Bastardos Inglórios faz 10 anos como obra prima de Tarantino

Longa de Tarantino continua relevante e interessante

21/08/2019 19h20

Por Daniel Reininger

Quentin Tarantino é reconhecido principalmente pelo frescor no estilo que ele traz ao cinema moderno. Atualmente, o mundo do cinema está de olho em seu novo lançamento, Era Uma Vez Em... Hollywood, mas em agosto uma de suas obras primas faz aniversário: Bastardos Inglórios, seu filme mais maduro e bem resolvido, apoiando-se no excelente texto, atuações marcantes e a complexidade narrativa.

E 10 anos depois de seu lançamento, o filme continua extremamente relevante. A trama acompanha um grupo de militares judeus norte-americanos que, liderados pelo Tenente Aldo Raine (Brad Pitt), resolvem matar nazistas na França ocupada, durante a Segunda Guerra Mundial.

Na época do lançamento, a história revisionista provocou, sem surpresa, uma série de debates e críticas. Alguns judeus, especialmente aqueles envolvidos no filme, como o ator Eli Roth e o produtor Lawrence Bender, acharam a fantasia de vingança fortalecedora e satisfatória. Para outros, Tarantino fez com que os judeus violentos tivessem atitudes comparadas aos nazistas.

Atualmente, com extrema direita chegando ao poder ao redor do mundo, intolerância, crimes de ódio se multiplicando, defesa da violência como resposta a tudo, o filme se torna ainda mais poderoso pela importância da resistência e, paralelamente, o horror da violência desefreada cometida pelos dois lados em busca de vingança e reparação. 

Sem falar que é interessante imaginar as discussões que aconteceriam ao redor do filme se ele saísse em 2019 e não em 2009. O que diriam os defensores de Trump ou Bolsonaro diante de um filme que mostra uma minoria lutando por seus direitos? Já consigo imaginar argumentos deturpados sobre temas diversos apresentados nesse longa.

Cena de Bastardos Inglórios

O roteiro de Bastardos Inglórios levou dez anos para ficar pronto e esse tempo de maturação é refletido na tela. Tarantino mistura figuras reais – como Adolph Hitler (Martin Wuttke) e Joseph Goebbels (Sylvester Groth) – aos fictícios, criando uma trama capaz de prender o espectador. E, como já é de praxe, Tarantino mistura cenas de extrema violência ao humor.

Vale lembrar, porém, que Quentin Tarantino não está interessado no Holocausto, nem na Segunda Guerra Mundial, e sim em filmes sobre a Segunda Guerra Mundial. O diretor recriou com maestria o estilo de filme em que um bando de soldados sai em uma missão secreta e têm licença para fazer o que quiserem atrás das linhas inimigas. Violento? Sim. Mas a arte pode ser expressada de qualquer forma, sem censura.

O filme é marcante também pelo cínico Coronel Hans Landa (Christoph Waltz), nazista a serviço da SS. O antagonista trava um duelo memorável com Pitt, o protagonista. Os personagens estão juntos em poucas cenas do longa, mas travam um duelo apoiado por excelentes atuações, dando base ao positivo resultado final ao filme. Waltz constrói um personagem que, embora conduzido pela crueldade de um regime político como o Nazismo, tem carisma e conquista o público com sua ironia. O ator ganhou notoriedade no mundo pop a partir desse longa.

A conclusão de Bastardos Inglórios traz uma bela homenagem ao cinema, algo aprofundado em seu mais recente filme, Era Uma Vez. Mas no longa que faz aniversário, as referências a figuras importantes da história do cinema já eram marcantes, como no uso de composições de Ennio Morricone, mestre da trilha sonora. Fica óbvio que Tarantino já sabia o que queria e para onde pretende ir.

E, sem dúvida, Bastardos Inglórios é um filme para ver e rever.

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