Will Smith

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Você é um dos astros mais poderosos de Hollywood. Como você lida com isso?
Tudo isso muda muito, depende dos projetos que você faz. Tom Hanks pode ser o próximo astro mais poderoso, dependendo de seu próximo filme, assim como Tom Cruise e outra pessoa que nem conhecemos ainda. A imprensa tem interesse em falar sobre isso, mas o assunto não parece ser muito verdadeiro para mim.

Nos últimos anos, você trabalhou em superproduções. Você pensa em fazer filmes mais independentes?
Pensei que À Procura da Felicidade seria (risos)! Via a produção como um filme menor, com uma vibração mais independente, mas a idéia conquistou pessoas ao redor do mundo, ao mesmo tempo em que a história dialoga com conceitos que acredito. Por mais que a produção seja modesta, se existe um sentido moral, as pessoas se enxergarm no filme.

Você trabalhará novamente com Gabriele Muccino em Seven Pounds. Como será este filme?
Seven Pounds é uma história mais intensa. Fala sobre um homem que se envolve num acidente de carro: enquanto dirige, está olhando seu celular e acaba matando sete pessoas. Então, ele planeja salvar sete almas ainda vivas para substituir essas que ele destruiu. É uma história bastante pessoal e dramática, mas seu conceito está ligado a uma idéia muito poderosa que pode se conectar com o público. É a história de um homem que passa por uma dura experiência traumática e tenta consertar o que fez.

Steven Spileberg revelou que você está sendo cotado para seu próximo filme, The Trial of the Chicago 7. Como será o filme?
Ainda não li o roteiro. Spielberg está protegendo bastante seu projeto, então não sei detalhes sobre o filme. Conversamos sobre isso e trabalhar com um mestre é uma honra, mas não há um roteiro, é apenas uma idéia e ainda não assinei o contrato.

Por Os Bad Boys (1995), você foi comparado a Eddie Murphy. O que você acha disso?
Quando Eddie Murphy tinha 31 anos, já tinha uma fama a nível internacional que poucas pessoas haviam experimentado. Como um jovem negro em crescimento, ele era uma referência para mim, assim como Richard Pryor era para a geração do meu pai. Eddie Murphy ocupou o mesmo lugar junto à comunidade negra. Naquela época, ele era, claramente, o maior astro negro em comédias. Ainda hoje, ainda é o ator negro que mais acumula sucessos de bilheteria na carreira. Eddie era quem eu gostaria de ser quanto o observava, na infância. Quando o vi usando um terno de couro vermelho, logo pensei que queria um daqueles (risos)!

Apesar de ter feito algumas comédias românticas, ainda está muito forte no imaginário popular sua figura como um astro de filmes como Independence Day, Homens de Preto e Eu Sou a Lenda. Como você lida com a idéia de que as pessoas se acostumaram a ver Will Smith salvando o mundo?
A idéia de salvar o mundo é maravilhosa e está relacionada a um conceito mitológico. Joseph Campbell abordou isso muito bem no livro O Poder do Mito, no qual desenvolve a jornada de heróis. É menos sobre mim e minhas preferências e mais sobre as idéias morais que já estão embutidas em todos nós. A história de Jesus Cristo é a jornada de um herói, todos os cristãos do mundo são criados para seguir esse caminho.

A jornada de Robert Neville pode se relacionar com a de Cristo em alguns aspectos. Por exemplo, o antídoto para o vírus está em seu sangue e ele tem de se sacrificar pelos pecados dos homens. Sou atraído por esse tipo de história não somente pela perfeição, mas também emocional e espiritualmente. É um conceito capaz de tocar pessoas ao redor do mundo, independente da língua falada.

Isso explicaria o incrível sucesso que o filme obteve nos EUA?
Com certeza. Não é um conceito religioso - a história de Neo (Matrix) é a mesma, sabe? A de Luke Skywalker (Star Wars) também. Não tem necessariamente um lado religioso, mas dialoga com o público no sentido espiritual por espelhar o caminho que procuramos em nossas vidas. À Procura da Felicidade é a mesma jornada. É a idéia de que podemos ter sucesso se lutarmos o suficiente. A vida é formada pelos obstáculos que superamos para atingir o que Joseph Cambell chama de "elixir", o elemento que conserta o motor da sociedade. Em Eu Sou a Lenda, usamos, literalmente, esse conceito do elixir quando o sangue do protagonista torna-se a salvação. A jornada de um herói é um conceito muito poderoso com o qual me relaciono fortemente.

Atenção: A próxima pergunta revela um elemento-surpresa do filme. Se você ainda não assistiu a Eu Sou a Lenda, recomendamos que não prossiga; faça-o somente se já viu o filme ou se não pretende!

Por que vocês resolveram matar o cão na história?
Este foi um dos elementos mais polêmicos no filme. Mesmo no roteiro, recebíamos uma reação emocional muito agressiva e negativa das pessoas que o liam. Você pode matar quantas pessoas quiser, mas não o cachorro (risos)! Foi um grande problema para o estúdio. Existem várias regras esquisitas de coisas que não se pode ter nos filmes. Quisemos fazer um filme pequeno, meio artístico, no meio de um blockbuster. A idéia era acompanhar o personagem, não o gênero. Foi um exercício interessante. Mesmo que a cena provocasse uma reação dolorosa, era autêntica. Assim é a vida, sabe?

Existe um livro escrito por Bruno Bettelheim (A Psicanálise dos Contos de Fadas) que fala sobre as verdadeiras versões dos contos de fadas e como elas foram destruídas para serem mais palatáveis aos leitores. Uma delas é a dos três porquinhos. Na versão que conhecemos, os três porcos sobrevivem; na original, somente o último sai vivo. A moral da história seria: se você brincar no momento em que deveria estar trabalhando, morrerá. Esta é uma verdade que me inspirou durante o filme. As pessoas devem sentir a dor do personagem quando Sam morre, mas também sentem a autenticidade do fato. O poder de uma história está na verdade que carrega, como um simbolismo para a vida.

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