A compra da Fox pela Disney vai muito além da Marvel; entenda o cenário

O valor da operação é de US$ 52,4 bilhões

14/12/2017 17h40

Por Daniel Reininger

As informações das últimas semanas nos prepararam para essa notícia, então é impossível chamar a compra da divisão de cinema e televisão da Fox pela Disney como uma surpresa. É o tipo de acordo multibilionário fora dos padrões de Hollywood e mexe com a indústria inteira. Embora o primeiro momento seja de animação pela possibilidade de vermos X-Men e Vingadores juntos no MCU, o impacto dessa compra vai muito além dessa união.

Cinema e TV

A consequência óbvia é o fato de a Disney se tornar uma corporação ainda mais poderosa. A empresa passa a ser dona da maioria das franquias bem-sucedidas da cultura pop com a adição de Simpsons, Arquivo X, Avatar, Titanic, American Dad, X-men, Alien, Predador, Maze Runner. É muita coisa grande na mão de uma companhia só! 

+ Confira as principais franquias adquiridas pela Disney

Claro, Sony, Universal, Warner, Paramount ainda são grandes empresas capazes de fazer frente à Disney, mas ter um player a menos no mercado nunca é ideal.

Além disso, é possível que essas franquias sofram algum tipo de mudança de linguagem, mesmo que pequena, como vemos acontecer, aos poucos, com Star Wars e Marvel. Algo leve, mas perceptível. E o quanto o marketing e a venda de produtos, algo levado muito a sério na empresa do rato, vai influenciar no direcionamento dessas franquias recém-adquiridas? Provavelmente muito, claro. 

Entretanto, a própria Disney já deixou claro seu interesse em conquistar uma parcela maior do público adulto e jovem adulto, então faz sentido manter as coisas como estão na maioria dos produtos adquiridos.

Para a Fox, abrir mão de sua divisão de cinema e TV para focar em notícias e esporte é inteligente, afinal, fazer filmes é algo caro e arriscado e a Disney já manda muito bem nas bilheterias.

Agora, a empresa terá dois grandes estúdios enormes para administrar e deve dominar ainda mais o mercado. Entretanto, o número de longas lançados anualmente deve diminuir. Certamente veremos muito mais super-heróis, Star Wars, animações para a família. Entretanto, será que os filmes mais ousados que a Fox e Fox Searchlight Pictures normalmente lançam, ainda continuarão a sair no mesmo ritmo? Parece improvável. 

Na TV, vale lembrar que a Disney já é detentora de canais como Disney Channel, Freeform e ABC. Agora, possui todos os estúdios de televisão da Fox, além de séries como Os Simpsons, Homeland e Modern Family. Potência também na telinha.

Isso tudo e nem abordei a questão do desemprego, afinal em toda aquisição dessa magnitude os cargos repetidos são eliminados.

Streaming

Claro que para a Disney essa compra amplia, e muito, as possibilidades de lucro nos cinemas, mas é no serviço de streaming que as coisas ficam ainda melhores para Mickey e companhia. Com Netflix e Amazon crescendo bastante nos últimos anos, a Fox teria que investir em um serviço próprio para competir, algo complicado, que não aconteceu. Já a Disney possui planos para fazer exatamente isso e já avisou que vai retirar seu conteúdo dos concorrentes - o que será um golpe duro para eles. Agora, esse serviço fica ainda mais interessante ao agregar o legado da Fox, além de suas franquias de maior sucesso atual.

A Disney pode até pegar o Hulu, que faz parte da compra, e usar a base de assinantes já formada e a tecnologia em funcionamento para transformá-lo em seu serviço próprio. Seria uma boa jogada. Só vale lembrar que o Hulu tem participação acionária não só da Disney e da FOX, mas também da Warner e Comcast. Uma coisa é certeza: A treta nessa área vai ser boa. 


Hegemonia

Só que existe outro impacto no mercado: a hegemonia da Disney pode causar problemas para as redes de cinema e até afetar os espectadores. Não custa lembrar que em 2015, a Disney queria que os cinemas pagassem mais pra exibir Vingadores: Era De Ultron. Neste ano, a Disney pretendia forçar os cinemas a exibir Star Wars: Os Últimos Jedi por no mínimo quatro semanas em suas maiores salas, algo bem prejudicial para o pequeno exibidor.

Se isso se tornar uma prática comum, podemos estar diante de um cenário em que as redes de cinema pagarão mais pelos filmes da Disney, serão obrigadas a mantê-los por mais tempo em cartaz e limitarão o acesso de outros longas às salas. Sem falar que, ao exigir uma cota maior dos valores dos ingressos aos cinemas, o público pode passar a sentir isso no bolso eventualmente.

Outra amostra do poder da empresa é o veto do estúdio a um repórter do Los Angeles Times, por conta de uma reportagem que ia contra a companhia. Essa decisão arbitrária só foi revogada quando a associação de críticos de cinema de Los Angeles, de Nova York, de Boston e a sociedade nacional de críticos de cinema dos EUA se uniram e declararam que não iriam considerar nenhum filme da Disney / Pixar / Marvel / LucasFilm pra premiações enquanto o veto fosse mantido.

Não houve meio termo, foi uma queda de braço que, dessa vez, teve a corporação como derrotada. E da próxima vez? Como será? Quem terá força para bater de frente com um gigante desses em outros casos? Esse tipo de questão assusta um pouco.


Quadrinhos

Todo mundo está feliz com a possibilidade dos X-Men se juntar ao universo cinematográfico da Marvel, algo que parecia distante há poucos anos. Vale lembrar que nos anos 1990, em situação financeira desesperada, a Casa das Ideias negociou com estúdios cinematográficos os direitos de alguns dos seus personagens mais importantes e valorizados.

Aí começou toda a bagunça que impedia o MCU de ter os maiores personagens da Casa das Ideias juntos no cinema. A Fox ficou com Quarteto Fantástico (os primeiros personagens criados por Stan Lee para a Marvel) e com os X-Men (o grupo mais popular dos quadrinhos dos anos 1990).

Como consequência, temos o MCU com a Disney. O universo mutante na Fox, enquanto Quarteto Fantástico foi deixado de lado pela raposa. Hulk no MCU, mas com direitos na Universal. Homem-Aranha com a Sony, mas em acordo para ser usado nos filmes dos Vingadores. Complexo. A compra da Fox deve resolver pelo menos a questão dos X-Men, já que Quarteto é da Constatin Films. 

+ Veja os personagens da Marvel que a Disney passa a ter ao comprar a Fox

Vale lembrar que Kevin Feige, o chefão da Marvel Studios, deixou claro no passado que sempre teve planos de contingência para o MCU, por isso o Homem-Aranha chegou ao Universo Cinematográfico da Marvel com tanta tranquilidade e rapidez. "A gente sempre opera com essas linhas de tempo alternativas e estamos prontos pra mudar caso alguma coisa aconteça", disse ele na época do Blu-Ray de Vingadores: Era De Ultron. E o mesmo deve acontecer com os X-Men agora! Essa é a parte boa de tudo isso, mas será que o custo, vale?

Pelo menos podemos ficar tranquilos em um outro aspecto, afinal tudo indica que a Disney vai respeitar o que foi feito de positivo e manter longas adultos em produção, como Deadpool e Logan. Se o peso será o mesmo e como funcionará a integração desses personagens com o MCU é uma enorme dúvida ainda.


Parques

Star Wars sempre teve um baita espaço por lá, mesmo antes da Lucasfilm ser comprada pela empresa do Mickey. Avatar, da Fox, já é uma atração criada em conjunto com James Cameron. Claro que agora facilita para as franquias da FOX aparecerem nos parques oficias da empresa, mas não devemos ter mudanças absurdas nessa questão, pelo menos não no primeiro momento. Entretanto, quem não gostaria de ver mais atrações dos filmes que amamos ao visitar Orlando?  

Agora é esperar para ver na prática o que vai acontecer realmente. E vocês, o que acham da compra? Como acham que isso vai afetar as produções que mais gostam?

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