Análise: Lars von Trier, Carax, Bowie e a falta de amor

Ninfomaníaca, Sangue Ruim e Boy Meets Girls estão em cartaz em São Paulo. Entenda melhor o que há por trás desses longas

19/01/2014 21h39

Esse é um texto sobre amor. Mas sobre amor nos dias de hoje. Ou seja, o avesso do amor.

Quem passou pelos cinemas de São Paulo ultimamente não pode deixar de notar as longas filas de cinéfilos e não cinéfilos procurando saber quem era a tal Ninfomaníaca. Ávidos por voyeurismo ou polêmica, a questão era o sexo. Sexo sem interesse. Na sessão que assisti, de um cinema fora do circuito cult, o silêncio fez da sala um túmulo.

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Ninguém esperava por aquilo que via, mas ninguém se recusou a ver. Ninfomaníaca prende por um anzol muito simples: precisa-se saber onde Lars von Trier quer chegar. E como ele consegue segurar centenas de espectadores mesmo dando o oposto do que havia oferecido?

Pôsteres cheios de prazer e cenas eróticas foram divulgados aos montes. Eis o ponto: a propaganda foi usada para nos enganar. A quebra de uma expectativa enorme realçou ainda mais o sentimento de apatia provocado por Joe. Se pensarmos pela lógica da publicidade, teríamos consumidores insatisfeitos. Mas não é o que acontece. Lars está subvertendo o sistema por dentro, mais uma vez. 

Esse caminho sem fronteira entre realidade e ficção já é conhecido do diretor. Reza a lenda que ele humilha pessoalmente os atores para conseguir determinada sensação do personagem, por exemplo. Bom, pelos traumas de Nicole Kidman (Dogville) e Björk (Dançando No Escuro) faz sentido. 

Dogville

Dogville

Já mais restritos aos interessados pelo tal cinema-arte, Boy Meets Girl e Sangue Ruim também abordam a questão do amor "moderno". Os filmes de Leos Carax chegam ao Brasil cerca de 20 anos após terem sido lançados lá fora.

No segundo deles, apoiado nas palavras descrentes de David Bowie numa cena já clássica, Denis Lavant se contorce com uma estranha dor pelas ruas, numa espécie de dança convulsiva causada pelo concreto que comeu na prisão (o recente Frances Ha fez uma homenagem a essa passagem)

O concreto de Alex tem o peso de ser frio, assim como as paredes dos prédios que cercavam Sean Penn em A Árvore Da Vida. Existe uma crise forte da pós-modernidade chegando com violência aos cinemas. Em comum, tanto o filme do dinamarquês quanto o de Carax mostram as consequências da falta de sentimento. Obviamente, o buraco fica muito além do amor romântico. É o vazio estéril, cinza e mecânico. Concreto.

No longa, Alex é apaixonado pela personagem da jovem Juliette Binoche (e quem não seria?), sentimento desproporcional na comparação à mera empatia dela. Ao mesmo tempo, uma doença transmitida pelo sexo sem amor se alastra pela cidade. A alusão à AIDS é somente parte do contexto simbólico abraçado por essa ideia.

Lars von Trier joga Charlotte Gainsbourg na sarjeta logo no início de Ninfomaníaca. O começo quase divertido e ousado das garotas vagando pelo trem continua debochando da credulidade infantil que foi criada em torno de Joe. Lars joga dados e ganha todas as rodadas. Arranca risadas durante o seu filme e caminha despretensiosamente até nos levar a um louco cheio de merda numa cama de hospital. Vamos continuar rindo?

Ninfomaníaca associa o sexo à morte e à escatologia livremente, a impulsos violentamente reprimidos. Difícil não lembrar de Freud em O Mal-Estar da Civilização. Mal-estar esse que se anuncia em voz alta. Estamos rodeados de filmes cheios de festas e pessoas bonitas, os quais envolvem a decadência numa aura dourada.

O Lobo De Wall Street e Trapaça brilham em trailers e no Oscar 2014, assim como a adaptação de O Grande Gatsby fez no ano passado. Existe um mundo desesperadamente em colapso, rindo com suas taças de champagne ao alto.

Mas, festejando ou chorando, o labirinto é o mesmo. E como bem diz David Bowie enquanto Denis Lavant se retorce ao som de Modern Love: Não há sinal de vida, é só o poder do charme.

Denis Lavant

Denis Lavant corre contra o vazio em Sangue Ruim

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