12 Anos de Escravidão, Django Livre e a moldura do preconceito

O tema caro à Academia ganha espaço pelo segundo ano consecutivo. Mas o que sua exposição quer dizer, de fato?

27/02/2014 14h19

Preconceito, culpa, expiação... e, novamente, preconceito. Esse ciclo sem fim, sem nacionalidade ou espaço definido, se alastra livremente; triste usar a liberdade para descrever uma situação envolvida pela ignorância.

O cinema, sempre um reflexo de angústias, valores e indecisões de cada época, traz o reflexo desse movimento numa obra de nome aclamado para o Oscar 2014: 12 Anos De Escravidão, do diretor Steve McQueen (Shame).

Escravidão é um dos temas caros à Academia por trazer a discussão sobre preconceito e evocar a História americana. Na premiação do ano passado, dois longas se encaixaram nesses perfis: Lincoln, tão superestimado quanto 12 Anos com sua ótima reconstituição de época; e Django Livre, filme de Quentin Tarantino anos luz à frente em termos de debate e muito menos paparicado pelos carrascos de Hollywood.

Além de colocar de forma sutil e incomoda os preconceitos raciais, Tarantino deu um enfoque certeiro sobre as relações de poder. Numa das cenas mais emblemáticas do cinema, Django (Jamie Foxx) acompanha o cortejo do caçador de recompensas Dr. King Schultz (Christoph Waltz) e Calvie Candie (Leonardo DiCaprio) até a fazenda de escravos Candyland.

Django Livre

Sua posição de destaque em relação aos demais negros gera fúria e os olhares dos seus semelhantes se elevam cheios de raiva. Do alto de seu cavalo, Django os repreende, numa atitude similar a dos senhores brancos. Logo à frente, mantém uma postura mais fria do que a de Schultz ao ver um escravo fugitivo ser espancado. A divisão entre o que o personagem sente de fato em sua nova posição de poder e a mise en scène necessária para seguir em frente e resgatar sua amada é nebulosa: e isso faz com que o filme de Tarantino seja grande.

Já em 12 Anos de Escravidão, essas sutilezas são achatadas numa história visando despertar o olhar para o sofrimento do outro; mais especificamente, o olhar de culpa do branco americano. E devido a superexposição de cenas de violência, desmaios, chibatadas, a sensação vira outra: sente-se o sadismo nessa apreciação demorada sobre a dor e a humilhação.

Chiwetel Ejiofor interpreta Salomon Northup, violinista sequestrado em Washington em 1841 e vendido como escravo em Nova Orleans. O personagem central fraco e pouco comovido com a situação do próximo viraria um ativista pela abolição. Antes disso, estava confortável na condição de figura aceita pelos brancos a sua volta, num individualismo interessante de se notar.

Outra passagem de impacto vem do personagem do ótimo Michael Fassbender, Edwin Epps. Ao comentar sobre Solomon, enfatiza: "Faço o que quiser com a minha propriedade". A sombra desse homem transformado em objeto amplificou-se de maneira velada. Prezar mais pelo privado do que pela vida do próximo, eis o fundo de toda miséria humana.

Mas, saindo desses pontos e voltando para a produção em si, o esmero estético - assim como em Lincoln - traz o caráter de filme histórico e deixa as passagens violentas com uma plasticidade incomoda. Um exemplo está na longa cena em que Solomon fica pendurado por uma corda a ponto de quase ser enforcado, sustentando-se na ponta dos pés.

O que significa essa longa exposição do personagem? A questão é que, ao enfatizar belos enquadramentos e luzes pictóricas, 12 Anos de Escravidão perde o caráter de denuncia e assemelha-se a um daqueles quadros do século 19 retratando negros na lavoura - uma beleza a ser exposta nas salas da classe média. Django Livre, por sua vez, carregava uma estética forte, mas a sua grandeza estava no exagero, em fazer caricatura da violência ao invés de envolvê-la pela aura do belo.

Mesmo com alguns bons momentos, 12 Anos de Escravidão será apenas mais uma obra a enfeitar as paredes da Academia com tom de expiação de culpa. E, de fato, não existe lugar mais apropriado para esse filme estar.

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