BRASÍLIA 2012: Elena e Otto: dois filmes pessoais, mas muito diferentes

Vencedores do Festival serão conhecidos na noite desta segunda em Brasília

24/09/2012 03h11

Foto: Divulgação

Elena: filme pessoal com respeito ao público

A 45ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro exibiu ao longo de sua programação competitiva, encerrada na noite deste domingo (23), dois documentários com histórias muito pessoais. Em Otto, de Cao Guimarães, e Elena, de Petra Costa, a vida privada dos realizadores está na tela aberta ao público.

Há, no entanto, uma diferença medular entre esses dois longas-metragens que competem pelo mesmo prêmio. Otto é um filme egocêntrico, individualista, que revela, ao longo de seus 70 minutos de duração, um grande desdém pelo público. Seu diretor resolveu acompanhar o processo de gravidez da própria mulher até o nascimento do filho, que dá título ao filme. E não é na proposta que reside o problema.

Uma bela mulher grávida sendo gravada em seu cotidiano é algo que nos remete aos melhores pensamentos que temos dentro da gente. A concepção, por mais óbvia e corriqueira que seja à nossa existência, tem o poder de nos tocar de imediato. Para quem vive o momento, as tintas são ainda mais fortes. Mas o diário filmado de Guimarães (rico em belas imagens, não há como negar) é um filme que pertence a ele. Tem pretensões de ser uma celebração à vida e ao amor, mas é tão somente um apanhado de atrentes imagens que têm, e sempre terão, muito a dizer a ele, a Florencia Martínez, sua mulher, e a Otto, quando este estiver crescido. E só.

Elena, por outro lado, não fala de concepção, de nascimento, de vida, está no oposto extremo: trata de morte e perda. Como Otto, reflete algo muito pessoal e íntimo na vida de seu realizador, a cineasta Petra Costa. No entanto, e também mais uma vez no máximo oposto do filme de Guimarães, respeita e propõe um diálogo com o público. Petra não fez um filme somente para ela ou para seus familiares. Quando decidiu contar este episódio de sua vida na tela, se imbuiu da responsabilidade de estar levando algo a alguém. Essa coletivo indecifrável e heterogêneo que, afinal, é quem paga a conta.

Foto: Divulgação

Otto: individualista e autocentrado

Em Elena acompanhamos Petra refazendo os passos da irmã mais velha, que saiu do Brasil rumo a Nova York atrás de seguir a carreira de atriz de cinema. Esse também era o desejo da mãe de ambas, nunca posto em prática. Ela e o marido enfrentaram a ditadura militar brasileira e foram salvos, involuntariamente, por Elena, na época há seis meses na barriga da mãe, o que impediu o casal de encontrar a morte certa no combate com os militares na guerrilha do Araguaia.

Imagens de arquivo da família, dos tempos em que Petra era apenas um bebê e Elena uma adolescente, se mesclam a filmagens feitas em Nova York pela diretora, reconstruindo os caminhos da irmã e dela mesma, quando foi morar na cidade.  A composição dessas imagens é essencial ao fluxo narrativo da trama. Uma Nova York densa, captada em fotografia suja e pontilhada, revela a metrópole desconhecida e cheia de perspectivas a ser descoberta por Elena. As cenas atuais, de Petra e sua mãe narrando os acontecimentos, estão sob luminosidade aberta e sem distorções, demonstrando a clareza e tranquilidade a que chegaram mãe e filha para reviverem esse momento dramático de suas vidas.

Não é o drama pessoal da diretora, no entanto, que faz de Elena um grande filme. Como não seria o idílio do nascimento de um bebê que salvaria Otto. É como tudo isso é transformado em obra de cinema. Petra, ao contrário de Guimarães, se preocupou em fazer de seu filme um caprichado produto cinematográfico para seu público, sem achar que seu entendimento bastaria, que sua catarse pessoal era suficiente.

Em resumo, Elena é um filme incondicionalmente individual, mas com grande comunicação com a audiência. Um compartilhamento de vivência pessoal, ao contrário do autocentrado e indiferente Otto.


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