Bacurau vem para reabrir discussão, diz Sônia Braga em SP

Longa venceu o Prêmio do Juri de Cannes e estreia em 29 de agosto

20/08/2019 18h58

Por Daniel Reininger

Sônia Braga volta às telonas em Bacurau, que estreia no dia 29 de agosto, é dirigido por Kleber Mendonça Filho (Aquarius) e Juliano Dornelles e foi o vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2019. Em uma coletiva de imprensa realizada nesta terça-feira (20), em São Paulo, equipe e elenco falaram sobre o longa e sobre a atual situação do Brasil.

Um país dividido

O filme se passa num futuro sombrio, mas também traz uma história muito atual. Até por isso é capaz de levantar questões importantes para o país nesse momento de insegurança. "Quando chegamos com Aquarius depois de Cannes, o Brasil estava completamente dividido. Agora, Bacurau vem para abrir uma discussão. Para que a gente volte a conversar. Para que a gente encontre um caminho. Rápido. Porque se não encontrar o mundo acaba em dez anos", completa.

A atriz afirma que entendeu ainda melhor o Brasil graças à relação próxima com os habitantes do povoado de Barras, onde o filme foi rodado. "Eu não queria só estar lá. Não queria fazer só um filme. Eu queria me entender também. Compreendi muito fazendo Domingas. E entender também, fazendo esse trabalho, esse Brasil."

O longa é uma mistura de drama, faroeste e ficção científica, e mostra um vilarejo do interior pernambucano, esquecido pelos seus governantes, mas ameaçado por forças externas, ambientado num Brasil ainda mais desigual e desumano em um futuro próximo e opressor.

O filme traz muita ação, mas também traz uma crítica ao uso indiscriminado das armas. "Por mim estariam todas no museu, como acontece no filme", diz o diretor. "Bacurau é cheio de reflexões sobre a vida do mundo, do Brasil, do nordeste. Da visão do Brasil no mundo e do Nordeste no Brasil."

Segundo o codiretor Juliano Dornelles, Bacurau representa o Brasil que vivemos: "Um país rico em absurdos, violência e deseducação. Isso é alimento para 2.000 filmes. Bacurau foi só mais um", afirma.

Para Mendonça, o longa não precisa necessariamente ter uma moral ou  uma crítica. "Nunca escrevi nada com a intenção de passar uma mensagem. Quando eu escrevo um filme eu não penso em passar uma mensagem. Meus filmes têm conflitos que se anulam", conta o cineasta.

Apesar do diretor não ter tido a intenção de passar uma moral, a mensagem é clara e foi o que fez Sônia Braga embarcar nessa produção. "Só aceito fazer um filme se ele me passa uma mensagem. E hoje existe um sentimento de resistência no mundo. Estamos falando do Brasil e há mudanças que precisam ser feitas". A atriz ainda brincou várias vezes com o bordão "Ele, não" e mencinou diversas vezes o caso Marielle Franco, vereadora e ativista pelos direitos humanos assassinada no Rio.

Realidade x ficção

A verdade é que Bacurau é sobre o futuro do Brasil. "É sobre esperança. Sobre trazer uma revisão. Porque, no fim das contas, todos querem a mesma coisa. Tenho esperança que o filme abra uma discussão para as pessoas voltarem a conversar e que encontrem um caminho rápido", concluiu Sônia Braga.

O filme é uma crítica pesada e chega bem em meio a ameaças do governo federal de censurar projetos apoiados pela Ancine (Agência Nacional do Cinema), órgão que o presidente Jair Bolsonaro já ameaçou extinguir. Afinal, cultura é uma afronta para os opressores.

Mendonça Filho salientou que, como o Bacurau possui financiamento público, Bolsonaro tem o dever de assistir ao filme como cidadão, mas reconhece que é impossível dizer se ele existiria caso começasse a ser produzido hoje. Os mecanismos de apoio ao cinema junto à Petrobras usados na produção não existem mais.

Nos créditos finais, um mensagem afirma que o longa gerou 800 empregos de forma direta e indireta, clara mensagem ao atual governo. "A arte tem o poder de provocar. Não podemos ficar calados. Temos que fazer valer nossos direitos adquiridos e tentar mudar a realidade a partir desse ponto", disse o ator Silvero Pereira, que vive um assassino que, no fim, defende à população diante do extermínio apoiado por políticos.

A crítica do filme está no fato do Brasil não enxergar seus oprimidos. Não querer enxergar suas dificuldades e não querer abrir mão da situação de colônia diante do imperialismo. "A sensação de perder direitos, que foram adquiridos à custa de muita gente, é horrível. Cultura é um bem essencial. Não é supérfluo. Sem ela, não somos seres humanos", finaliza a atriz Karine Teles.

Sônia Braga ainda fechou deixando claro que não vai se calar nunca. "Eu quero sim saber quem mandou matar Marielle". Nós também. E esperamos que filmes como Bacurau continuem existindo diante de um governo sem interesse em apoiar a educação e a arte.

Assista ao trailer:

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