para eles, de esculpi-los pouco a pouco. Daí, entra o trabalho da Fátima Toledo de dar mais verticalidade aos personagens, além do talento dos atores, a capacidade de doação deles, que no caso foi total, todo mundo estava fazendo o primeiro filme, com exceção do Vinícius (de Oliveira, de Central do Brasil), e eles se jogaram sem pára-quedas nessa aventura. Ninguém tinha de sair correndo para algum outro trabalho, estavam ali para os filmes e os personagens. Por isso que a improvisação funciona porque eles estão ali tão envolvidos com a lógica dos personagens que você consegue improvisar dentro daquela lógica. É uma realidade interna, esculpida num outro tempo, teve muito suor para que a realidade interna daqueles personagens fossem encontrados. A partir dali é possível inventar, mas antes tem de trabalhar.

Houve alguma modificação específica no filme depois de sua exibição no Festival de Cannes, já que ele foi finalizado pouco antes de ser exibido no evento francês?
Walter Salles: Sim, no letreiro final. (risos) Este foi o primeiro filme feito no Brasil que neutralizou as emissões de carbono durante a filmagem. A gente sempre acha que, por ser um bem cultural, o cinema não polui, no entanto você usa transporte para ir buscar os atores, equipamentos e outras atividades. Fizemos um cálculo de acordo com a produção de quantas toneladas de carbono foram utilizadas pelo filme e neutralizamos essas emissões por meio do plantio de 7.500 árvores, que ocupam três hectares do maciço da Pedra Branca, no Rio de Janeiro, onde foi desenvolvido o Parque do Carbono da Pedra Branca. Esta é a grande mudança em relação a Cannes. Resolvemos fazer isso por acreditar que a questão diz respeito a todos nós. Antes existia uma escolha: você podia ou não se sensibilizar por questões ecológicas, hoje é uma necessidade. Todos os projetos da VideoFilmes (produtora e distribuidora da qual Salles é sócio) serão neutralizados.

Leia também entrevista com a atriz Sandra Corveloni.

Leia entrevista com os atores do filme.