Balanço do Festival de Paulínia: os negros vão ao cinema (na frente e por trás das câmeras)

26/07/2010 18h05

























Talvez pelo dedo da curadoria, que percebeu o potencial em agrupar 5x Favela – Agora Por Nós Mesmos e Bróder na mostra competitiva, pela cartela de produções disponíveis para seleção ou pelo acaso que dá brilho ao cinema. Seja qual for a razão, a 3ª edição do Festival de Paulínia abrigou uma rica discussão em torno de ambos os filmes, um debate que ainda promete resvalar para o futuro do cinema brasileiro.

O longa coletivo de moradores de comunidades cariocas e a estreia do paulista Jeferson De na direção de um longa-metragem colocaram à tona uma discussão que vinha sendo jogada para debaixo do tapete: os negros e favelados estão aí, fazendo um cinema talentoso e com propostas. Trocando em miúdos, sangue novo. O que faremos com eles?

O que o cinema brasileiro, que desde 1994 é feito e voltado majoritariamente para a classe média, fará com esses realizadores? Como a produção cíclica vai incorporar os promissores cineastas que despontam em 5x Favela – Agora Por Nós Mesmos e Bróder? Após o festival, como esses filmes chegarão ao minúsculo parque exibidor ocupado em 90% por três ou quatro blockbusters? Num país cuja massa pobre é negra em sua maioria vai dar espaço a diretores negros? A partir desses dois filmes, quais as possibilidades de representar a favela e a periferia?

Para um festival como Paulínia que começou, em 2008, dando atenção demais às celebridades, abrigar discussões tão importantes é um gigantesco passo em direção ao Cinema. Em 2010, o Festival de Paulínia teve a oportunidade única de colocar lado a lado dois filmes que nos ajudam a entender o que é ser brasileiro – para além dos lugares comuns da “diversidade” e do retrato “multirracial”.

O cinema popular, o falso popular e o diálogo

Assim como os outros festivais, Paulínia teve seus momentos pouco gloriosos. Em 2010, os responsáveis foram a pretensão de As Doze Estrelas e o suposto apelo popular de Dores e Amores. Especialmente o segundo, de Ricardo Pinto e Silva, serviu para novamente questionar o que é cinema popular.

Sim, não existe fórmula e até mesmo os indícios que geralmente servem de explicação (por exemplo, diálogo com a linguagem televisiva) falham. O ótimo curta-metragista Daniel Ribeiro apresentou Eu Não Quero Voltar Sozinho, filme gay sobre a descoberta da sexualidade, com direito a beijo entre dois garotos. Foi profundamente aplaudido pelo público, reconhecido tanto na premiação do júri popular como na do oficial.

Malu de Bicicleta, que foge do hermetismo, mas também passa longe da comédia romântica esdrúxula, também foi ovacionado e lembrado, numa escolha corajosa, pelo júri. Já Desenrola, mistura de Malhação e High School Musical, representa uma válida tentativa comercial de chegar ao mercado jovem, também foi aplaudido.

O que isso demonstra? Que é impossível definir cinema popular e que o sofisticado não é sinônimo de “filme difícil feito para meia dúzia de pessoas”. Um filme gay pode ser popular, assim como uma comédia romântica ou um filme recheado de nomes da TV entre os coadjuvantes. Formação de plateia é um dos pontos nevrálgicos de um festival de cinema e, neste ano, Paulínia, que carecia de discussões potentes, fez sua parte com casa cheia quase todos os dias.

O cinema catarse e o documentário do respeito

Outro momento importante desse ano foi a reação do público a dois documentários completamente diferentes. Lixo Extraordinário aproveita-se de seus personagens para alavancar a estrela do filme, o artista plástico Vik Muniz, dando como troca a possibilidade dos catadores de material reciclável do Aterro do Jardim Gramacho saírem do anonimato extremo. Um filme-catarse, certamente o mais aplaudido durante uma semana de festival.

As Cartas Psicografadas de Chico Xavier faz o caminho inverso. É imensamente respeitoso com suas personagens (na verdade, pessoas), mães que falam sobre morte e luto. Um filme-dureza, que reconhece a impossibilidade de filmar a ausência, mas que é circunscrito pela própria proposta de entender intervenção como um ato que tripudia do entrevistado.

Dois extremos de um estilo de cinema. Mesmo que eu discorde de muitas opções de As Cartas Psicografadas de Chico Xavier, acredito que seja mais válida a busca por algo deste filme do que a expiação de culpa da classe média representada por Lixo Extraordinário.

Para onde vamos?

Paulínia 2010 acabou há apenas três dias e o festival existe há somente três anos. O Pólo Cinematográfico ainda continua sendo bem maior do que o próprio festival, mas ainda é muito cedo para fazer afirmações sobre o futuro de ambos. O que se tornou perceptível, especialmente pelas discussões deste ano (cuja importância já havia sido ressaltada por Celso Sabadin, meu amigo e também crítico do Cineclick), é que o Paulínia Festival de Cinema ficou bem menos sem graça.

O repórter, que viajou a convite da organização do festival, cobriu a primeira e a terceira edição do evento

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