Análise: Quando o "cinema gay" deixa de ser apenas gay

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho entra para lista de novos filmes que ampliam perspectiva sobre homoafetividade

10/04/2014 17h10

There's too much love to go around these days. Como indica a música do Belle & Sebastian e trilha de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, que estreia nesta quinta-feira (10), há muito amor circulando nesses dias. Felizmente. O longa de Daniel Ribeiro chega aos cinemas após ganhar destaque em vários festivais - incluindo o de Berlim, onde faturou o prêmio da crítica.

A trama mostra o dia a dia de dois meninos descobrindo os vários sentimentos que emergem na adolescência; um deles, cego. E apesar de homossexualidade, deficiência visual e preconceito serem temas presentes, a história não se apega demasiadamente a nenhum deles: é leve, bem-feita e divertida. As particularidades dos personagens compõe um quadro amplo, não os limitam a determinados rótulos. 

Estava mais do que na hora de as relações homoafetivas serem encaradas de forma mais sensível, e não apenas pelos vieses sociopolítico e sexual - obviamente, estes são muito necessários e não deixam de existir nesse caso. Mas tão importante quanto expor a intransigência é ampliar a perspectiva.

No último ano, tivemos bons exemplos nesse sentido. O nacional Flores Raras explorou a relação de duas grandes mulheres, a poetisa Elisabeth Bishop e a arquiteta brasileira Lota de Macedo. Já o francês Azul É A Cor Mais Quente trouxe a história de amor entre duas meninas comuns.

Azul é a Cor Mais Quente

Ironicamente, apesar de ter entrado em debate por conta da longa cena de sexo, o filme envolve por outro lado, ao colocar o plano sentimental em evidência. Não vamos nem entrar na questão do moralismo em torno da sexualidade, justamente em um país que se diz tão libertário em relação ao corpo, pois isso renderia outro texto...

Com foco nos rapazes, o belíssimo Tatuagem levou às telas a relação de um artista e um militar na época da ditadura no Brasil, apresentando um período pesado por meio de uma delicadeza estética ímpar.

Agora, a grande diferença de Hoje eu Quero Voltar Sozinho, é trazer um certo ar fresco para o debate. Não há o peso extremamente dramático de Flores Raras e Azul..., nem a densidade de Tatuagem. Vemos apenas dois adolescentes passando por dilemas típicos da idade, com o acréscimo de alguns obstáculos que a deficiência visual impõe a um deles.

Aliás, o longa tem alguns problemas comuns a filmes do gênero teen, como um certo apego à felicidade utópica.

Tatuagem

Há uma passagem similar entre o filme de Daniel Ribeiro e a história das meninas francesas que merece atenção: a cena da saída da escola, quando os casais de cada trama são abordados pelos demais colegas. Qual situação se aproxima mais da realidade? Fica a dúvida, levando em conta o contexto de cada país e de cada geração. 

Apesar de não ser nenhum O Som Ao Redor do cinema nacional, marcante também em termos de forma cinematográfica, a crítica se rendeu em peso a este belo trabalho de estreia. Nesse caso, o amor realmente fala mais alto. As salas de cinema lotadas podem ser o lugar ideal para muitos repensarem a relação de respeito com o próximo.

Precisa-se da consciência trágica dos já clássicos Meninos Não Choram e Monster, que continua forte nessa nova leva de filmes. Mas a doçura de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho também se faz urgente, pois justamente essa delicadeza pode ser a arma mais eficiente contra o preconceito. 

 

+

Análise: Lars von Trier, Carax, Bowie e a falta de amor

12 Anos de Escravidão, Django Livre e a Moldura do Preconceito

Scarlett Johansson, que voz é essa? Entenda o efeito da atriz em Ela

 

Deixe seu comentário
comments powered by Disqus