A História do Western: Conheça o gênero que Tarantino resgata em Django Livre

Dos primeiros faroeste aos dias de hoje, conheça a história de um dos gêneros mais profícuos do cinema

15/01/2013 18h20


Western: gênero que romanceou a conquista do Oeste americano

Armado? Não? Então prepare-se, caubói, e explore conosco um dos gêneros mais férteis do cinema: o western. Surgido como um subgênero do filme histórico, o faroeste, como também é conhecido, contou de maneira romanceada a história da conquista do Oeste dos EUA e foi, durante décadas, o maior representante da produção cinematográfica norte-americana. Surgiu ainda na época do cinema mudo e seguiu impávido até os anos 60. Na década seguinte, graças a algumas modificações estruturais, ganhou sobrevida, perdendo fôlego com a proximidade dos anos 80.

A conquista do Oeste por milhares de aventureiros em busca de riqueza ou, na pior das hipóteses, uma vida melhor, faz parte da história estadunidense e foi retratada em diversos filmes. A maioria dessas produções, feitas antes de 1950, procurava legitimar a conquista dos territórios ocupados pelos indígenas, retratando-os como selvagens impiedosos, bárbaros que precisavam ser pacificados. A intenção era validar a atitude dos conquistadores e, por isso, era comum exagerarem na agressividade e selvageria das tribos. Na verdade, como se sabe hoje, a história era outra. Com raras exceções, os índios fugiam do combate e suas técnicas de guerra eram rudimentares diante do poderio dos invasores. Sem contar que as doenças levadas pelos brancos eram, por si só, uma arma bem eficaz. A vida dos índios era bem diferente da retratada em filmes como No Tempo das Diligências (1939) e Sangue de Heróis (1948), de John Ford, Rio da Aventura (1962), de Howard Hawks, ou Os Comancheiros (1962), de Michael Curtiz; produções que ajudaram a fixar uma imagem deturpada dos indígenas.

Foi só a partir de meados da década de 50 que se deu uma ruptura com o western clássico, que tratava o índio como um estranho em sua própria terra. Dois cineastas tiveram papel de destaque nesse movimento: Anthony Man e Delmer Daves. São deles os filmes emblemáticos desse período: O Caminho do Diabo (1950), de Man, e Flechas de Fogo (1954), de Daves. Outras obras que merecem ser citadas como contestadoras são O Último Bravo (1954), de Robert Aldrich, e Renegando o meu Sangue (1957), de Samuel Fuller. Nelas, os índios deixam de ser ridicularizados ou tratados como selvagens impiedosos e sem alma.

Onde a ficção vale mais que a realidade

Ainda assim, boa parte dos faroestes dessa época passou longe da realidade histórica. O público de então estava pouco interessado se o que via na tela era verdade ou não. Essa atitude ajudou a moldar o lendário Velho Oeste: sempre maniqueísta, tendo como tema central o conflito entre lei e desordem, honestidade e corrupção, honra e falta de escrúpulos. Surgiram as cidades violentas, os saloons – lugares de desavenças -, os acertos de contas pessoais e os duelos nos quais se disputava quem era o mais rápido. Um retrato distante do verdadeiro Oeste, onde os pistoleiros não costumavam perder seu tempo em disputas - preferindo matar seus desafetos em emboscadas ou pelas costas -, onde as prostitutas, longe de serem bonitas e bem asseadas com as estrelas de cinema, eram em geral prostitutas desdentadas e doentes. Nas telas, claro, prevaleceu o romântico Oeste de filmes como Paixão dos Fortes (1946), de John Ford, uma das muitas produções feitas sobre o lendário xerife Wyatt Earp e o famoso duelo do curral OK.; Matar ou Morrer, de Fred Zinnemann, Onde Começa o Inferno (1959), de Howard Hawks, e sucessos como Sete Homens e um Destino (1960), John Sturges.

Foto: Divulgação

Henry Fonda como o lendário xerife Wyatt Earp em Paixão dos Fortes, de John Ford

O Western Spaguetti

No início dos anos 60, surgiu na Itália uma nova faceta do gênero, o spaghetti. Diferente dos faroestes americanos, as produções italianas exploravam mais a violência. O sangue jorrava das feridas, os caubóis elegantes davam lugar a homens sujos e com a barba por fazer. Mas não se engane, a verossimilhança para por aí. Em matéria de enredo, os spaghetti westerns costumavam beirar o cômico. Eram comuns sequências na qual um pistoleiro, sozinho, liquidava seis oponentes de uma vez. Ou então arrancavam-lhes as armas das mãos com tiros certeiros e improváveis. A primeira produção do gênero foi O Dólar Furado (1962), de Giorgio Ferroni. No filme, um ex-prisioneiro de guerra (Giuliano Gema) é salvo de um tiro fatal por uma moeda de dólar. Recuperado, parte em busca de vingança.

Mas foi com Sergio Leone, considerado o pai do spaghetti, que o subgênero ganhou renome internacional. Leone dirigiu uma trilogia hoje considerada clássica: Por um Punhado de Dólares (1964), Por uns Dólares a Mais (1965) e Três Homens em Conflito (1966), todos protagonizados por Clint Eastwood, ilustre desconhecido na época. A inventividade do diretor aliada à marcante trilha sonora de Ennio Morricone fizeram dos filmes grandes sucessos, que superaram todos os recordes de bilheteria dos faroestes feitos até então. Eastwood, cuja a carreira não decolava nos EUA, se alçou a posição de astro internacional. Em 1968, já famoso, Leone dirigiu o que hoje é considerado um dos grandes westerns de todos os tempos: Era Uma Vez no Oeste, estrelado por Henry Fonda e Charles Bronson, dois atores com quem o cineasta sempre quis atrabalhar. O filme conta em seu final com a cena de duelo tida com a mais bem dirigida da história do cinema.

Os americanos, que de repente perderam a hegemonia do gênero, só deram a volta por cima em 1969, com o lançamento de Meu Ódio Será Tua Herança, de Sam Peckinpah, símbolo de uma nova fase na produção do país e sucesso de crítica e público.

A época áurea dos spaghetti westerns durou pouco, mas seu estilo inconfundível permanece vivo na memória dos fãs até hoje. O gênero também influenciou diretores anos depois, como o mexicano Roberto Rodriguez, que em 1992 dirigiu El Mariachi, faroeste ambientado nos anos 90. A produção chamou tanto a atenção que convidaram Rodriguez a fazer uma versão mais caprichada, A Balada do Pistoleiro (1995), com Antonio Banderas e Salma Hayek nos papéis principais. No filme, como nos clássicos spaghetti westerns, Rodriguez usa e abusa das situações inverossímeis, dos duelos impossíveis e de clichês do gênero.

Foto: Divulgação

A bela Claudia Cardinale em cena de Era Uma Vez no Oeste, de Sergio Leone

O crepúsculo de um gênero

O western hoje não é mais um gênero com produção continuada. A fórmula que fez seu sucesso - a criação de uma ficção em cima de um fato histórico – foi, curiosamente, a causa de seu fim, quando começou a ser acusado de deturpar a História. Em meados dos anos 80, teve início uma tentativa de ressuscitar o gênero, com o lançamento de filmes como Silverado (1985), Os Jovens Pistoleiros (1988), Jovens Demais para Morrer (1990), Wyatt Earp, Tombstone e Quatro Mulheres e Um Destino, todos de 1994. A produção caprichada, o elenco de estrelas e a exploração de velhos clichês não foram o bastante para fazer o western decolar novamente. Mas nem tudo foi em vão. Nessa época, o público foi presenteado com os excelentes Dança com Lobos (1990) e Os Imperdoáveis (1994), ambos vencedores do Oscar de Melhor Filme. Antes deles, apenas um faroeste havia sido premiado na categoria: Cimarron (1931), de Wesley Ruggles.

Mesmo ultrapassado, o gênero mostra que ainda tem força. Em 2010, a refilmagem de Bravura Indômita, cujo original de 1969 foi estrelado pela lenda John Wyane, arrasou nas bilheterias e deu aos irmãos Coen a maior arrecadação de suas carreiras. Este ano, com o lançamento de Django Livre, de Quentin Tarantino, um legítimo western volta a figurar entre os candidatos ao Oscar de Melhor Filme.  

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