Zack Snyder

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

300 é o segundo longa-metragem assinado pelo cineasta, nascido em 1º de março de 1966. Seu primeiro trabalho como diretor foi o terror Madrugada dos Mortos, refilmagem de clássico de George A. Romero. O sucesso do longa fez com que seu nome ficasse conhecido no mundo do cinema. Fã confesso de cultura pop, Snyder bancou o risco e correu atrás para adaptar Os 300 de Esparta, famosa graphic novel de Frank Miller, um dos principais nomes relacionados ao mundo das histórias em quadrinhos. O filme demorou alguns meses para ser filmado e quase um ano para ser finalizado, consumidos na pós-produção repleta de efeitos especiais. Snyder assumiu o risco e colhe os frutos do sucesso. Para se ter uma idéia, 300 custou US$ 60 milhões para ser produzido, montante recuperado nas bilheterias norte-americanas já no fim de semana de estréia, quando rendeu US$ 70 milhões. Nada mal para seu segundo filme, sobre o qual fala sempre empolgadamente, gesticulando muito, como se fosse um garoto. É quando se percebe que ele investe muita paixão no que faz, essencial num trabalho como este.

O sucesso - não somente financeiro, mas principalmente na adaptação da graphic novel - fez com que Znyder conseguisse emplacar o roteiro da adaptação cinematográfica da cultuada minissérie em quadrinhos Watchmen, de Alan Moore (o mesmo criador de V de Vingança), junto ao estúdio Warner Bros.. O diretor esteve no Brasil para divulgar 300 junto à imprensa da América Latina e o Cineclick conversou com ele ao lado de alguns jornalistas. Confira o resultado desta conversa.

Como surgiu a idéia de fazer 300?
Sou um grande fã de Frank Miller, então não foi difícil me sentir atraído por este projeto. A chance de fazer 300 foi maravilhosa e realmente pensei que não seria possível. Na primeira vez que vi a graphic novel, estava com um amigo e logo pensei que aquilo poderia virar um filme. Na hora ele não botou muita fé. Gianni Nunnari (um dos produtores de 300) foi quem me apresentou Frank Miller, nos encontramos em Los Angeles e eu estava muito nervoso. Mas, quando ele viu o que eu queria fazer, logo percebeu que eu poderia fazê-lo.

Já Alan Moore odeia os filmes baseados em suas obras...
Com certeza, nem sei se um dia vou conhecê-lo! Se isso acontecer, provavelmente levarei um soco na cara (risos). Mas com Frank é diferente. Quando ele escreveu o roteiro de Robocop 2 (1990), foi uma experiência horrorosa. Depois disso, ele quis distância de Hollywood. Acredito que Robert Rodriguez fez com que Frank amasse Hollywood de novo com Sin City - A Cidade do Pecado por que tudo no longa remete ao livro, muito mais do que no caso de 300, que é muito mais filme do que simplesmente uma adaptação, o que é fantástico. É a representação cinematográfica da obra de Frank; Sin City é uma antologia composta por três filmes, em preto-e-branco, no qual o sangue pode ser branco às vezes; 300 tenta ser um filme respeitável a partir de sua graphic novel. Sin City - A Cidade do Pecado é o filme que ele imaginou a partir de sua obra; 300 é mais do que ele poderia imaginar. Essa evolução do nome de Frank Miller no cinema desde Robocop 2 até 300 é saudável, tanto que ele pretende dirigir mais dois filmes da série Sin City.

Sim, ele afirmou que pretende dirigir todas as próximas adaptações de suas HQs...
Ele é esperto (risos).

Como você criou as histórias paralelas de 300 que não estão na graphic novel?
Gorgo é a forma que encontrei para também manter o espectador em Esparta e lembrá-lo do que estava acontecendo lá enquanto os soldados vão a Termópilas. No final da graphic novel, Leônidas diz "meu amor, minha rainha, minha vida" e gostaria de mostrar que essa cena faz sentido, que existe muito chão até chegar nesse momento. Quando você lê uma HQ, você pode voltar, rever o que aconteceu nas páginas anteriores, relembrar os personagens, e é assim que eles são feitos, então a história conta com essa possibilidade, o que não acontece num filme. Isso acontece muito com Watchmen.

É uma história bastante complexa.
Sim, esse será um desfio bem maior. Mas, voltando a 300, por isso que desenvolvi melhor o papel da Rainha Gorgo na história. No caso de Theron, coloquei o conselho no filme porque senti que Xerxes não era mau o suficiente; o espectador não o odeia porque ele é fantástico demais. Mesmo no final, depois de seu exército ter sido massacrado pelos espartanos, ele ainda oferece a chance de rendição a Leônidas. Senti que o filme não tinha um vilão em potencial e foi por isso que coloquei Theron, ele é o tipo de homem mal capaz de ser odiado pelos espectadores. Xerxes é a voz da razão no filme, não da agressividade.

Ele só está tentando conquistar o mundo...
Sim, mas ele não acha que é preciso lutar, o tempo todo ele insiste na diplomacia. Mas Leônidas tem problemas, ele quer brigar de qualquer jeito.

Madrugada dos Mortos, 300 e Watchmen contam histórias de grupos sociais que lutam pela sobrevivência. É uma coincidência?
Não fiz isso de propósito, mas é verdade que sempre existe um grupo tentando sobreviver. Talvez eu seja atraído por essas situações. Fiz Madrugada dos Mortos pensando que seria realmente um filme de zumbis e não pedisse desculpa por isso, ao mesmo tempo em que ele dialoga com a paródia, como na cena em que os personagens atiram em zumbis do topo do prédio. O mesmo acontece com 300; um filme não é tão simples para mim, sou obcecado por cultura pop, por isso que gosto tanto de Watchmen, porque ele coloca a cultura pop em diálogo com o que acontece no mundo. Não é uma mistura de Madrugada dos Mortos e 300, mas com certeza é uma evolução correta em minha carreira; ele valoriza tudo que as pessoas acham besteira e gosto disso.

O mais divertido para mim em 300, como um cineasta, é que é impossível fazer com que o espectador se sinta como os personagens. Pelo menos é o que espero. Os garotos querem ser espartanos, mas não são. Gosto de inverter valores morais. Existe uma cena em 300 que sintetiza isso, quando Leônidas come uma maçã enquanto mata persas após a primeira batalha. Esta cena diz ao espectador: "ele não é você, esta não é sua realidade e está tudo bem, não leve o filme tão a sério". No filme, somos como o padeiro, o escultor e o ferreiro que compõem o exército de Tebas. A cada 15 minutos, há alguma cena que faz o espectador lembrar que ele não é um espartano; ao mesmo tempo, quero que a audiência se sinta inspirada, mas saiba que não é um espartano.

Você não acha que é perigoso produzir um filme sobre uma cultura bélica espartana no momento político atual, especialmente em relação aos EUA?
Um crítico escreveu ter certeza de que o exército espartano representava o Iraque e Xerxes era George Bush, para ele era muito óbvio. Achei maravilhoso e tudo bem, é uma interpretação dele do filme. A verdade é que tentei adaptar o livro para o cinema, o qual já existia antes da guerra. É difícil lidar com isso, já que não quero produzir um longa irresponsável; por outro lado, sou meio geek fã de quadrinhos e o fato do meu filme ter tocado pontos políticos e ser uma espécie de fenômeno, sinto que pelo menos ele está abrindo discussões e fazendo com que as pessoas pensem. Os fãs de quadrinhos não pensam nisso, pelo menos espero, mas essas comparações são um problema mais complexo.

Por culpa dos EUA, infelizmente, hoje em dia a palavra "liberdade" soa como um palavrão; "lutar pela liberdade" soa mal e este é um mundo maluco por isto acontecer e é culpa do Bush. É vergonhoso porque, para mim, liberdade é a coisa mais importante que há, sem liberdade você não é nada.

Você fecha Madrugada dos Mortos com a música The Man Comes Around, do Johnny Cash. Qual música dele você usaria em 300?
Sou muito fã de Johnny Cash e acho que sua música para 300 deveria ser Ring Of Fire. A música do filme é muito particular, misturando o antigo e o moderno a todo momento; gravamos metade da trilha com uma orquestra e outra com uma banda de rock-and-roll, além do vocal de Azam Ali, uma cantora persa. Tanto musicalmente quanto visualmente, 300 é uma combinação dessas duas coisas, o antigo e o moderno.

Você já finalizou o roteiro de Watchmen?
Já, mas ainda não temos elenco definido. Há vinte anos, desde a década de 80, se fala de uma adaptação de Watchmen e o roteiro tenta ser o mais fiel possível à graphic novel. A história se passa nos anos 80, com figuras como Nixon, Kissinger... Agora já passou tempo o suficiente para que se possa fazer um filme sobre essa época, o que não acontecia há dez anos. Mesmo sabendo que Alan Moore criou uma realidade única de 1985. Foi divertido tentar pensar em como a cultura pop funcionaria nesta história.

Aquela foto que circulou na internet do Rorschach (um dos personagens de Watchmen) era falsa?
Na verdade não, eu mesmo a fiz. Quando estava filmando 300, Greg Strause, supervisor dos efeitos especiais, estava trabalhando numa sala ao lado da minha e, num intervalo das filmagens, estava trabalhando no conceito visual de Rorschach. Perguntei ao Greg o que faria na hora do almoço e ele disse que nada; mostrei o desenho que imaginei, com o chapéu e tudo mais, e o Greg deu vida, mas fizemos para nos divertir mesmo, é só uma prévia.

É verdade que você pretende adaptar Second Punch?
Sim, estou trabalhando no roteiro agora mesmo ao lado do meu amigo Steve Shibuya (autor da história original). Será um filme de ação meio bizarro, de novo com muita cultura pop.